Como receber uma crítica sem se ofender?

Como receber uma crítica sem se ofender?

“No momento em que qualquer um dos lados se vê criticado, diagnosticado ou intelectualmente interpretado, sua energia se volta para a tentativa de se defender e de contra-atacar, não para encontrar soluções que atendam às necessidades de todos.”

Marshall Rosenberg, em seu livro, Vivendo a Comunicação Não Violenta

 

“Há apenas uma maneira de não receber críticas: não faça nada, não diga nada, não seja nada.”

Elbert Hubbard

 

Como receber uma crítica sem se ofender?

 

1) Não responda imediatamente

De imediato, não se defenda, não se feche, não se justifique.

Mas também não se submeta, não obedeça, não saia querendo resolver o problema atendendo todos os desejos da pessoa que faz a crítica.

Regule seus instintos defensivos. Se não há riscos imediatos à vida ou à direitos fundamentais das pessoas envolvidas, faça uma pausa para ser capaz de enxergar a situação por um ponto de vista mais alto.

 

2) Converse

É possível dialogar com a pessoa que fez a crítica?

Se sim, faça perguntas que ajudem a “desembrulhar” a crítica, e encontrar a mensagem preciosa que existe dentro dela.

 

3) Empatia

Se não for possível dialogar, faça hipóteses sobre as necessidades e os pedidos da outra pessoa.

Traduza a crítica em necessidades e pedidos:

Do que essa pessoa está tentando cuidar?
O que ela está tentando proteger?
O que é importante para ela?

Qual o pedido por trás da crítica?
O que ela gostaria de ver acontecendo?

 

Busque as razões pelas quais você sentiu desconforto ao escutar aquela crítica.

O que estou tentando proteger?
Do que tenho medo?

 

4) Aprenda

Todos nós precisamos dos olhares de outras pessoas para nos ajudar a enxergar além das nossas perspectivas.

As críticas podem carregar mensagens importantes que iluminam nossos pontos cegos.

“Tudo o que você procura e percebe arranja um jeito de comprovar qualquer coisa em que você acredite.”

 

Pince as informações novas que aquela crítica te trouxe.

Que informações tenho agora, que não tinha antes?

 

5) Filtre

De tudo que escutei, o que quero guardar, e o que quero descartar?

 

6) Cuide de você

Se você está recebendo uma crítica de alguém que parece ter a intenção de te ferir, e não existe a possibilidade de um diálogo, determine os limites que cuidam de você e que te ajudam a se manter alinhada aos seus valores.

Lembre-se que, quando uma pessoa te critica, ela não fala sobre você. Ela fala sobre o que ela precisa, sobre o que ela sente e sobre as expectativas dela.

Os julgamentos dela pertencem a ela, e não a você.

 

Segue um vídeo da Djamila Ribeiro que me inspirou a lidar com as críticas de uma forma mais leve:

 

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Sugestões de presentes para dar para uma pessoa importante (custam zero reais)

Sugestões de presentes para dar para uma pessoa importante (custam zero reais)

Esses presentes que o dinheiro não pode comprar, talvez sejam os mais caros.

 

Sua escuta acolhedora

Mais do que nunca, muita gente não vai bem. 

Ou perderam pessoas queridas, ou perderam seus empregos, ou têm trabalhado mais, ou estão sobrecarregadas sem apoio, ou estão sofrendo de saudades, solidão, medo…

Escute-as. Suspenda seu desejo de salvá-las, ou de consertá-las. Aceite-as como elas estão se sentindo. Lide com o seu desconforto ao presenciar a dor.

Respire, acalme sua alma, e escute.

 

Seu interesse em saber mais da história de vida dela

Faça perguntas curiosas, que não venham do desejo de confirmar seus julgamentos, mas sim que demonstrem o seu desejo de compreender a forma que ela vê o mundo.

“Me conta, como foi quando vocês se mudaram pra cá? Como era aqui? O que foi mais difícil?”

“Como era a sua relação com o seus pais? Seus avós? Seus irmãos? Quem eram seus melhores amigos?”

“O que você ainda gostaria de realizar?”

 

Os seus olhos nos olhos dela

Nosso bem mais precioso é a nossa atenção, a nossa presença.

Uma forma de demonstrar que você valoriza a pessoa que está ao seu lado é olhando para ela.

Para isso, lide com as distrações internas (seus pensamentos) e externas (seu celular).

Dê a atenção que você daria para uma celebridade. Neste momento, ela é a pessoa mais importante do mundo.

 

Uma apreciação (ou várias)

Mais do que elogios ou agradecimentos, diga para ela de que forma ela torna sua vida melhor.  Coisas que ela faz sem perceber, mas que têm grande importância para você.

Diga sobre as características dela que você admira, que te trazem inspiração.

E mesmo que a pessoa já saiba dessas coisas “óbvias”, expressar apreciações alimenta a alma e fortalece os laços.

 

Seu afeto

Se você admira essa pessoa, diga para ela “te admiro.”

Se você a ama, diga “amo você”. 

Se você está com saudades, diga “estou com saudades.” 

Se tudo que você queria era dar um abraço, mas não pode, diga “tudo que eu queria era era te dar um abraço”.

Diga. Seja para todo mundo escutar, seja só cochichando no ouvido, seja através de uma carta, ou mesmo por mensagem. 

Estamos todos e todas precisando de afeto (desde que nascemos).

Qualquer presente desses que você ofereça para alguém não deixam de ser presentes para você mesma, para a comunidade que vocês vivem, para nossas próximas gerações…

Relações onde as pessoas cuidam umas das outras é solo fértil para as conversas com o potencial de construir um mundo mais justo para todos nós.

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Numa conversa, quem deve ESCUTAR primeiro?

Numa conversa, quem deve ESCUTAR primeiro?

Está todo mundo precisando ser escutado. Mas todo mundo querendo falar. E aí? Quem começa escutando?

A resposta é: Quem tem mais condições para isso no momento da conversa.

Se você está numa posição de privilégio em relação à outra pessoa, seja você a primeira a escutar com empatia.

Se você está descansada, e a outra pessoa não,
se você tem apoio, e a outra pessoa não tem,
se você não está sentindo dor, e a outra pessoa está,
se você não está com medo, e a outra pessoa está,
se você pode se defender, e a outra pessoa não,
se você não precisa se preocupar com a sua sobrevivência e a da sua família, e a outra pessoa precisa,
VOCÊ TEM MAIS RECURSOS PARA ESCUTAR COM EMPATIA.

É impossível escutar com empatia quando estamos em nosso estado de defesa. Quando nossas necessidades não atendidas estão transbordando.

Ainda assim, adultos têm mais condições biológicas para gerenciar suas emoções do que crianças e adolescentes.

Pessoas em posições hierárquicas mais altas podem se sentir mais seguras do que quem está nas bases da pirâmide.

Enfim, pessoas que têm direitos fundamentais e necessidades básicas atendidas têm mais condições para oferecer empatia do que quem não tem.

Se essa pessoa é você, lembre-se que o caminhar da conversa para um diálogo ou um debate é mais responsabilidade sua do que do outro.

Sim, você terá sua vez. Mas você só poderá ter a sua necessidade de escuta atendida pela outra pessoa se, antes, ela se sentir compreendida.

Construa rede de apoio. Aprenda metodologias, ferramentas, técnicas. Fortaleça seus valores. Desenvolva-se pessoalmente para cuidar de quem precisa. Minimamente cuidadas, elas terão condições para cuidar de você.

PRIVILÉGIOS CARREGAM RESPONSABILIDADES
O que você tem feito com os seus?

5 dicas para quem tem dificuldade de dizer “não”

5 dicas para quem tem dificuldade de dizer “não”

1

Não responda imediatamente

Tome um tempo para pensar e fazer escolhas conscientes. 

Se você precisar dar uma resposta imediata, peça por essa pausa:

“Gostaria de um tempo para pensar, posso te responder em x minutos?”

“Só um minuto, preciso ir ao toalete e já te digo.”

 

2

O seu “não” liberta

Mesmo quando a outra pessoa recebe sua resposta negativa com resistência, quando você é honesta e diz “não”, você libera a outra pessoa para que ela possa buscar outras formas de atender suas necessidades de formas mais efetivas e prazerosas.

É um favor que você faz tanto para você, quanto para ela.

 

3

Organize sua vida

Tenha clareza sobre suas prioridades do momento. Assim será mais fácil saber o que cabe na sua vida agora ou não. 

Deixe espaços para o inesperado, para que você não precise recusar pedidos o tempo todo.

 

4

Arrependimentos acontecerão

Depois de ter dito “sim”, você percebeu que deveria ter dito “não”?

Assim que você identificar seu engano, considere expressar seu arrependimento para a outra pessoa e se dispor para reparar algum dano que sua mudança de ideia possa causar.

 

5

Questione sua necessidade de aprovação

Geralmente, temos dificuldade de dizer “não” porque queremos ser vistas como pessoas boas, que cumprem bem seus papéis.

Aprofunde-se nas suas necessidades de aceitação, pertencimento e amor. Procure-as de formas que realmente façam sentido, principalmente, dentro de você.

 

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Como dizer não, e cuidar do relacionamento

Como dizer não, e cuidar do relacionamento

O segredo para dizer não sem ser agressiva, é dizer “não” com o mesmo cuidado e respeito que eu digo “sim” para a outra pessoa.

Partindo do desejo de cuidar de coisas importantes, e não de apenas impedir coisas que eu não quero.

 

1. Legitime as necessidades da outra pessoa

Reconhecer e valorizar as necessidades dos outros é mais importante do que sair querendo atendê-las sem considerar as suas.

A outra pessoa está te pedindo algo porque tem necessidades. O pedido pode não ser razoável, mas as necessidades são legítimas. Expresse que você as compreende.

 

2. Expresse seu interesse pelo bem comum

Deixe claro que você não está pensando apenas nos seus interesses. Expresse sua intenção de gerar benefício mútuo.

Lembre-se, você não quer vencer. Você quer melhorar a vida para todo mundo.

O que você imagina que todos gostariam de ver acontecendo?

 

3. Proteja o que é importante para você

Por trás do “não” que você diz à outra pessoa, existe um “sim” para as suas necessidades.

Do que você está tentando cuidar ao dizer não?

Perceba e valorize suas necessidades. Ao negligenciá-las você consome o seu potencial de cuidar dos outros.

 

4. Estratégia que contemple as necessidades de todos

Não queremos estratégias que atendam a necessidade de uma pessoa, em detrimento da outra.

Com criatividade e compaixão, novas estratégias que contemplem a todos podem ser propostas.

Como você pode contribuir com a outra pessoa, cuidando do que é importante para você?

 

Exemplo 1

PEDIDO: Você pode me ajudar com a mudança amanhã?

  1. Imagino que esteja sendo pesado para você fazer a mudança sozinha.
  2. Gostaria de te ajudar de alguma forma.
  3. Acontece que quero cuidar dos meus filhos neste final de semana. É o momento que temos para ficar juntos.
  4. Conheço uma pessoa de confiança que pode te ajudar, posso entrar em contato com ela. O que acha?

 

Exemplo 2

PEDIDO: Faça a apresentação do jeito que estou mandando, é melhor.

  1. Vejo que você gostaria que a apresentação fosse bem sucedida, e que você quer cuidar desse cliente.
  2. Eu também quero que o cliente sinta-se satisfeito, que saia daqui com o contrato assinado.
  3. E gostaria que o trabalho acontecesse colaborativamente. Penso que minhas sugestões também podem contribuir para a apresentação.
  4. Poderia dedicar 10 minutos para eu te explicar melhor minhas ideias?

 

Exemplo 3

PEDIDO: [Alguém gritando com você]

  1. Pelo seu tom de voz percebo que você precise dizer coisas muito importantes.
  2. Eu quero te escutar, que tenhamos uma boa conversa e que possamos nos entender.
  3. Para isso, preciso me sentir segura de que serei respeitada e escutada também.
  4. Podemos fazer uma pausa e continuar a conversa em alguns minutos?

 

*Essas dicas só valem a pena para os relacionamentos que você quer cultivar (mesmo). Em situações que consideramos não valer a pena, dificilmente iremos nos dar todo o trabalho.

Importante lembrar que dizer “não” de forma respeitosa para as pessoas envolve respeitar o “não” delas também.

E você? Também encara desafios ao dizer “não” para algumas pessoas?

 

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Dicas para quem tem o hábito de interromper a fala das pessoas

Dicas para quem tem o hábito de interromper a fala das pessoas

Eu, você, todo mundo faz, já fez ou fará isso: interromper a fala da outra pessoa numa conversa.

Geralmente fazemos isso de forma não intencional, inconsciente.

Segue algumas dicas para você que ainda se vê com esse hábito de interromper a fala das pessoas:

 

1

Se você não quer esquecer o que tem a dizer:

Anote num papel palavras-chave referentes às suas ideias e, rapidamente, volte a atenção para o que a outra pessoa está dizendo. 

Previna desconfortos perguntando a ela se está tudo bem você fazer isso.

*Quando possível, vale se dedicar à prática da atenção ao momento presente e do desapego temporário das suas ideias.

 

2

Se você não quer ver a outra pessoa sofrendo:

Acalme seu desejo de contribuir.

Compreenda que os sentimentos desconfortáveis são passageiros, e eles passam mais rápido quando estamos acompanhadas.

Confie que a outra pessoa encontrará o caminho para se sentir melhor quando ela tiver a segurança de que é aceita e acolhida incondicionalmente.

Pergunte se ela quer escutar seus pitacos antes de oferecê-los.

 

3

Se você tem receio de não ter a oportunidade de se expressar:

Escutar com atenção a outra pessoa (e demonstrar que você escutou), torna mais fácil pedir pela sua vez de fala e você ser realmente escutada e considerada.

Não adianta nada ficar interrompendo. A outra pessoa não irá escutar com abertura ao que você tem a dizer. Ela resistirá às suas ideias e ao seu comportamento, mesmo que em silêncio.

Quando necessário, faça acordos para cuidar da vez de fala de cada pessoa.

 

4

Se você está com pressa ou cansada:

Não tente disfarçar. Deixe a outra pessoa saber disso. Diga a ela quanto tempo você tem disponível. Ofereça a possibilidade de conversar em outro momento.

Se isso for frequente, vale questionar suas escolhas e cultivar um estilo de vida onde seja possível oferecer atenção para as pessoas à sua volta

 

5

Faça o que estiver ao seu alcance para tornar as relações mais horizontais.

Para transformar estruturas que não oferecem condições para o diálogo, em estruturas onde as pessoas não precisem competir para serem escutadas.

 

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Escutatória: Rubem Alves

Escutatória: Rubem Alves

ESCUTATÓRIA

Trecho da crônica “Escutatória” de Rubem Alves | Livro: O amor que acende a lua

 

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

[…]

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

[…]

Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…”

A Casa de Hóspedes

A Casa de Hóspedes

A Casa de Hóspedes

O ser humano é uma casa de hóspedes.
​Toda manhã uma nova chegada.
​A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.​
Receba e entretenha a todos​
Mesmo que seja uma multidão de dores​
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.​
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.​
Eles podem estar te limpando​
para um novo prazer.​
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,​
encontre-os à porta rindo.​
Agradeça a quem vem,​
porque cada um foi enviado​
como um guardião do além.

 

Jalâl ad-Dîm Rûmî (1207-1273) nasceu em Bali, atual Afeganistão, no seio de uma família de juristas e sábios.

Dedicou a vida à teologia e ao sufismo (vertente mística/espiritual da religião islâmica, um caminho trilhado através do cultivo das virtudes).

Compôs obras magníficas, testemunhos da grandeza da civilização islâmica.

Táticas não violentas da história mundial

Táticas não violentas da história mundial

Para a maioria das pessoas do planeta, a violência é a única saída para enfrentarmos as maldades e injustiças. A nossa cultura de dominação tenta nos convencer que a violência é justificável nessas situações. Até mesmo o livros de história nos dão a impressão de que a vida se desdobra apenas uma série de guerras.

Mas a história do mundo é repleta de significativas ações não violentas que acabam não chegando ao nosso conhecimento. Por isso crescemos sem referências de como reagir de forma não violenta às injustiças.

Conheça aqui alguns momentos em que a não violência entrou em cena e mudou o rumo da história.

 

Dinamarca contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial

[não cooperação] Durante a Segunda Guerra Mundial, a Dinamarca foi o único país que conseguiu salvar a maioria da população judaica ao resistir ativamente à ocupação nazista. Quando os nazistas forçaram os judeus dinamarqueses a usar a estrela amarela, os dinamarqueses não judeus começaram a usar a estrela em solidariedade aos judeus. Na véspera do dia em que os nazistas começariam a levar os judeus para os campos de extermínio, civis dinamarqueses coordenaram uma estratégia em massa para esconder os judeus e tirá-los do país em barcos de pesca.

Os dinamarqueses também fizeram greves trabalhistas, organizaram momentos simbólicos de silêncio, sabotaram seus próprios sistemas ferroviários e utilizaram outros meios não violentos para dificultar a ocupação de seu país pelos nazistas, minando a operação. Ao mesmo tempo, os dinamarqueses protegiam sua cultura local e resistiam à ocupação, entoando canções folclóricas e encenando performances solidárias ao Rei e ao governo da Dinamarca, enquanto os nazistas marchavam nas ruas.

SCHIRCH, Lisa. Construção Estratégica de Paz. 1ª Edição. São Paulo: Palas Athena, 2019 (página 37)

Filosofia do Acompanhar

Filosofia do Acompanhar

A FILOSOFIA DO ACOMPANHAR
Alan D. Wolfelt

  1. Acompanhar trata-se de estar presente para a dor de outra pessoa, não de fazer com que sua dor desapareça.
  2. Acompanhar trata-se de ir ao deserto da alma com outro ser humano, não de achar que somos responsáveis por encontrar a saída.
  3. Acompanhar trata-se de honrar a alma, não de focar no intelecto.
  4. Acompanhar trata-se de escutar com o coração, não de analisar com a cabeça.
  5. Acompanhar trata-se de ser testemunha da luta do outro, não de julgar ou lutar por ele.
  6. Acompanhar trata-se de estar ao lado, não de conduzir ou ser conduzido.
  7. Acompanhar trata-se de descobrir os dons do silêncio, não significa encher com palavras a cada momento.
  8. Acompanhar a quem sofre trata-se de permanecer e sustentar, não de querer se mover rapidamente adiante.
  9. Acompanhar trata-se de respeitar a desordem e a confusão, não de impor ordem e lógica.
  10. Acompanhar trata-se de aprender com os outros, não de ensinar.
  11. Acompanhar trata-se de ter atitudes curiosas e não de especialistas.

 

(Tradução livre de um trecho deste documento)

Referência: https://www.centerforloss.com/

Indicações de leituras sobre Comunicação Não Violenta

Indicações de leituras sobre Comunicação Não Violenta

Para começar:

Marshall Rosenberg – Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais

Thomas D’Ansembourg – Deixe de Ser Bonzinho e Seja Verdadeiro

 

Para se aprofundar:

Marshall Rosenberg – Vivendo a comunicação não violenta

Marshall Rosenberg – A linguagem da paz em um mundo de conflitos

Marshall Rosenberg – Amo Você Sendo Quem Sou

Marshall Rosenberg – O coração da transformação social

 

Sobre a relação com filhos e filhas:

Marshall Rosenberg – Criar Filhos Compassivamente

 

Sobre mediação de conflitos:

Marshall Rosenberg – Juntos Podemos Resolver Essa Briga

 

Para mudar paradigmas:

Riane Eisler – O cálice e a espada

Riane Eisler – O Poder da Parceria

Humberto Mariotti – As paixões do ego

 

Indicações em inglês

Václav Havel – The Power of the Powerless (Vintage Classics) (English Edition)

Oren Jay Sofer – Say What You Mean: A Mindful Approach to Nonviolent Communication

Miki Kashtan – Spinning Threads of Radical Aliveness: Transcending the Legacy of Separation in Our Individual Lives

Inbal Kashtan – Parenting from Your Heart: Sharing the Gifts of Compassion, Connection, and Choice

Miki Kashtan – Reweaving Our Human Fabric: Working Together to Create a Nonviolent Future

Porque e como respeitar o outro, mesmo quando somos desrespeitados

Porque e como respeitar o outro, mesmo quando somos desrespeitados

Não é fácil respeitar uma pessoa quando ela não nos respeita, não é?

Quando somos desrespeitados, parece ser óbvio que não devemos respeitar a quem nos desrespeitou.

Ao pensar em respeitar a pessoa que nos desrespeitou, parece que estamos oferecendo a ela um prêmio por ter agido de forma negativa.

Mas saiba que esse pensamento é a maior causa da perpetuação da violência na nossa sociedade.

Vou pedir pedir para que você entre na minha viagem imaginativa: Eu gostaria que martelos deixassem de existir porque as pessoas os usam para ferir as outras. Se um dia, eu recebo uma martelada na cabeça, e como resposta a isso, eu fabrico um novo martelo para devolver a agressão com a mesma ação e a mesma ferramenta, como posso esperar que marteladas e martelos deixem de existir?

Se quero que a violência, o desrespeito, a dominação, a opressão desapareçam (ou no mínimo, sejam exceção e não a regra em nossa sociedade) é preciso utilizar novas ferramentas e mecanismos para responder a eles.

Portanto, este é um bom momento para se perguntar: Qual a qualidade de respeito que você oferece para as pessoas, quando elas fazem algo “errado”? Quando elas se comportam de formas que te prejudicam?

 

O que é Respeito?

Respeito não é gostar das pessoas. Você pode não gostar.

Não é sobre fazer o que os outros querem. Você pode fazer o contrário.

Nós podemos respeitar as pessoas, e dizer “não” para seus comportamentos e escolhas. Nós podemos rejeitar as ações das pessoas, sem rejeitá-las como pessoas.

Respeitar as outras pessoas é, simplesmente, reconhecê-las como seres humanos. Reconhecer a humanidade delas por trás de seus comportamentos.

É reconhecer que, assim como nós, a outra pessoa existe, que seus sentimentos e necessidades são legítimos, e que ela tem poder.

Respeito não é algo que precisa ser dado em virtude de um bom comportamento. Todo ser humano merece a chance de ser visto e ser escutado, simplesmente, pela virtude de ser humano.

 

Oferecer respeito, mesmo quando não for espontâneo

Nós podemos não sentir nenhum respeito pelo outro num determinado momento. Mas, mesmo que não tenhamos muita escolha sobre o que sentimos, nós temos o controle sobre como agimos.

Respeito começa com com comportamentos concretos, como escutar e reconhecer o outro, o que pode (ou não) nos levar a sentimentos genuínos de respeito.

Você oferece respeito aos outros não pelo que eles são, mas sim por conta do que você é. Respeito é uma expressão de si mesmo e dos seus valores.

E quando você oferece respeito a outra pessoa, isso não reduz o seu próprio suprimento dele. Respeito, empatia e amor ao outro são recursos inesgotáveis, quando você oferece isso a si mesmo.

Respeito ao outro começa com respeito por si próprio. Respeito e cuidado com nós mesmos cria o espaço emocional e mental que nos permite enxergar verdadeiramente o outro.

Faça o que necessário para que você consiga sustentar a sua capacidade de respeitar as pessoas, independentemente de suas ações.

E se você não consegue respeitar a outra pessoa num determinado momento, espere até que você consiga para proceder.

 

Respeitar o outro traz benefícios para você

 

– Interdependência

Numa sociedade que confunde individualidade (cada ser humano é único) com individualismo (eu não preciso de ninguém), as relações de interdependência entre seres humanos é algo que poucas pessoas conseguem enxergar.

Somos interdependentes entre nós. Nem dependentes, nem independentes. Precisamos uns dos outros para termos nossas necessidades mais básicas atendidas de pertencimento, importância e conexão humana. Mesmo nossas necessidades físicas de alimento e abrigo, só podem ser atendidas através de outras pessoas.

Por isso, o meu bem-estar e o bem-estar das outras pessoas são a mesma coisa.

Eu jamais terei segurança sustentável e verdadeira enquanto os ladrões estiverem nos presídios. Eu terei segurança quando outras pessoas não precisarem mais roubar para terem suas necessidades atendidas.

Por isso não faz sentido algum cuidar de mim, sem cuidar dos outros. Cuidar dos outros é cuidar de mim. E cuidar de mim é cuidar dos outros.

 

– Benefícios imediatos para mim

Se esse conceito de interdependência estiver muito distante ou vago, pense nos benefícios que oferecer respeito ao outro pode trazer para você.

“Um motivo óbvio para oferecer respeito ao outro é porque isso funciona.” Willian Ury

Numa negociação, respeito é a concessão mais barata que você pode dar a outra pessoa. Custa muito pouco e, certamente, irá te render muito.

Oferecer respeito à outra pessoa, mesmo que vocês sejam adversários, também serve aos seus interesses. Quando você oferecer respeito a outra pessoa, não pense que você está fazendo um favor a ela. Pense que você está fazendo um favor para si mesmo, porque no final, isso te ajudará a ter às suas necessidades atendidas.

Se queremos influenciar alguém positivamente, precisamos que ela nos escute, considere nossas necessidades, e colabore conosco. 

De onde tiramos a absurda ideia de que, para fazer uma pessoa agir melhor, precisamos antes, fazê-la se sentir pior? (Inspirado em Jane Nelsen)

Lembre-se que demonstrar respeito não provém da fraqueza ou insegurança, mas sim da força e da confiança.

 

Como demonstrar respeito mesmo quando discordamos?

Independentemente de seu comportamento, trate os outros com o mesmo senso de dignidade com o qual você gostaria de ser tratado.

 

  1. Escutando

“Respeito é a chave para abrir a porta da mente e do coração da outra pessoa.” Willian Ury

Ouvir é diferente de escutar. Ouvir provém de uma capacidade biológica. Nós ouvimos os sons em geral, latidos dos cachorros, os sons dos automóveis, as vozes das pessoas.

Escutar exige uma capacidade interpretativa, envolve atenção, presença e silenciamento dos nossos próprios pensamentos.

Esperar a outra pessoa terminar de falar também não é escutar. Quando estamos planejando nossa próxima resposta, estamos escutando a nós mesmos, e não ao outro.

Quando estamos escutando, toda a nossa atenção está direcionada ao que o outro pensa, sente, precisa e deseja. E não na direção das minhas impressões sobre tudo isso.

Para demonstrar que escutou a outra pessoa, você pode dizer para ela o que você compreendeu sobre o que ela disse, e assim ela terá a oportunidade de checar se você compreendeu como ela realmente gostaria. 

Você pode dizer o que você imagina que a pessoa esteja sentindo e qual deve ser a necessidade dela.

Você também pode fazer perguntas de esclarecimento. Se você não tiver certeza sobre o que o outro deseja ou por que ele fez o que fez, não apenas tente adivinhar, pergunte.

“O que aconteceu que te fez ficar chateado?”

“Você poderia me ajudar a compreender as suas necessidades?”

Tente não interromper a fala da outra pessoa. Inclusive, faça o oposto: quando ela finalizar sua fala, surpreenda positivamente perguntando se tem mais algo que gostaria de dizer. Se tem mais algo que ela gostaria que você soubesse.

 

  1. Oferecendo o benefício da dúvida

Parta do princípio de que você não sabe todas as condições e circunstâncias que levaram a outra pessoa a fazer o que ela fez.

Mesmo que você tenha a certeza de que sabe, dê ao outro a chance de ter uma alternativa que não seja reagir de forma defensiva a uma acusação.

Por exemplo:

Exemplo 1:

“Imagino que você não tenha percebido que essas pessoas já estavam na fila antes de você. Poderia, por gentileza, ir ao final da linha que está demarcada no piso?”

Exemplo 2:

“Estou vendo suas roupas sujas pelo chão da casa. Aconteceu alguma coisa?”

 

  1. Partindo da perspectiva do outro

Partir da perspectiva do outro ajuda muito a construir a conexão que possibilita a compreensão das mensagens que queremos transmitir.

Antes de corrigir, educar, sugerir, demonstre que você imagina como deve ser estar na experiência do outro (a partir da perspectiva dele, e não da sua).

Exemplo 1:

“Meu filho, você finalmente conseguiu abrir a geladeira sozinho! Você está contente né?! Que forte está ficando! Agora que consegue fazer isso, eu gostaria que você abrisse a geladeira só para pegar o que vamos usar agora, e que feche logo depois, para preservar as comidas e elas não estraguem ok?”

Exemplo 2:

“Eu entendo o problema que aconteceu, isso realmente é extremamente desgastante e eu lamento muito que você esteja passando por isso. Eu já estive no seu lugar. Apesar disso, não posso atender o seu pedido. O que eu posso fazer é…”

 

  1. Oferecendo gestos de reconhecimento e valorização

Todos os seres humanos têm a necessidade básica de serem reconhecidos e valorizados. Oferecer isso para elas é uma demonstração de que você a considera um ser humano digno, como você.

Exemplo 1:

“Eu imagino que o seu trabalho não seja fácil, que requer muita determinação e paciência, e que ele seja importante para que mais pessoas tenham acesso a esse serviço que me ajuda tanto. Gostaria que soubesse que eu estou bem com o meu pacote de serviços atual, e que me ajudaria muito poder trabalhar sem as interrupções das ligações da operadora…”

Exemplo 2:

“Filho, por mais que eu discorde do que você fez, eu queria que você soubesse que eu sei que não foi sua intenção causar mal para ninguém.”

 

Partindo de um lugar de respeito, o diálogo se torna possível, bem como a busca por soluções que cuidem de você ao mesmo tempo que cuida do relacionamento.

Você gostaria de ser respeitado incondicionalmente? Mesmo quando erra, quando perde a cabeça, quando está com raiva ou com medo? Ofereça essa oportunidade para as outras pessoas também.

Quer começar a praticar Comunicação Não Violenta? Comece por aqui!

Quer começar a praticar Comunicação Não Violenta? Comece por aqui!

Que legal sua presença aqui! Fico feliz que a Comunicação Não Violenta esteja fazendo sentido para cada vez mais e mais pessoas.

Mas antes, preciso te deixar saber que esses passos são direcionados:

  • Para quem sabe que não pode mudar as outras pessoas, mas que as mudanças no seu próprio comportamento geram transformações nas reações delas;
  • Para quem não quer perpetuar violência através das suas ações;
  • Para quem tem como objetivo criar relações de confiança, e não manipular as pessoas para obter o que quer.

 

Nós não começamos a praticar Comunicação Não Violenta nas conversas que temos com as outras pessoas. Mas sim nas conversas que temos com nós mesmos.

Afinal, a linguagem que usamos em pensamento influencia na qual utilizaremos para nos comunicar com os outros.

Essa dinâmica da CNV na qual obtemos clareza e compreendemos o que se passa dentro de nós, chama-se Autoconexão. E ela é a raiz para uma boa escuta e para uma boa expressão. Por isso começaremos por ela.

O que ajuda a realizar mudanças sustentáveis relacionadas aos nossos hábitos de comunicação é fazer mudanças pequenas e incrementais que possam se sustentar com o tempo, ao invés de almejar mudanças bruscas, dolorosas e revolucionárias.

Por isso, em vez de consumir este conteúdo numa única sentada, sugiro que você dedique a energia de um dia todo para cada reflexão.

A proposta é que sejam 7 dias de reflexões e práticas para começar a praticar a Comunicação Não Violenta nas conversas que você tem consigo mesmo.

 

Dia 1:

Crie um espaço entre seus pensamentos e suas ações, onde haja a opção de fazer escolhas. De agir em vez de reagir.

Pare de agir impulsivamente e comece a agir conscientemente.

Essas vídeo aulas podem ajudar:

Comece a praticar a presença de estar no aqui e agora. Peça licença para as distrações internas (preocupações com o futuro e lamentações do passado) e externas (tecnologias, informações) para que você esteja consciente do que faz e pensa.

Tenha estratégias de fácil alcance para te prevenir de agir impulsivamente na hora do aperto. Porque não é sobre “se” esse momento vai acontecer, é sobre “quando” ele acontecerá.

Segue uma sugestão para deixar baixado no seu celular: Técnica STOP para gerenciamento emocional.

 

Dia 2:

Por trás dos nossos sentimentos de revolta, de raiva, de inconformação, por trás das acusações, das críticas e dos julgamentos que fazemos às pessoas, temos sentimentos vivos.

Na verdade, o tempo todo temos sentimentos. Só deixamos de ter sentimentos quando morremos. Quando achamos que não estamos sentindo nada, na verdade só não estamos percebendo o que estamos sentindo.

Acesse aqui uma lista sugestiva de palavras que expressem sentimentos.

Comece a dar nome para o que você sente. Afinal, só sabemos lidar com aquilo que conhecemos.

 

Insira no seu dia a dia, a prática do Check in:

Faça pausas entre uma tarefa e outra ao longo do dia. Entre tomar o café e voltar a trabalhar, entre finalizar os estudos e ir fazer o lanche, entre finalizar a refeição e arrumar a cozinha…

  1. Decida pausar;
  2. Faça 3 respirações profundas. Sinta o ar oxigenando todas as células do seu corpo;
  3. Faça uma checagem de como está o seu corpo 
  4. Procure uma palavra que expresse como você está se sentindo agora;
  5. Siga para a próxima atividade.

Tenha a lista de sentimentos acessível para te ajudar a encontrar palavras que expressem sentimentos.

Executar a prática é muito simples. O mais difícil é se lembrar de fazer.

Se você vive com o celular ao lado de você, troque as espiadas nas redes/mensagens no celular por um check in.

 

Dia 3:

Os sentimentos são mensageiros. Eles vêm para nós avisar que nossas necessidades estão sendo atendidas ou não.

A lista sugestiva de palavras que expressam necessidades humanas universais está na segunda página, logo após a lista de sentimentos que você baixou há pouco (ou clique aqui para baixar).

Quando temos sentimentos confortáveis, eles dizem que temos necessidades atendidas.

Quando temos sentimentos desconfortáveis, eles dizem que temos necessidades atendidas.

Por exemplo:

Eu me sinto cansada quando preciso de “descanso. Me sinto com medo quando não tenho “segurança”. Eu fico triste quando tenho a necessidade de “afeto” não atendida.

Me sinto maravilhada quando tenho “colaboração”. Me sinto segura quando tenho minha necessidade de “apoio” atendida.

Comece a dar nomes para as suas necessidades.

Como você se sente agora? Qual necessidade atendida ou não atendida esse sentimento vem para te avisar?

Use as palavras da lista para te ajudar a criar esse vocabulário de necessidades.

Na sua prática de pausa e check in, além dos seus sentimentos, identifique quais as necessidades atendidas ou não.

 

Dia 4:

Toda violência é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida.

Na tentativa de atender necessidades, muitas vezes escolhemos estratégias que, quando paramos para pensar, não fazem sentido algum, pois nos distanciam de termos as nossas necessidades atendidas.

Por exemplo, quando eu grito com alguém, estou tentando atender a minha necessidade de ser escutada, ser considerada. Mas na realidade, o que acontece, é o contrário. Quanto mais eu grito, menos as pessoas me escutam e me consideram.

Além de me distanciar de ter as minhas necessidades atendidas, quando não estou consciente delas, eu acabo causando danos para mim e para as outras pessoas.

Olhe com compaixão para as violências invisíveis que você pratica.

Identifique quais necessidades você tentava atender. Do que você estava tentando cuidar, quando fez ou disse algo que saiu de forma agressiva.

Dia 5:

Na CNV, partimos do princípio que tudo o que fazemos, fazemos para atender nossas necessidades humanas universais. São os motivadores mais centrais de todos os seres humanos.

Consciente ou inconscientemente, todos nós fazemos escolhas que tentam cuidar de coisas importantes para nós.

Você está lendo este material para atender, provavelmente, as suas necessidades de aprendizado, de conhecimento, de clareza.

Você toma banho para atender suas necessidades, pode ser de saúde e de bem estar.

Se você trabalha, você trabalha para atender suas necessidades. Pode ser de sustento, de segurança, de valorização, reconhecimento.

Se uma pessoa entrega sua bolsa para um ladrão armado, ela o faz para atender a sua necessidade de proteção, de sobrevivência.

Se uma pessoa deixa de fazer o que gosta para obedecer às ordens dos seus pais, pode ser que ela esteja atendendo suas necessidades de ser aceito, de pertencimento, de amor.

Na prática da Comunicação Não Violenta queremos sair do jogo da culpa, e começar a nos comunicar a partir do que está vivo em nós.

Faça o exercício de autorresponsabilidade.

Vamos começar a desafiadora jornada de nos responsabilizar pelas nossas ações.

 

Dia 6:

Nessa transformação da linguagem da culpa na linguagem das vida, a CNV nos convida a fazer a distinção entre o ESTÍMULO para os nossos sentimentos, e a CAUSA deles.

O estímulo consiste em tudo que acontece. Os fatores externos a nós. A causa consiste nas minhas necessidades atendidas ou não.

Por exemplo: Quando meu sócio não compareceu à reunião (estímulo), me senti irritado, pois a minha necessidade de apoio atendida (causa).

Um mesmo estímulo pode despertar sentimentos diferentes para mim, em momentos diferentes.

Por exemplo: Quando meu sócio não compareceu à reunião (estímulo), me senti aliviado, pois eu não tinha terminado o relatório que havíamos combinado de discutir. Tive minha necessidade de tranquilidade atendida (causa).

E um mesmo estímulo pode despertar sentimentos diferentes em pessoas submetidas à mesma experiência.

Por exemplo: Quando nosso sócio não compareceu à reunião (estímulo), eu me senti muito irritado porque a minha necessidade de apoio não foi atendida. Mas meu outro sócio se sentiu motivado porque, assim, ele teve a oportunidade de mostrar suas habilidades para o cliente. Ele pôde atender a sua necessidade de contribuição plenamente.

Pense em situações que você se diz que seus sentimentos são causados por outras pessoas. Escreva essas situações:

  1. Me sinto cansado porque meus filhos não me ajudam.
    2. Fiquei angustiada porque meu fornecedor não me entregou a matéria prima.
    3. Fico preocupada com o meio ambiente porque as pessoas não se conscientizam.
    4. Me sinto grata porque o meu marido é muito carinhoso.

Agora, para cada sentimento, separe Estímulo (o que acontece) da Causa (necessidades):

  1. Sentimento: Cansado / Estímulo: Meus filhos não me ajudam / Causa: Necessidade de apoio não atendida.
  2. Sentimento: Angustiada / Estímulo: Meu fornecedor não me entregou a matéria prima / Causa: Necessidade de previsibilidade não atendida.
  3. Sentimento: Preocupada / Estímulo: As pessoas não se conscientizam / Causa: Necessidade de colaboração, comunidade e apoio não atendidas.
  4. Sentimento: Grata / Estímulo: Meu marido é muito carinhoso / Causa: Necessidade de afeto e amor atendidas.

 

Dia 7:

Na linguagem da culpa misturamos os fatos com o que pensamos sobre os fatos. Com isso, ficamos presos em nossos julgamentos e na nossa visão distorcida sobre as pessoas e sobre o mundo.

Por isso, outra distinção importante da CNV é entre nossos julgamentos e as observações (fatos observáveis por qualquer observador).

Separe o que aconteceu, das suas opiniões sobre isso.

Por exemplo, se eu penso: “Meus tios são muito insensíveis, eles não cuidam da minha avó.” Este é um julgamento. Não há nada de errado em fazer julgamentos. Todos nós fazemos isso. O que queremos, é transcendê-los. E começamos separando-os dos fatos observáveis.

Para responder isso, pergunte-se: O que você viu ou escutou, que te despertaram esse pensamento?

A observação que você encontraria poderia ser: “Eu escutei minha tia dizer: ‘eu não tenho tempo de ficar cuidando dela’.”. Ou “Eu vejo minha avó sozinha em casa no dia do aniversário dela.”

Quando você se perceber fazendo julgamentos ou emitindo opiniões, dê um passo para trás e procure ter claro: quais os fatos observáveis de onde partiram suas opiniões, avaliações e julgamentos.

Descreva como se você estivesse fazendo um relato para a construção de um boletim de ocorrência.

Um convite para combater o racismo, em vez de combater os racistas

Um convite para combater o racismo, em vez de combater os racistas

“Racismo é uma doença cultural traiçoeira. É tão traiçoeira que ela não se importa se você é uma pessoa branca que gosta de pessoa negra, ela ainda vai achar uma forma de infectar você. Sim, racismo parece ódio, mas ódio é só uma de suas manifestações. Privilégio a outra. Acesso é outra. Ignorância é outra. Apatia é outra. E assim por diante. Então, ainda que eu concorde com pessoas que dizem que ninguém nasce racista, ele continua sendo um sistema poderoso no qual somos imediatamente inseridos. É como nascer no oxigênio: você o internaliza assim que você respira. Não é um resfriado que você consegue superar. Não existe uma aula que te dê um certificado de anti-racista. É uma série de armadilhas socioeconômicas e valores culturais que são agitados toda vez que interagimos com o mundo. É algo que você tem que continuar tirando do barco da sua vida para que você não se afogue.”

Scott Woods

 

“Meu desenvolvimento psicossocial aconteceu nas águas da supremacia branca. É isso que chamo de sistema. Eu não estou falando do KKK. Eu falo do sistema no qual a cultura branca e as pessoas brancas são o centro, e elas são vistas como inerentemente superiores em relação às pessoas negras. Minha personalidade foi formada nessa água. Minha visão de mundo foi formada nessa água. Eu não escolhi isso, não é minha culpa. Mas sou responsável por mudar isso porque o padrão da nossa sociedade é a reprodução do racismo. Ele está em todo o sistema e em toda instituição. E se apenas vivermos nossas vidas da forma mais confortável, nós iremos reproduzi-lo. Não há espaço neutro. Não ação é uma forma de ação.”

Dr. Robin DiAngelo

 

E como eu, pessoa que não é preta, posso combater o racismo para além das correntes das redes sociais?

  • Me educando: E isso não é buscar opiniões com as quais eu concordo. É aprender o que não sei sobre história, sobre a vida das pessoas, sobre políticas públicas… É possível fazer isso com a ajuda do instagram. Segue alguns perfis que podem ajudar: @levikaief @giovborges @ajmoreirabh @djamilaribeiro @pretitudes @escurecendofatos
  • Criando crianças conscientes: Crianças que tenham relacionamentos com pessoas pretas, que não de subalternidade; que conheçam a história da escravidão; que saibam dos seus privilégios; que leiam livros, vejam filmes e brinquem com brinquedos com personagens pretas; contribuindo na construção de uma escola representativa. @criandocriancaspretas
  • Sabendo que o lugar de fala/protagonismo não é meu. Mas que a luta também é minha.
  • Me abrindo e me esforçando para enxergar meus privilégios, sobre os quais sempre haverão pontos cegos.
  • Criando estratégias construtivas para usar quando estiver diante de falas e comportamentos racistas.
  • Incentivando pessoas, ações e políticas públicas que reduzam a desigualdade social.
  • Compreendendo e tendo empatia por pessoas que escolhem estratégias com as quais discordo no movimento antirracismo.
  • Me permitindo ser influenciada por pessoas pretas (autores, artistas, produtores de conteúdo, intelectuais).
  • Incentivando diálogo com amigos, família, com todas as pessoas que estiverem abertas.
Materiais de apoio para conversar sobre Emoções com as crianças

Materiais de apoio para conversar sobre Emoções com as crianças

A maioria das pessoas da nossa geração para as anteriores foi criada e educada com base nas punições, tenham sido elas físicas ou emocionais.

Estamos buscando oferecer uma educação para nossas crianças bem diferente daquela que sabemos como fazer.

Na história das nossas vidas podemos ter lembranças fortes de pessoas que nos disciplinavam e nos ensinavam. Mas raramente temos referências de pessoas que realmente nos escutavam e nos compreendiam.

Por isso é bem vindo todo apoio possível que nos ajude a trilhar este caminho novo e desconhecido que é criar crianças através da empatia, da compaixão e da conexão humana.

 

Por que conversar sobre emoções com as crianças?

Porque é conversando sobre as emoções que as crianças aprenderão a lidar com elas. Elas só vão saber lidar com o que elas conhecem. E não há forma melhor de conhecer mais sobre as emoções do que através de boas conversas com as pessoas que elas mais confiam, que são seus cuidadores principais.

Precisamos conversar sobre emoções porque comportamentos agressivos contra si ou contra os outros são expressões de sentimentos e necessidades não escutados.

E é provado cientificamente que suprimir ou ignorar as emoções causa a exacerbação delas. Assista esta palestra TED que fala sobre isso.

Se quiser, veja neste documentário os tristes efeitos de uma cultura que reprime a expressão das emoções.

 

Adulto preparado

Para ser possível conversar sobre emoções com as crianças, é preciso:

  1. Compreender que a parte do cérebro responsável pela regulação das emoções e do corpo (córtex pré frontal) NÃO está completamente formada até os vinte e poucos anos.
  2. Partir do princípio que emoções não são boas nem ruins. São reações naturais de todos os seres humanos.
  3. Compreender que as emoções são passageiras. Não é porque você está conversando sobre a tristeza que você está incentivando a criança a ser triste. Emoções não escutadas é que permanecem e podem se transformar em traumas.
  4. Compreender que as emoções desconfortáveis passam mais rápido e mais efetivamente quando as percebemos e as acolhemos.
  5. Compreender que os exemplos consistentes valem mais do que mil palavras. Não adianta ensinar e conversar se você mesmo(a) não lida com suas próprias emoções. Se você age de forma violenta quando vem raiva, é isso que você estará ensinando seu filho fazer. 

Agora segue algumas sugestões de materiais de apoio para estimular as conversas com as crianças sobre emoções:

 

LIVROS

Os livros são ferramentas didáticas para pais e docentes.

São muito úteis em casa, pois reforçam o vínculo entre a criança e seus pais no ato da leitura. Além disso, os livros nos “lembram” de coisas que geralmente nós mesmos já sabemos, mas acabamos nos esquecendo na rotina do dia a dia.

Os livros também servem de apoio para os docentes nas escolas. Eles podem promover a troca de ideias em sala de aula e inspirar atividades em grupo.

 

Coleção Lidando com as emoções – James Missie

Minha filha ama esses livros. Antes dos 2 anos ela já se interessava, associava as emoções às reações corporais e se divertia bastante quando a gente lia. Clique para saber mais: Coleção Sentimentos e Emoções – James Missie

 

Ciranda do ser – Cristina Lobato

Este livro é um recurso para aproximar as pessoas da Comunicação Não Violenta de forma mais lúdica.

Em sua produção, detalhes importantes foram cuidadosamente pensados. O papel reciclável é uma lembrança dos ciclos da Terra e da nossa corresponsabilidade pelo ambiente. Os personagens representam diferentes etnias, inclui pessoas com deficiência e traz o protagonismo tanto do feminino quanto do masculino.

As crianças adoram as páginas que são para colorir. Além disso, o livro pode ser utilizado no processo de aprendizagem da língua inglesa (o livro é bilíngue).

Para adquirir, entre em contato com a autora: cirandadoserCNV@gmail.com ou @cirandadoser.

 

Emocionário

É um livro em forma de dicionário que traz uma descrição e uma arte referente a 42 emoções. Ele é destinado para crianças a partir de 6 anos, apesar de ser perfeitamente adaptável para ser utilizado antes dessa idade. Clique para saber mais: Emocionário: Diga o que você sente

 

MÚSICAS

Não é de hoje que a música vem sendo apontada como uma das áreas de conhecimento que mais impulsionam o desenvolvimento infantil.

A linguagem musical promove a integração entre o corpo e a mente, a sensibilidade e a razão, a técnica e a criatividade.

Como cantar facilita a memorização, a música é uma ótima estratégia para introduzir e fixar aprendizados, de maneira leve, lúdica e espontânea.

 

Emoções (Show no Paiol) – Hélio Ziskind e a Turma do Cocoricó

 

Mundo Bita – Sinto o que Sinto

 

Mundo Bita – Que saudade que eu tô

 

Mundo Bita – Todo mundo chora

 

BRINQUEDOS

 

Faça você mesma(o): Expressões faciais

As expressões faciais dizem muito sobre nossas emoções. Brincando com as expressões, a criança não só aprende a se conscientizar das suas próprias emoções, mas trabalha também a empatia, o imaginar como o outro se sente. O passo a passo de como fazer (em inglês, mas com imagens explicativas) você encontra clicando aqui.

 

Faça você mesma(o): Bonecos de bexiga e farinha

Além de uma atividade legal para fazer junto com a criança, os bonecos de bexiga podem ser formas de ajudar a criança se expressar. Ela pode ter a chance de dizer “Agora eu tô me sentindo assim ó, igual este boneco aqui, muito bravo”.

 

FILME

Divertidamente

 

 

DESENHOS ANIMADOS

 

Daniel o Tigre – Irritação

 

Daniel o Tigre – Amigos e sentimentos

 

O Diário de Mika – Ciúmes do irmão mais novo

 

Espero que você tenha se inspirado para ter boas conversas sobre emoções com as crianças!

Como pedir, e não exigir?

Como pedir, e não exigir?

Ter a coragem de pedir

A nossa cultura não nos incentiva a pedir coisas para os outros. Fomos ensinados a sermos independentes, capazes de atender nossas próprias necessidades sozinhos. E que “ficar pedindo” as coisas para os outros é chato, inconveniente.

Sim, todos nós precisamos de liberdade e autonomia. E sim, somos todos capazes de atender várias necessidades nossas por conta própria.

Mas isso não se sobrepõe ao fato de que somos seres humanos interdependentes. Estamos todos interligados. Não é possível vivermos isolados ou sozinhos. E muitas de nossas necessidades precisam das outras pessoas para serem atendidas.

Pedir não nos coloca numa situação de inferioridade. Muito pelo contrário. Pedir algo a outra pessoa oferece a ela a possibilidade de fazer algo que todo ser humano gosta de fazer: contribuir de coração para tornar vidas mais maravilhosas.

“Você recebe da vida aquilo que você tem coragem de pedir.”

Oprah Winfrey

 

Existe um pedido em tudo que dizemos

Nem sempre percebemos, mas toda vez que dizemos algo a outra pessoa, estamos pedindo alguma coisa.

Quando escrevo esta frase “em tudo que dizemos existe um pedido”, estou te pedindo: “Por favor, deixe-me contribuir com você. Por favor, leia e considere isso que eu escrevi. Por favor, reflita sobre como isso se relaciona com a sua vida.”.

Veja só quantos pedidos estão implícitos numa pequena frase!

Quando eu digo “Olá, que saudades!”, eu estou pedindo “Por favor, me dê reciprocidade. Por favor, veja que eu gosto muito de você.”.

Quando eu ligo para um amigo para dizer “Feliz aniversário”, eu estou pedindo “Por favor, escute-me dizer que eu pensei em você hoje e quero o seu bem.”.

 

Pedidos em forma de acusação

​Dizemos “Você não sabe me escutar!” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, escute em silêncio o que estou tentando dizer e mostre para mim que você entendeu.”

Dizemos “Você é um preguiçoso!” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, preciso de apoio e você poderia me apoiar colocando as suas roupas no cesto.”

Dizemos “Você não se importa” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, preciso de reciprocidade. Me diga como você se sente em relação ao que eu disse.”

É muito mais fácil apontar o dedo e acusar do que entrar em contato com o que sinto, com a minha real necessidade e escolher a forma que quero que minha necessidade seja atendida. Acusar é tentar fazer o caminho mais curto, pular a trabalhosa jornada de conversar comigo mesma para obter o que quero.

Para transformar suas críticas e acusações em pedidos, tenha claro:

  1. Qual a sua real necessidade? O que é realmente importante para você?
  2. Qual ação específica que você, o outro ou um terceiro poderia realizar que atendesse a sua necessidade?

 

Como fazer pedidos assertivos?

Clareza. É disso que precisamos para fazer pedidos assertivos.

Não conte com a habilidade das pessoas lerem seus pensamentos ou de perceberem suas indiretas.

Para ajudar as pessoas a compreenderem como elas poderiam contribuir com as minhas necessidades, eu preciso fazer pedidos claros, conscientes e assertivos.

Mas antes disso, eu preciso esclarecer dentro de mim, como eu gostaria que minhas necessidades fossem atendidas.

A Comunicação Não Violenta oferece alguns critérios para nos guiar neste processo de obter clareza sobre o que realmente queremos: pensamos em pedidos positivos, concretos e realizáveis no momento presente.

 

1. Pense em pedidos positivos

É muito comum sabermos muito bem o que NÃO queremos, em vez do que realmente queremos.

Isso acontece principalmente quando não temos clareza de qual a nossa real necessidade humana. Investigue bem as suas necessidades para descobrir quais ações representariam formas de atendê-las.

O que será que eu quero, quando digo para o meu filho

“Não quero que você fique tanto tempo assistindo televisão”.

Se a minha necessidade for de cuidar do desenvolvimento e saúde dele (cuidado), pode ser que eu queira que ele vá brincar com os vizinhos, ou faça sua lição de casa.

Se a minha necessidade for de apoio, pode ser que eu queira que ele guarde as louças lavadas.

Quando uma pessoa diz sobre sua companheira

“Quero que ela pare de trabalhar tanto assim”,

qual necessidade não atendida?

Será que é de companhia? Então, pode ser que o pedido seja passear ou assistir um filme juntos.

Mas se a necessidade for de apoio, então pode ser que o pedido seja algo como “Você poderia buscar nosso filho na escola?”.

 

2. Pense em pedidos concretos

​Pense em ações concretas, bem definidas em termos de tempo e espaço. Evite palavras vagas para prevenir mal entendidos.

Por exemplo, neste pedido: “Gostaria que você fosse honesto comigo.”

“Ser honesto” é um pedido vago pois ele pode ser manifestado através de diversas ações, em diferentes momentos.

Um pedido concreto poderia ser:

“Quero que você me diga como se sente a respeito do que eu fiz e o que gostaria que eu tivesse feito de modo diferente.”

 

3. Pense em pedidos realizáveis no momento presente

Na busca por nos livrar dos desconfortos, temos uma forte inclinação em resolver todos os problemas do relacionamento em um único pedido, em uma única conversa.

A pressa em solucionar o problema definitivamente, muitas vezes, mais nos distancia do que nos aproxima de uma solução sustentável e de benefício mútuo.

Por isso pense em pedidos que vão te colocar a um passo a frente na direção de ter suas necessidades atendidas, e não em estratégias distantes. 

Por exemplo:

Quando peço para meu companheiro “Gostaria que você fosse buscar nosso filho na escola todos os dias.”, estou pedindo algo que ele não pode realizar neste momento.

Já quando peço “Você poderia me dizer como é para você buscar nosso filho na escola todos os dias?”, estou pedindo que ele diga, naquele momento, como ele imagina que será ficar com essa responsabilidade.

Também posso me focar mais ainda no processo do que na solução se eu pedir: “Você pode me dizer se tudo bem você ficar encarregado de buscar nosso filho na escola todos os dias nessa semana, ver como será a experiência e então conversamos sobre como foi?”

 

Qual a diferença entre um pedido e uma exigência?

Dos pedidos que mencionei como exemplos até aqui, para todos eles, a outra pessoa ainda poderia responder “Não, não quero isso”. Mesmo sendo um pedido que não traz acusação alguma.

E, então, nossa inclinação é pensar “Então não deu certo fazer um pedido dentro dos critérios da Comunicação Não Violenta. Isso não funciona.”.

Mas é exatamente neste ponto que descobrimos se o seu pedido era realmente um pedido ou uma exigência.

Quando uma pessoa diz “não” a um pedido meu, este não precisa ser o fim da conversa. Pode ser um bom começo, na verdade.

Você não precisa desistir na primeira resposta negativa que receber. Nem insistir em ter suas necessidades atendidas por meio da estratégia que você sugeriu.

Mas pode persistir na busca de estabelecer conexão humana. Como? Escutando, considerando e empatizando com as necessidades do outro. Persistindo na tentativa de compreender, e de buscar soluções boas para todos.

 

Quando estou exigindo

Quando uma pessoa diz “não” e minha reação for algo parecido com esses exemplos (mesmo que em pensamento) é muito provável que eu esteja exigindo:

Julgar: “Se você não fizer isso, então você é muito burro mesmo e merece se dar mal.”

Punir: “Se você não fizer isso, você vai ser demitido porque não sabe obedecer ordens superiores.” ou “Se você não fizer o que estou pedindo, não vou mais brincar com você.”.

Na verdade, nesses casos eu não queria fortalecer relacionamentos e estabelecer conexão humana (que são as intenções base da Comunicação Não Violenta). Eu apenas queria que o outro fizesse o que eu quero, mesmo que seja, na minha opinião, para benefício dele.

 

Quando estou pedindo

Mas se, diante de um “Não” a um pedido meu, eu tiver reações parecidas com estas, então estarei realmente fazendo um pedido:

Tentar compreender as necessidades do outro: “Se ele não quer atender ao meu pedido, é porque a minha estratégia não atende alguma necessidade dele. O que será que é importante para ele que a minha proposta não contempla?”.

Investigar o que é importante para o outro e buscar estratégias que contemplem a todos: “Quando você me diz ‘não’ do que você está tentando cuidar? Poderia me dizer para que eu possa pensar em outras formas para que fique bom para nós dois?”.

Pedir sugestões de outras estratégias: “Me parece que a minha proposta não é boa para você. Você teria alguma outra sugestão? Gostaria muito de saber e considerar.”.

Colocar limites que cuidem de necessidades: “Vejo que o meu pedido não te contempla, e sua proposta não atende às minhas necessidades. Escolho sair da parceria para que nós dois possamos cuidar do que é importante para nós de outras formas.”.

Usar a autoridade no sentido protetivo: “Entendo que você queira muito brincar com a faca e por isso não queira me devolver. Mas para cuidar de você, vou tomar da sua mão e juntos procuramos outra brincadeira divertida e segura.”

Ou mesmo:

“Compreendo que você tenha um ritmo diferente e que começar o expediente às 11 horas cuida da sua saúde e produtividade. Mas é importante para mim ser justo com seus colegas de trabalho que começam às 8h, além de garantir que a empresa esteja atendendo os clientes a partir deste horário. Por isso decidimos te demitir e espero que você encontre um outro trabalho que atenda essa sua necessidade.”

 

O “não” do outro é um presente

Você já pediu para alguém, ela disse que “sim”, mas acabou não fazendo o que se comprometeu?

Você ficou esperando ter a sua necessidade atendida através daquela pessoa, e nada. E ainda depois de esperar, percebe que poderia ter tido isso com outras pessoas.

Não seria muito melhor para você se aquela pessoa tivesse te dito “não, vou fazer isso que você está me pedindo. não consigo/não sei/não dou conta/não quero fazer isso?”.

O “não” dela te libertaria para seguir caminhando.

Este é um primeiro motivo para ver o “não” do outro como um presente para você.

Além disso, o “não” do outro previne os desgastes causados na relação de quando as pessoas fazem as coisas por medo, culpa ou vergonha.

A energia cultivada pela obrigação, aos poucos e de forma despercebida, traz redução da confiança, da admiração e do respeito mútuo, o que torna o relacionamento insustentável.

Por isso, prefira um “não” verdadeiro em vez de um “sim” acompanhado pelo medo, culpa ou vergonha. 

Incentive as pessoas a te dizerem “não” em vez de fazerem de má vontade. Deixe-as seguras de que elas não serão julgadas nem punidas caso elas te presenteiem com a honestidade delas. De que você quer ter a oportunidade de mostrar que se importa com as suas necessidades e às dela de forma igual.

 

Primeiro peça por conexão, depois por ação

Imagine que você está em casa, seu companheiro(a) chega do trabalho e vê a pia cheia de louça suja, quando era o seu dia de lavá-las. E logo começa a te dizer:

“Quando é o seu dia de lavar a louça e eu vejo a pia com louça suja, me sinto muito nervoso, porque é importante para mim organização da casa e parceria nos cuidados com ela.” 

Como você se sentiria? Quais são as chances de você, com disposição e boa vontade, ir lá atender as necessidades dele e lavar a louça?

Imagino que as chances sejam baixas, não é? 

Mesmo tendo escutado um pedido sem acusações ou críticas, não foi estabelecida nenhuma conexão. 

Você, que não lavou a louça, está ciente do acordo entre vocês e houve algum motivo para que a louça não tenha sido lavada. Imagino que teria sido muito melhor se a outra pessoa ter se conectado a você, antes de ter se conectado à louça.

Sim, a louça precisa ser cuidada de alguma forma, mas essa é a solução final do problema.

Apesar de todo mundo querer ter seus problemas resolvidos, acredito que, nem você nem seu companheiro(a) querem um relacionamento onde a louça está sempre lavada, mas não há diálogo, compreensão e conexão.

Vocês precisam estar do mesmo lado. Vocês contra o problema, e não um contra o outro.

Se essa conexão ainda não existe, faça pedidos de conexão para a outra pessoa.

Cultive conexão antes de pedir o que você quer, para que o outro tenha a oportunidade de contribuir com você compassivamente.

Convide a outra pessoa para o diálogo

Toda vez que começamos um diálogo com alguém que não concordou com isso, estamos impondo. ​

Por isso, antes de mais nada, saiba que não adianta forçar uma conversa se não estamos confiantes que a outra pessoa quer conversar naquele momento. Em vez de começar diretamente uma conversa com o conteúdo que queremos trazer, podemos expressar nosso desejo pelo diálogo, e perguntar se a outra pessoa está disponível para isso.

Exemplo: Estou aqui bastante incomodado em relação ao nosso acordo sobre a louça. Quero muito conversar com você sobre isso, encontrar alguma solução boa para nós dois. Você está disposto a ter essa conversa agora?​

Queira saber como a pessoa se sente com o que você disse

Se não nos importamos com o impacto gerado no outro a partir do que dissemos, estamos atendendo nossa necessidade de expressão, e não de conexão. Você quer só desabafar seus descontentamentos ou se conectar com a pessoa que está na sua frente?

Se você realmente quiser conexão, depois de expressar tudo que está vivo em você busque saber e se importar com os impactos do que você disse. Isso pode vir da sua necessidade de cuidar do outro e também da necessidade de saber como prosseguir a conversa  (clareza).

Exemplos:

Eu adoraria saber como você se sente sobre o que estou dizendo. Como é pra você escutar isso?

Como isso que eu disse chega pra você?

Estou me sentindo bastante vulnerável sobre o que compartilhei. Gostaria de clareza e honestidade entre nós. Você poderia me dizer o que está acontecendo dentro de você?

​Muitas pessoas não fazem perguntas como essas porque têm medo do que vão escutar. Por isso é tão importante aprimorar nossas habilidades de escutar coisas difíceis se queremos conexão humana.

 

Como me tornar cada vez mais capaz de fazer pedidos

Para que eu seja cada vez mais capaz de fazer pedidos em vez de exigências, além de toda clareza em relação às minhas necessidades e pedidos, preciso também estar conectada:

  • à abundância de estratégias que existem para atender necessidades;
  • à abertura para a possibilidade de ter minhas necessidades atendidas de formas novas, diferentes, ainda desconhecidas;

Muito de nós crescemos pensando que fazer uma faculdade é a única estratégia para termos uma vida segura e estável. Que acumular dinheiro é o único meio para termos sustento e previsibilidade. Que não existe outra forma para encontrar sentido na vida e amparo além de seguir uma religião.

A questão aqui não sobre essas estratégias serem “boas” ou “ruins”. Mas sobre elas não serem as únicas formas que existem para atender essas necessidades. E sobre quanta violência já foi causada por pessoas que não percebiam isso.

Quando acreditamos que não existem outros caminhos, que não temos outra saída, a opressão e a submissão são as únicas opções que temos para escolher.

Esteja aberto às diferentes estratégias que existem e ainda vão surgir para atender diferentes necessidades. Questione-se quando você se perceber acreditando que não existem outras saídas além da que você gostaria que acontecesse. Pesquise. Converse com pessoas diferentes sobre as formas que elas escolhem para atender suas necessidades, ampliando o seu repertório de estratégias. 

Se não podemos mudar uma situação, podemos escolher entre nos adaptar ou nos retirar. Se podemos mudar a situação, podemos fazer isso através da força ou através da colaboração, com criatividade, inovação e persistência.

O que fazer para não ser mais agressivo: Escolhas responsáveis

O que fazer para não ser mais agressivo: Escolhas responsáveis

Você gostaria de conseguir reagir de forma diferente quando está diante de um conflito? De forma mais consciente e menos impulsiva?

Mas é um desafio tão grande, que parece ser maior do que você? E aí você não consegue, acaba sendo violento com as pessoas sem querer, se sentindo mal e achando que isso é um problema da sua personalidade?

Saiba que esse não é um defeito seu. Isso realmente é resultado de algo muito maior que nós. Da nossa educação, das nossas referências, dos discursos que escutamos durante as nossas vidas, em suma, da forma como nossa sociedade funciona há milhares de anos. 

Entretanto, se estivermos realmente dispostos, podemos começar a escrever uma história diferente a partir de hoje.

 

Somos treinados para a violência

Quando somos crianças, fazemos de tudo para sermos amados, aceitos, para pertencer. Pertencer, para as crianças, é mais importante que a própria felicidade, que a própria vida. Sacrificamos qualquer coisa por isso, nossa alegria, espontaneidade, criatividade.

Mas por que fazemos isso?

Porque nossos instintos de sobrevivência sabem que pertencer a uma comunidade é uma condição indispensável para proteger a vida. Principalmente quando somos crianças e não podemos prover para nós mesmos.

Na nossa história distante, como espécie, morte era a consequência de ser excluído de uma comunidade. 

Na nossa cultura, obediência é sinônimo de respeito. E é isso que os adultos esperam das crianças. Em troca disso, elas são aceitas, incluídas e amadas. 

E essa cultura da obediência às regras se perpetua nas nossas vidas adultas cotidianas. Fazemos coisas por obrigação o tempo todo e esperamos que os outros cumpram com suas obrigações também. 

Quem não cumpre é merecedor de punições, julgamentos e sofrimento. Somos autorizados socialmente a praticar violência quando estamos “do lado do bem”. Principalmente, a violência invisível que consiste de acusações, humilhações, críticas e ameaças.

E assim, crescemos e vivemos não só violentos, mas também desprovidos da alegria que é fazer as coisas de coração, por escolha. Afinal, estamos funcionando no mundo há tantos anos no modo do “tenho que …” fazer isso, “sou obrigado a” fazer aquilo.

 

Precisamos de autonomia

Todos nós, seres humanos, somos movidos por necessidades humanas universais, como vimos em relação à necessidade de pertencimento. Outro poderoso motivador que se manifesta em nós, desde os primeiros anos de vida, é a nossa necessidade de autonomia.

Queremos fazer nossas próprias escolhas, dar conta de fazer as coisas por nós mesmos. Quem não se sente maravilhosamente bem quando consegue isso, não é?

As exigências e obrigações são fortes ameaças à nossa necessidade de autonomia. Por isso, diante de uma obrigação, nos vemos diante de apenas duas opções: 

1) nos submeter por medo ou pela expectativa de recompensa (suprimindo a necessidade de autonomia com o intuito de atender outras necessidades);

2) nos rebelar, protestar (na tentativa de proteger nossa autonomia).

Ou seja, diante de uma obrigação, não temos a oportunidade de colaborar através da escolha de contribuir de boa vontade. E quem faz uma exigência perde a oportunidade de receber uma algo que venha de coração.

Por isso, meu objetivo aqui é te ajudar a sair do jogo das exigências. Tanto das que você faz para você mesmo, quando das que você recebe de outras pessoas.

Quando uma pessoa faz uma exigência, ela o faz por não encontrar outras formas de pedir para que suas necessidades sejam atendidas. 

Por pensar que as estratégias são escassas. 

E por não perceber a insustentabilidade da energia cultivada pelas dominação. Por não perceber o quão perigosa ela é. Um solo fértil para a perpetuação da violência.

 

Você não é obrigado a nada

Preparado para pensar diferente, e colher frutos diferentes?

Então vamos lá.

Tudo que você faz, você faz para atender alguma necessidade sua.

E não porque você é obrigado a fazer isso.

Consciente ou inconscientemente, você faz escolhas que tentam cuidar de coisas importantes para você.

Você está lendo este material para atender, provavelmente, as suas necessidades de aprendizado, de conhecimento, de clareza.

Você toma banho para atender suas necessidades, pode ser de saúde e de bem estar.

Se você trabalha, você trabalha para atender suas necessidades. Pode ser de sustento, de segurança, de valorização, reconhecimento.

Se uma pessoa entrega sua bolsa para um ladrão armado, ela o faz para atender a sua necessidade de proteção, de sobrevivência.

Se uma pessoa deixa de fazer o que gosta para obedecer às ordens dos seus pais, pode ser que ela esteja atendendo suas necessidades de ser aceito, de pertencimento, de amor.

Muitas vezes escolhemos estratégias que, quando paramos para pensar, não fazem sentido, pois nos distanciam de termos as nossas necessidades atendidas. Ou que, às vezes, traz danos para nós mesmo ou para os outros.

Por exemplo, quando eu grito com alguém, estou tentando atender a minha necessidade de ser escutada, ser considerada. Mas na realidade, o que acontece, é o contrário. Quanto mais eu grito, menos as pessoas me escutam e me consideram.

Utilizamos estratégias violentas quando estamos inconscientes de quais necessidades nos movem. De quais os nossos motivadores para as nossas ações, falas e pensamentos.

“Ficamos perigosos quando não temos consciência de nossa responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos.”

Marshall Rosenberg

Podemos escolher formas para atender nossas necessidades que tragam mais bem estar para nós e para os outros, quando estamos conscientes das nossas necessidades e das necessidades dos outros. Quando nos lembramos que elas são igualmente importantes, já que somos interdependentes. Já que só temos um real bem estar quando o outro também tem.

 

Troque a energia do “tenho que” para energia do “eu escolho”

Se viermos a ceder e nos submeter a ordens sem sentido, nossas ações se originarão de uma energia destituída da alegria de viver. E não haverá dentro de nós energia para a empatia, para a criatividade, e para a superação dos desconfortos inerentes a um diálogo.

Por isso a Comunicação Não Violenta nos inspira a transformar o nosso hábito de pensar e dizer “tenho que” pelo hábito de pensar e dizer “eu escolho”. O exercício abaixo irá te ajudar nesse processo.

criando-pontes-autorresponsabilidade

  1. Pense em algo que você definitivamente não gosta de fazer (apenas uma), mas faz por obrigação.

Por exemplo: Eu tenho que cozinhar para minha família todos os dias.

 

  1. Investigue, com a ajuda da lista de necessidades humanas universais, qual necessidade você busca atender fazendo isso. Se surgirem várias necessidades, escolha apenas as duas principais.

Por exemplo: Ao cozinhar para a família todos os dias, eu estou tentando atender minhas necessidades de cuidar da minha família (cuidado) e de ter comida para comermos (alimento).

 

  1. Você consegue dizer para si mesmo: Eu escolho seguir fazendo isso, para atender às minhas necessidades? Se sim, ok. O “tenho que fazer comida” pode se transformar em “estou disposto a fazer comida”, e quem sabe em “faço comida para a minha família de coração”.

Por exemplo: Eu escolho seguir cozinhando para a família todos os dias para atender às minhas necessidades de cuidado e de alimento.

 

  1. Se você não consegue se dizer que “escolhe” fazer isso, e quer seguir na busca pela autorresponsabilidade, investigue outras estratégias para atender suas necessidades. Você pode pedir ajuda para pessoas de sua confiança para te ajudarem com sugestões de outras possibilidades de estratégias, pesquisar saídas, utilizar a sua criatividade.

Por exemplo: Não vou mais cozinhar para a família todos os dias. Vou buscar outras estratégias para atender minhas necessidades de cuidado e alimento. Poderia ser comprando comida pronta, cozinhando uma vez na semana e congelando para os outros dias, revezando dias de cozinhar com outros membros da família…

 

Já vi diversas reações de pessoas que realizaram este exercício. É muito comum ver algumas se sentindo aliviadas, pois se libertaram de alguma obrigação que elas mesmas se impunham. Decidiram não fazer mais aquilo, e encontraram outras formas de atender suas necessidades. Novas estratégias que elas conseguem dizer que “fazem de coração”.

Mas pode ser que não seja tão fácil simplesmente deixar de fazer o que você sempre fez, devido ao receio dos impactos negativos que isso pode gerar. E isso acabe te levando a uma visão de escassez, de que não existem outras formas para atender suas necessidades.

Em algumas situações não é fácil porque a escolha pode acabar gerando sentimentos desconfortáveis em você e nas pessoas envolvidas. Mas isso tudo não é sobre evitar dos sentimentos desconfortáveis. É sobre fazer escolhas responsáveis para não perpetuar violência nem para si mesmo, nem para os outros.

Passar a agir a partir do coração não significa que só faremos coisas legais e divertidas.

Significa que faremos o que escolhermos para atender nossas necessidades, mesmo que a necessidade seja de sobrevivência. E que nos abriremos para a criatividade na busca de encontrar estratégias que atendam nossas necessidades de formas menos custosas.

Cultivar autorresponsabilidade não anula a existência de violências que causam danos às pessoas e restringem suas possibilidades. Muito trabalho precisa ser feito para diminuir a violência estrutural além do nosso trabalho interno individual. Mas é pelas pessoas que compõem uma sociedade que ela se transforma.

Nossa sociedade não é algo que está lá fora, ela é composta por cada um de nós. Não apenas recebemos os impactos dela, mas também os geramos.

Inimigos da Escuta

Inimigos da Escuta

Por que escutar é tão difícil mim?

Você também acha difícil escutar as pessoas? Ainda mais quando elas falam e fazem coisas que você discorda?

Alguém já te disse “Você não me escuta!”?

Ou mesmo “Deixa eu terminar de falar!”?

Primeiramente saiba que isso não acontece só com você. Pouquíssimos de nós fomos ensinados a exercer essa habilidade que todos temos: a de escutar.

Desde crianças, somos ensinados a conversar através dos exemplos que os adultos nos davam: a querer ganhar as conversas, a falar mais alto até silenciar o outro, a usar a autoridade para obter o que queremos.

Por isso precisamos de um esforço consciente para aprender a escutar.

É importante lembrar que a comunicação não acontece quando falamos. Acontece quando existe compreensão mútua, e para isso, a escuta é inevitável.

Lembrando que escutar alguém NÃO é:

  • aceitar suas imposições;
  • concordar com suas opiniões;
  • ser conivente com suas ações;
  • ser passivo a uma condição;
  • perder uma conversa;
  • só esperá-la(o) terminar de falar.

Escutar é:

  • sustentar a intenção de entender;
  • considerar legítimo o que ela(e) diz;
  • se permitir mudar, aprender com o que vem do outro;

Neste artigo, você encontrará alguns vícios que causam barulhos demais para escutar o outro de verdade.

Pode ser que você identifique situações diferentes para cada um deles. Confere, e conta pra gente, com qual inimigo da escuta você se identifica mais?

DISTRAÇÕES

Você se sente vista(o), considerada(o), escutada(o), por uma pessoa que fica olhando para o celular enquanto você diz algo importante?

Se você escolheu escutar uma pessoa, trate o que ela diz como se fossem as últimas palavras que ela estivesse dizendo nesta vida. Trate-a como você trataria uma pessoa realmente importante.

 

PRESSA

Muitas pessoas dizem não terem tempo para “ficar escutando” as outras. Quem diz não ter tempo para escutar e compreender os outros costuma não perceber o tempo e a energia que os problemas causados pelos mau entendidos exigem. Por exemplo: brigas que tiram o sono dentro de casa, retrabalhos e alta rotatividade de colaboradores nas organizações.

TER RESPOSTAS PARA TUDO

Se você acredita ser o(a) sabedor(a) de tudo, é muito provável que não veja necessidade em escutar os outros.​ A abertura para o diálogo requer o reconhecimento de que se pode aprender com pessoas que têm crenças diferentes das nossas,  pessoas que têm menos experiência de vida, pessoas que fizeram coisas que consideramos erradas.. Afinal, para toda verdade, existem diversas outras verdades.

QUERER GANHAR A CONVERSA

Muitas vezes queremos ter diálogos, mas acabamos cultivando debates. Num debate, os participantes escutam os outros tentando encontrar o que está errado, incompleto ou defeituoso nas afirmações de seu oponente. A intenção é identificar as falhas, expô-las e desmontar a argumentação do oponente. Neste lugar, não há espaço para a escuta.

O MEDO DOS CONFLITOS

Quando temos medo dos conflitos, nosso impulso é evitá-lo, suprimi-lo, resolver o problema prático que o causou com urgência. E não falar mais sobre o assunto. Os “não ditos” e “não escutados” criam um ambiente tóxico e altamente propício para a violência.

A ILUSÃO DA COMUNICAÇÃO

É uma ilusão pensar que o que eu digo é o que o outro escuta. É uma ilusão pensar que o que eu escutei, foi o que o outro disse. Ao contrário do que pensamos, os ruídos não são exceção na comunicação, eles são regra. A complexidade que rege a nossa existência se faz presente na nossa linguagem e nos nossos comportamentos.

OS JULGAMENTOS

Se acredito que o outro está fazendo algo que meu juiz interno diz que é errado, meus ouvidos param de escutar o que ele diz, e começam a escutar mais as minhas vozes internas: o que ela(e) deveria fazer, o que ele(a) merece por ter feito isso, quem é a(o) culpado da história toda… Escutar requer suspender esses julgamentos, mesmo que por alguns instantes.

AGIR POR IMPULSO

Escutar de verdade requer habilidades que o cérebro não tem condições de exercer quando está num estado de luta ou fuga. Nossa sobrevivência como espécie depende dos nossos impulsos de nos proteger. Protegemos nossos valores e integridade como se fossem nossas vidas quando os vemos serem ameaçados. Mas este não é, biologicamente, o melhor momento para escutar.

 

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Como conversar com pessoas que pensam diferente de nós

Como conversar com pessoas que pensam diferente de nós

Estamos na dita “Era da Comunicação”. Mas não é preciso ir muito longe para perceber que estamos bem longe de nos entendermos melhor. 

Basta olharmos os grupos de Whatsapp, principalmente os familiares, para perceber que, apesar dos avanços tecnológicos, as pessoas se compreendem cada vez menos.

A reação natural da maioria das pessoas é dizer que o problema está, claro, no outro. Ficamos abismados com a capacidade das “outras” pessoas em interromper nossas falas e nos apontar dedos.

Mas reconhecer que tudo isso também está em nós, é um começo importante. 

Estamos sendo confrontados com uma realidade que nós mesmos ajudamos a criar e sustentar. Afinal, somos todos filhos dessa cultura de dominação onde aprendemos que precisamos ganhar as conversas para não sermos perdedores. Todos nós queremos ter razão.

Vamos juntos aprender a trabalhar com as nossas tendências humanas que, na tentativa de nos proteger, acabam determinando nossos comportamentos na direção de nos separar, em vez de nos conectar.

Pois, na construção do mundo que queremos, não podemos abrir mão da cooperação entre as pessoas. E, para isso, o diálogo construtivo e respeitoso é um dos caminhos mais transformadores e acessíveis.

 

Parta do princípio que as falhas de comunicação são REGRA, e não exceção

Somos seres humanos dinâmicos e complexos utilizando uma ferramenta para nos comunicar: a linguagem. Mas ela não dá conta de acompanhar todos os nossos movimentos e complexidades em tempo real.

Por isso as falhas de comunicação existem, e não são exceção, são a regra. Quando a gente acha que está se comunicando com perfeição, estamos de fato iludidos que isso acontece.

Sobre as ilusões e ruídos que acontecem quando a gente se comunica, assista essa série maravilhosa de vídeos do GNT: Meia Palavra.

Partir do princípio que as falhas são inerentes à comunicação humana, que nem tudo que eu falo é compreendido como eu digo, me pede persistência no diálogo, na tentativa de dizer o que eu realmente quero dizer, e de escutar o que o outro está realmente tentando falar.

Sabendo dessa limitação da linguagem e do processo de comunicação, antes de chegar a qualquer conclusão, eu permaneço no movimento constante de checar com o outro se a minha compreensão foi coerente com o que ele quis dizer. E dizendo, de diferentes formas, as minhas reais intenções.

 

Não tenha medo dos conflitos

Para conversar com pessoas que pensam diferente de mim, preciso partir do pressuposto que não existe uma verdade absoluta no mundo, cada um vê uma verdade diferente. E que diante de tantas verdades, na tentativa de conviver, estamos o tempo todo, consciente ou inconscientemente, fazendo acordos e criando consensos.

Além disso, somos seres humanos dinâmicos, ou seja, nossas necessidades e visões de mundo mudam com o tempo. Aquele acordo que fizemos no passado para conviver bem, precisa ser atualizado repetidas vezes para acompanhar nossa dinamicidade. E como se manifesta a necessidade de se atualizar um acordo? Através do conflito.

O problema é que queremos evitar desconfortos. E os conflitos são desconfortáveis. Entre uma zona de conforto e outra, existe um conflito. Ainda assim, é através dos conflitos que nós reagimos, inovamos e mudamos. Por isso o conflito pode ser entendido como motor da mudança.

Os conflitos nos relacionamentos de todos os níveis são o modo como a vida encontra para nos ajudar a parar, avaliar e prestar atenção.

Ao mesmo tempo, o conflito é um ponto de decisão, entre deixá-lo se desfigurar em violência, ou transformá-lo em um diálogo.


Esse olhar para os conflitos é lindamente abordado por Dominic Barter. Ele foi convidado pelo Mamilos Podcast para falar sobre CNV, e você pode escutar o episódio aqui neste link.

Temos medo do que não conhecemos. Mas perdemos o medo dos conflitos quando aprendemos a lidar com eles, a transformá-los em diálogos que nos tragam mudanças boas para todos.

Quando aceitamos que os conflitos fazem parte de qualquer relação humana, compreendemos também a importância de nos preparar para eles.

 

O que faz o DIÁLOGO diferente de outros tipos de conversas?

Num diálogo, eu abro mão de vencer para que todos ganhem.

Eu deixo de demandar minha atenção e energia para tentar provar meu ponto. E me esforço para tentar compreender o que o outro quer dizer, por trás dos julgamentos, reclamações, acusações e críticas. 

No diálogo o nosso foco de atenção está no ato de escutar para compreender.

E também buscamos ideias com as quais conseguimos concordar, potencialmente combinando estas com nossas próprias ideias a fim de construir uma verdade maior do que qualquer um dos lados teria sozinho.

Quem sabe menos, escuta melhor

Numa atitude aberta à escuta, temos uma atitude orientada para perguntas e para a valorização do que “ainda não sabemos” em detrimento da antecipação sobre coisas que já sabemos.

Vá para um diálogo aberto para a possibilidade de ter pensamentos como estes:

“Nossa, eu nunca tinha pensado nisso!”
“Olha que interessante, eu nunca tinha olhado por esse ponto de vista.”
“Uau, disso eu não sabia.”

A curiosidade é um ato de vulnerabilidade e coragem, porque aprender começa com a disposição de “não saber”. E acredito que, poucos ou nenhum de nós, temos lembranças de termos sido valorizados por “não saber” algo.

A abertura para o diálogo requer o reconhecimento de que se pode aprender com pessoas que têm crenças diferentes das nossas. Se alguém acredita ser o único detentor da verdade não vê necessidade em escutar os outros.

O ato de permanecer curioso em situações difíceis é uma habilidade que requer prática. É a sabedoria de, mesmo sentindo raiva e medo, continuar perguntando: “O que está acontecendo aqui de fato? O que eu não entendi?”

 

Porque não adianta debater

“Às vezes, se você desmonta um argumento meu, você desmonta a maneira como eu me enxergo, como eu me compreendo, o sentido que eu dou para minha vida. Eu preciso me reinventar como pessoa para deixar de crer naquilo que eu creio.”
Ed Rene Kivitz

Nosso cérebro trata a dor física da mesma forma que a dor da rejeição (ou dor social). Isso porque ele sabe muito bem que as conexões sociais são importantes para a nossa sobrevivência, assim como alimento e abrigo.

Quando você tenta convencer alguém que ele está errado, por exemplo, é muito provável que o corpo dele reaja como se ele estivesse sofrendo uma ameaça física real.

Durante essa reação, o cérebro dele só será capaz de pensar em se defender. Todas as outras funções como a de empatia, flexibilização, aprendizado, planejamento e regulação emocional, serão suprimidas pelo instinto de proteção.

Ou seja, se queremos que o outro tenha empatia conosco, que ele esteja aberto ao aprendizado e à flexibilização, precisamos nos comunicar de forma que ele se sinta seguro, aceito, considerado.

Mas essas intenções precisam ser verdadeiras. Você pode até tentar fingir que se importa com as necessidades do outro. Mas em algum momento ele vai perceber as suas reais intenções.

Por isso esteja consciente das suas intenções. Assim, você terá o poder de escolha entre permanecer com ela, ou de mudar a sua intenção. Leia o artigo sobre a intenção da Comunicação Não Violenta aqui.

 

Efeitos pós diálogo: conte com eles

Muitas vezes, os efeitos de um diálogo acontecem algum tempo depois dele. A mudança no nível de consciência e o grau de disposição para que as pessoas se sintam inclinadas a partir para a ação podem não ficar evidentes ao final de uma única conversa.

Foram diversas as vezes que vi mudanças positivas de comportamento na outra pessoa, nos dias seguintes de um diálogo, mesmo que ao fim dele eu não tivesse me sentido otimista de que algo mudaria.

 

Treine

Com o diálogo, não queremos convencer quem está do “lado de lá” a vir para onde estamos. Mas sim sair das nossas bolhas e construir outras coletivamente, que sejam mais favoráveis para todas. E para isso, apenas empatia e boa intenções não bastam.

Conversar com quem pensa muito diferente de nós exige prática, continuidade, paciência, respiro. Confie e encare essa jornada como um treinamento para cultivar uma habilidade fundamental aos tempos atuais.

A Comunicação Não Violenta oferece ferramentas poderosas para sustentar conversas respeitosas em conflitos nos relacionamentos humanos. Conheça um pouco mais sobre ela clicando aqui!