Como responder às críticas por estar utilizando a linguagem da Comunicação Não-Violenta

Como responder às críticas por estar utilizando a linguagem da Comunicação Não-Violenta

Você está iniciando sua jornada de aprendizado da Comunicação Não-Violenta… Já é um desafio gigante começar a escutar sentimentos e necessidades por trás dos seus próprios pensamentos.

Como é para você quando você tenta se expressar a partir desse novo lugar com uma outra pessoa, e ela diz:

“Você está agindo de um jeito esquisito.”

“Você fica falando essas coisas estranhas.”

“Lá vem você com CNV para cima de mim.”

 

Isso é muito fácil de acontecer, principalmente quando nos perdemos do objetivo principal da CNV, que não é obter o que queremos, mas nos conectar com outro ser humano. Mostrar para ele que você se importa com ele, tanto quanto você se importa consigo mesmo.

 

Questione-se sobre qual é a sua intenção ao se expressar a partir dos componentes ou termos da CNV. Eles nos apoiam a não usar palavras que carreguem julgamentos na nossa expressão, mas se eles estiverem gerando desconexão, não faz muito sentido seguir desta forma.

Pedidos de conexão, antes de pedidos de ação, podem evitar esses incidentes.

Escutar o que o outro pensa, sente e quer, também.

Expressar a sua real intenção, mais ainda.

Lembre-se que você está falando Com o outro, e não Para o outro.

 

Segue um exemplo de reação para essa situação:

1. Escute com empatia, e compreenda as necessidades do outro quando diz o que diz. Mostre que compreendeu:

“Você fica incomodado ao me ver falando de um jeito diferente que eu costumava? Você gostaria que tivéssemos conversas mais leves, mais espontâneas…?”

 

2. Exponha sua intenção ao fazer o que você está fazendo:

“…eu também quero que nossas conversas sejam espontâneas. E quero encontrar formas da gente se entender, cuidar da nossa relação. Praticar Comunicação Não-Violenta foi uma estratégia que encontrei para isso…”

 

3. Faça um pedido de conexão:

“…mas enquanto estou aprendendo, as coisas podem não sair tão espontâneas como eu gostaria. Seria muito bom ter compreensão, e apoio nesse processo. O que você pensa sobre isso?”

 

E a partir dessa conexão, um pedido de ação que contemple as necessidades dos dois é muito mais possível de ser encontrado.

 

Experimente, e conte para mim como foi!

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Como utilizar a comunicação não-violenta de forma natural

Como utilizar a comunicação não-violenta de forma natural

Necessidades Humanas Universais

São nossos motivadores mais centrais. Tudo que fazemos, fazemos com a intenção de atender nossas necessidades humanas universais.

Todos os seres humanos compartilham das mesmas necessidades. Nós todos precisamos das mesmas coisas para nos sentirmos prósperos e realizados. Além das necessidades óbvias de abrigo, ar, e alimento, por exemplo, todos nós queremos ter Autenticidade, Autonomia, Pertencimento, Reconhecimento, Consideração.

As estratégias que utilizamos para atender essas necessidades podem ser diferentes. Os conflitos ocorrem no nível das estratégias, acoplado com interpretações, e não no nível das necessidades.

A linguagem das necessidades humanas universais

A Comunicação Não-Violenta nos convida a substituir a linguagem da culpa e dos julgamentos pela linguagem das necessidades. Mas como utilizar uma linguagem da qual, muitos de nós, nem temos vocabulário? Nem sabemos quais palavras utilizar para expressar o que precisamos!

Infelizmente, nossa cultura não nos estimula a olhar para o que estamos precisando. Mas sim, a olhar o que os outros fazem de certo e errado.

Por isso Marshall Rosenberg criou uma lista de palavras que expressam sentimentos e necessidades, e que nos apóia no processo de aprendizagem dessa nova linguagem. Autores da Comunicação Não-Violenta, permanecem desenvolvendo essa lista. Aqui você pode baixar gratuitamente uma versão da lista de palavras que expressam sentimentos e necessidades.

 

Como tornar o uso da linguagem da Comunicação Não-Violenta mais natural

Um dos maiores argumentos de quem resiste à pratica da CNV é que ela é muito robótica, mecânica, artificial.

Isso é trágico porque o objetivo da CNV é conexão. E ela não acontece se a outra pessoa sente que está conversando com um livro.

 

Primeira dica: Procure não utilizar a palavra “necessidade”

Tendo claro o conceito das necessidades humanas universais, quando você for expressar suas necessidades ou fazer hipóteses empáticas, procure substituir a palavra “necessidade” por termos como:

“Eu gostaria / Você gostaria”, “Eu adoraria / Você adoraria”, “Eu quero / Você quer”, “Eu preciso / Você precisa”

Por exemplo:

Utilizando a palavra “necessidade”
Substituindo a palavra “necessidade”
Sua necessidade é de espontaneidade?
Você gostaria de ter mais espontaneidade?
Eu tenho a necessidade de companhia.
Eu adoraria ter companhia.
Eu tenho a necessidade de reconhecimento.
Eu quero reconhecimento.
Minha necessidade é de autenticidade.
Eu preciso de autenticidade.

 

Em vez de utilizar a palavra “necessidade”, podemos utilizar também o termo “Isso me traria / Isso te traria”, por exemplo:

Utilizando a palavra “necessidade”
Substituindo a palavra “necessidade”
Sua necessidade é de segurança?
Isso te traria mais segurança?
Eu tenho a necessidade de aprendizado.
Isso me traria aprendizado.

 

Segunda dica: Substitua as palavras da lista de necessidades

Segurança, Escuta, Empatia, Pertencimento, Igualdade… As palavras que expressam necessidades humanas universais são palavras que não temos o hábito de utilizar no nosso dia a dia. Num diálogo real, pode ser que utilizá-las gere algum estranhamento e não seja tão produtivo.

Uma estratégia para identificar necessidades, além da utilização das listas, é encontrar respostas para as seguintes perguntas:

Para investigar e expressar as minhas necessidades:

“Do que eu mais preciso agora?”

“O que o meu coração realmente quer?”

“O que enriqueceria a minha vida neste momento?”

 

Para investigar as necessidades de outra pessoa e demonstrar empatia por ela:

“Do que você mais precisa agora?”

“O que o seu coração realmente quer?”

“O que enriqueceria a sua vida neste momento?”

 

Segue alguns exemplos de expressões de necessidades, sem necessariamente utilizar as palavras da lista. E que podem te ajudar a ter um diálogo de forma mais natural e fluida, com pessoas de qualquer idade. Ao utilizá-los, escolha o que funciona para você e para o seu contexto.

 

  • Autonomia:

Escolher o que é melhor para si

Tomar suas próprias decisões

 

Compare as frases utilizando cada dica:

Utilizando a palavra “necessidade”Substituindo a palavra “necessidade”
O que o coração realmente quer?
Sua necessidade é de autonomia?Você gostaria de ter mais autonomia?
Você gostaria de escolher o que é melhor para você?
Tenho a necessidade de autonomia.Eu adoraria ter mais autonomia.
Eu adoraria tomar minhas próprias decisões.

O mesmo pode se aplicar para todas as necessidades humanas universais.

 

  • Expressão:

Falar suas opiniões

Expressar seus sentimentos

 

  • Autenticidade:

Ser quem você realmente é

 

  • Escuta:

Ser escutado

 

  • Consideração:

Ser considerado

Ter suas ideias levadas em consideração

 

  • Inclusão:

Se sentir incluído

Sentir que faz parte

 

  • Pertencimento:

Saber que pertence

Saber que faz parte de um lugar

Saber que faz parte de um grupo

 

  • Igualdade:

Que todos tenham direitos iguais

Que todos sejam considerados

 

  • Importância:

Saber que é importante

Saber que é útil

Saber que suas necessidades importam

 

  • Contribuição:

Poder ajudar os outros

 

  • Confiança:

Poder confiar

Se sentir confiante

 

  • Previsibilidade:

Saber o que vai acontecer

Se preparar para o que vier

 

  • Proteção:

Evitar/prevenir riscos

Evitar/prevenir decepções

Evitar/prevenir desconfortos

Evitar/prevenir dores

 

  • Empatia:

Que as pessoas tentem se colocar no seu lugar

Que tentem imaginar como você se sente

Que tentem imaginar o que é importante para você

 

  • Reconhecimento / Valorização

Ter reconhecimento pelos seus esforços, dedicação

Ser reconhecido

Ser valorizado

 

  • Propósito:

Fazer coisas que façam sentido

Ter objetivos que façam sentido

 

  • Realização:

Se sentir realizado

Alcançar seus objetivos

 

Lembre-se que o objetivo da Comunicação Não-Violenta é conexão humana. Quando a CNV “não dá certo”, são grandes as chances de que você esteja a utilizando com uma intenção que esteja em desacordo com os pressupostos da abordagem. Leia este artigo sobre a intenção da CNV: Comunicação Não Violenta é uma questão de Intenção.

Se, mesmo diante das tentativas sugeridas neste artigo, utilizar a linguagem da Comunicação Não-Violenta gerou estranhamento para outras pessoas, leia este artigo aqui: Como responder às críticas por estar utilizando a linguagem da Comunicação Não-Violenta.

 

Se o que escrevi te tocou de alguma forma, deixe eu saber disso! Vou adorar receber seu feedback, seja qual for.

Qual a origem do termo “Comunicação Não-Violenta”?

Qual a origem do termo “Comunicação Não-Violenta”?

A Comunicação Não-Violenta, também chamada de Comunicação Compassiva, é um processo que faz uma integração entre desenvolvimento pessoal e transformação social

A abordagem da Comunicação Não-Violenta, bem como seu nome, foi criada pelo psicólogo americano Marhsall Rosenberg. Ele faz uso do termo ‘não-violência’ com o sentido que Gandhi atribuiu ao mesmo – referindo-se a nosso estado compassivo natural quando a violência houver se afastado do coração.

Gandhi se referia à não-violência utilizando o termo sânscrito Ahimsa.

“Ahimsa significa a erradicação do desejo de ferir ou matar.” Mohandas Gandhi

É um princípio abrangente, não se limita à dualidade da oposição à violência, mas trata-se de um princípio ético que se baseia no potencial que é desencadeado quando a vontade de ferir o outro é transcendida.

Reconhecer que somos violentos é o primeiro passo para que possamos mudar a qualidade de nossas atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a respeito dela.

 

Segue as palavras de Marshall sobre o termo “Comunicação Não-Violenta”:

“Eu não gosto desse título, mas porque eu uso? Bem, eu uso porque ao longo dos anos isso me conecta com pessoas ao redor do mundo que acham nosso treinamento muito valioso para suas vidas e para suas atividades políticas. Então eu tenho usado esse nome porque ele me conecta com pessoas. 

Mas por que eu não gosto do título? Uma das razões é a mesma pela qual Gandhi não gostava da expressão “não-violenta”. Porque expressa algo que não é. E a Comunicação Não-Violenta foca no que nós queremos, não somente no que não queremos. Além disso, comunicação é apenas uma pequena parte do que irei compartilhar.”

 

Muitas pessoas têm uma impressão errônea sobre essa visão. Como se não-violência fosse sinônimo de passividade, conformismo. Mas estamos falando sobre não-violência, e não sobre não-ação.

Sem a consciência da não-violência, tendemos a acreditar que as únicas respostas possíveis a um ataque são nos render ou lutar para nos defender: a resposta de lutar-ou-fugir. A não-violência é a escolha que se abre quando não queremos adotar nenhuma dessas duas posturas. Ela nos oferece uma terceira via possível e natural.

Em termos da nossa intenção consciente, não estamos tentando “vencer”, nem com medo de perder; nosso objetivo é crescer, se possível, até mesmo juntamente com aquele que se opõe a nós.

“A não-violência é o maior poder com o qual a humanidade foi dotada” Mohandas Gandhi

 

A linguagem da Comunicação Não-Violenta é uma via que nos ajuda a trocar as lentes que olhamos para o mundo e para as pessoas. A gerar compreensão e compaixão onde parecia ser improvável, aliados à ação e à mudança. Comunicação Não-Violenta nos aproxima do que Gandhi chamava de Ahimsa.

O que podemos fazer quando ninguém parece estar disposto a nos escutar?

O que podemos fazer quando ninguém parece estar disposto a nos escutar?

Num post anterior, escrevi sobre as dificuldades de praticar a Comunicação Não-Violenta quando você não tem ninguém próximo a você com o mesmo objetivo. Sobre o quanto isso pode ser solitário e desmotivador.

Aqui vamos falar sobre o que podemos fazer quando nos sentirmos dessa forma.

O que podemos fazer para cuidar de nós mesmos quando ninguém parece estar disposto a nos escutar?

O que podemos fazer para construir uma comunidade onde possamos nos apoiar?

 

Olhar para dentro

  • Antes de mais nada, é importante tomar um tempo

Me lembro de vezes que tive a infeliz ideia de pedir para ser escutada, ser compreendida, afogada num estado cerebral tomado pelo instinto de luta, na tentativa de me defender. Parecia que era uma questão de vida ou morte – é essa a impressão que temos quando agimos por impulso, e há grandes chances de um momento como esse ser acompanhado por um amargo arrependimento.

Para prevenir isso, crie uma estratégia para escutar seu corpo quando ele entra em um estado de luta, fuga ou paralisação. E para se lembrar de que este não é um momento fisiologicamente favorável para ter conversas desafiadoras e tomar decisões.

 

  • Você com você mesmo, pode procurar identificar: “o que estou sentindo, do que estou precisando?”

Autoconexão. Quais são seus sentimentos? Quais são suas necessidades? Esse é o ponto de partida se queremos nos preparar para buscar estratégias não violentas para atender nossas necessidades. Tudo bem precisar das cartas do baralho, das listas de apoio à prática da Comunicação Não Violenta. Tudo bem precisar escrever, ou mesmo descobrir isso com ajuda de alguém através de uma escuta empática. Ter clareza é um ponto de partida que faz toda diferença.

 

  • Você com você mesmo, pode também procurar esclarecer como você quer sua necessidade seja atendida

Mais autoconexão. Se quero ser escutada, se quero empatia, e quero pedir por isso, o que eu espero que o outro faça? O outro não tem como adivinhar. Faz sentido pedir isso para essa pessoa específica, nessa ocasião?

Em várias ocasiões em que eu precisei de escuta, não fazia sentido para mim pedir para que o outro esperasse eu terminar de falar antes dizer algo, me dissesse o que ele entendeu do que eu disse, me dissesse como ele imaginava que eu estava me sentindo, ou do que eu estava precisando. Porque naqueles momentos era mais importante espontaneidade, leveza, aceitação, inclusão.

 

  • Você com você mesmo, pode ir aos poucos ir tomando consciência dos seus limites

Sim, autoconexão de novo. Tendo consciência dos meus limites, eu me protejo, protejo os outros, e mantenho meu abastecimento de energia para seguir praticando a consciência nas minhas relações.

 

  • Um conselho: aceite que a prática da Comunicação Não-Violenta, da empatia, da escuta, nem sempre acontecerá com as pessoas próximas a você

Foi, e ainda é doloroso aceitar que não serei escutada da forma como eu gostaria pelas pessoas mais próximas a mim. Geralmente elas querem contribuir, consertar as situações para interromper o meu sofrimento, antes de eu esvaziar o que tenho a dizer e sentir.

Enquanto as pessoas estiverem inconscientes do quanto é enriquecedor e curativo ajudar apenas estando presente, silenciando suas vozes para dar vez à nossa, teremos que procurar apoio com pessoas fora do nosso círculo de convivência.

 

Estratégias de ação

  • Construir uma rede de apoio

Não há nada mais aliviante do que saber que tenho pessoas preparadas para me escutar, como eu quero ser escutada. Que me acompanham nos meus sentimentos. Que não tentam me diagnosticar, me consertar. Elas me ajudam a encontrar meus sentimentos e necessidades quando estou no campo dos julgamentos.

E é bom ter várias pessoas com quem possamos contar, porque elas também têm suas questões e indisponibilidades. Assim você aumenta a possibilidade de ter alguém disponível nos momentos que você precisar.

Eu resisti um pouco a isso no começo. Me soava estranho, artificial. Espontaneidade era (e ainda é) algo importante para mim. Mas aos poucos fui percebendo o quanto APOIO era mais importante que espontaneidade naquele momento. E vejo que adquirimos naturalidade e leveza através da prática, do tempo e da constância.

 

  • Frequentar e construir grupos que cultivam práticas de empatia

Em várias cidades do Brasil já existem movimentos acessíveis que cultivam práticas da Comunicação Não-Violenta. Se você não encontrar na sua cidade, você pode começar a construir um grupo. O instituto CNV Brasil pode te apoiar neste movimento de construir Círculos Empáticos.

Para quem já passou por algum curso introdutório de CNV, tem também a possibilidade de participar do grupo online de apoio à prática da Comunicação Não-Violenta:

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Se você quiser se aprofundar na prática, vem conhecer o nosso grupo!

  • E principalmente, seja a mudança que você quer ver no mundo

Os desafios nas relações humanas estão aí todos os dias, todas as horas, e podemos aproveitá-las para gerar transformação com cada escolha que fazemos.

“A cada interação, conversa e pensamento, vemo-nos diante de uma escolha: promover a paz ou perpetuar a violência.”

Marshall Rosenberg

 

Para acalmar nossos corações, leia um conto sobre vencer as dolorosas dificuldades de construir um mundo melhor neste post aqui.

E para você, uma música maravilhosa de aquecer o coração – Ciganos do Espaço, da banda Tukum.

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Reconexão com o que é mais importante

Reconexão com o que é mais importante

REUNINDO A TRIBO

Era uma vez uma grande tribo de pessoas que viviam num mundo muito distante. Se era distante no espaço, no tempo, ou mesmo fora do tempo, não sabemos. Viviam num estado de encantamento e alegria que poucos hoje ousariam acreditar que existe, salvo naquelas raras experiências de pico quando vislumbramos o verdadeiro potencial da vida e da mente.

Certo dia, os anciãos da tribo convocaram uma reunião. Juntaram-se em roda e uma anciã disse de modo muito solene: “Meus amigos, há um mundo que precisa de nossa ajuda. Chama-se Terra, e seu destino está por um fio. Seus humanos chegaram ao ponto crítico de seu nascimento como coletividade, o mesmo ponto em que nós estávamos há um milhão de anos, e eles serão um natimorto se não ajudarmos. Quem gostaria de ser voluntário para partir em missão a esse tempo e lugar e prestar serviço à humanidade?

“Nos fale mais sobre essa missão” disseram.

“Não será fácil. Nosso xamã os colocará num transe muito, muito profundo, tão completo que se esquecerão de quem são. Viverão uma vida humana e no começo esquecerão por completo suas origens. Se esquecerão até mesmo da nossa língua e do seu verdadeiro nome. Ficarão apartados da maravilha e beleza de nosso mundo, e do amor que nos banha a todos. Sentirão uma saudade pungente, mas serão incapazes de dar nome àquilo de que têm saudade. Se lembrarão do amor e da beleza que reconhecemos como normais, apenas pelo desejo de seu coração. Sua memória tomará a forma de um conhecimento intuitivo da existência da possibilidade de um mundo mais bonito quando mergulharem nessa Terra dolorosamente desfigurada.

“Ao crescerem nesse mundo, seu conhecimento ficará sob ataque constante. Dirão a vocês de um milhão de modos que um mundo de destruição; violência; trabalho sem sentido, ansiedade, e degradação são normais. Poderão passar por tempos em que estarão completamente de sozinhos, sem aliados que reafirmem seu conhecimento de um mundo mais bonito. Talvez caiam nas profundezas de um desespero que nós, no nosso mundo de luz, nunca imaginamos. Mas, apesar de tudo, uma fagulha de conhecimento jamais os abandonará. Uma lembrança de sua verdadeira origem ficará gravada em seu código genético. Essa fagulha ficará dentro de vocês, inextinguível, até que um dia se acenderá.

Vejam, mesmo que se sintam, por algum tempo, totalmente sozinhos, não estarão. Enviaremos ajuda, assistência que sentirão como milagrosa, experiências que vocês descreverão como transcendentes. Essas vivências serão como ar que sopra sobre a fagulha e a transforma em chama. Por momentos, horas, ou dias, vocês despertarão para a beleza e alegria que deveriam ser normais. Vocês as reconhecerão sobre a Terra, pois apesar das pessoas e do planeta estarem profundamente feridas, ainda há beleza ali, projetada do passado e do futuro no presente como uma promessa do que é possível, e um lembrete do que é real.

Depois desse vislumbre, a chama pode morrer e se tornar brasa de novo, à medida que as rotinas da vida normal tomarem conta de vocês. Mas depois do despertar, parecerão menos normais, e a história daquele mundo parecerá menos real. E a brasa se iluminará com mais intensidade. Quando muitas brasas fizerem assim, todas se tornarão uma chama juntas, e se sustentarão mutuamente.

Pois lembrem-se de que não estarão lá sozinhos. Quando começarem a despertar para sua missão, encontrarão outros de sua tribo, Vocês os reconhecerão pelo propósito comum, valores e intuições partilhadas, e pela similaridade dos caminhos que trilharam. Quando as condições do planeta Terra forem chegando as crises, seus caminhos se cruzarão mais e mais. O tempo da solidão, o tempo de pensar que estavam loucos terá acabado.

“Encontrarăo pessoas de sua tribo por toda a Terra e as conhecerão através das tecnologias de comunicação à distância usadas naquele planeta. Mas a verdadeira mudança, o mais forte estímulo, virá de encontros presenciais em lugares especiais. Quando muitos de vocês se reunirem, lançarão uma nova etapa da sua jornada, uma jornada que – posso lhes assegurar – termina onde começa agora. Então, a missão que repousava inconsciente dentro de vocês florescerá na consciência. Sua rebelião intuitiva contra o mundo que lhes for apresentado como normal se tornará uma busca explícita para criar um mundo mais bonito.”

Uma mulher disse: “Fale-nos mais sobre o tempo da solidão, para que possamos nos preparar”.

A anciã falou: “No tempo da solidão vocês procurarão se convencer de que não estão loucos. Farão isso contando às pessoas sobre tudo que está errado no mundo, e se sentirão traídos quando elas não prestarem atenção. Talvez tenham necessidade de histórias sobre coisas erradas, atrocidades, e destruição ecológica, pois elas legitimam suas intuições de que um mundo mais bonito existe. Mas depois de receberem a ajuda que enviaremos, e depois do estímulo dos encontros, não mais precisarão disso. Pois saberão com certeza. Sua energia doravante será voltada para criar ativamente esse mundo mais bonito”.

Um dos membros da tribo disse: “Como sabe que isso vai funcionar? Tem certeza de que os poderes de nosso xamā são fortes o suficiente para nos enviar numa tal jornada?”

E a anciã respondeu: “Sei que vai funcionar porque ele já fez o mesmo muitas vezes antes. Muitos foram enviados à Terra para viver vidas humanas e construir as bases da missão que vocês empreenderam agora. Ele tem praticado muito! A diferença é que agora muitos irão ao mesmo tempo. A novidade nesse tempo que viverão é que vocês formarão massa crítica, e uns despertarão os outros para a missão. O calor que gerarão acenderá a mesma fagulha que está escondida em todo ser humano, pois em verdade todos são membros de uma tribo como a nossa. A galáxia inteira e mais além, tudo está convergindo para a Terra, pois nunca um planeta chegou tão fundo na Separação e conseguiu voltar. Aqueles de vocês que decidirem ir serão parte de um novo passo na evolução cósmica”.

Um membro da tribo perguntou: “Existe o perigo de ficarmos perdidos nesse mundo, e nunca despertarmos do transe xamânico? Há perigo de o desespero, o cinismo e a dor da separação serem tão fortes a ponto de extinguir toda centelha de esperança, a fagulha de nosso verdadeiro ser e origem, e de ficarmos separados daqueles que amamos para sempre?”

A anciã respondeu, “Isso é impossível. Quanto mais estiverem perdidos, mais poderosa será a ajuda que enviaremos. Talvez a recebam num tempo de colapso de seu mundo pessoal, a perda de tudo que era importante para vocês. Mais tarde reconhecerão a dádiva ali contida. Jamais os abandonaremos”.

Outro homem disse. “É possível que nossa missão fracasse, e que esse planeta, a Terra, pereça?”

A anciã então ponderou: “Responderei sua pergunta com um paradoxo. É impossível que sua missão fracasse. Sim, seu sucesso depende de suas ações. O destino do mundo está em suas mãos. A chave para o paradoxo está dentro de vocês, no sentimento que trazem, de que cada uma de suas ações, mesmo as lutas mais pessoais e secretas, têm significado cósmico. Saberão então, como sabem agora. que tudo que vocês fazem tem importância”.

Não houve mais perguntas. Os voluntários se reuniram em círculo, o xamă foi até cada um deles. A última coisa de que tiveram consciência fol da fumaça que o xamã soprou no rosto de cada um. Entraram em transe profundo e sonharam que estavam num novo mundo, nesse onde estamos hoje.

Do livro “O mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível” de Charles Eisenstein

Quando viver a Comunicação Não Violenta parece ser extremamente solitário

Quando viver a Comunicação Não Violenta parece ser extremamente solitário

Comunicação Não-Violenta é linda!

Descobrir a mágica que a empatia faz, compreender as necessidades que motivam as pessoas a fazerem o que fazem, aprender a oferecer nossa escuta, nossa presença, aceitar que os sentimentos vêm e vão… Tudo isso transforma nossas vidas e relações profundamente.

Adquirimos clareza sobre julgamentos que nos perseguiram por tantos anos, isso nos liberta daquela visão limitada que tínhamos sobre as pessoas. Conseguimos ver a beleza por trás de tantas coisas que antes eram incompreensíveis!

Chegamos num lugar onde somos capazes de oferecer nossa empatia, nossa presença, nossa energia divina para os outros.

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” – Rumi

É maravilhoso ir para esse campo ao qual Rumi se refere, onde enxergamos o mundo e as pessoas além dos julgamentos sobre eles. Seria maravilhoso ir para esse lugar junto com as pessoas que estão próximas a nós. Mas muitas vezes isso não acontece.

 

E tem momentos que parece ser solitário. E até mesmo desmotivador.

Porque é muito difícil mudar hábitos enraizados em nós, mudar toda uma cultura, SOZINHOS. Sem o apoio das pessoas com quem nos relacionamos. Não julgar, não criticar, não corrigir, não interromper os outros, enquanto estamos rodeados de pessoas nos julgando, nos corrigindo, nos criticando, nos interrompendo.

Aprender Comunicação Não-Violenta, e encarar nossos trabalhos, famílias e comunidades violentas é algo extremamente desafiador. E não estou me referindo apenas à violência física, nem à violência aparente (xingamentos, acusações). Mas àquela intolerância mais sutil. Àquelas situações onde não parece ser aceitável ser quem você é, sentir o que você sente, precisar do que você precisa.

Eu acabei de passar por uma situação dessas, assim como já passei várias vezes. Eu estava carregada emocionalmente, num ambiente que acreditava estar segura. Eu esperava que as pessoas me escutassem como quando eu escuto alguém, de coração.

 

Seria lindo que as pessoas me escutassem como eu gostaria de ser escutada

Como quando eu me vejo surfando na onda da história da outra pessoa, silenciando meus pensamentos (sugestões, críticas, conselhos) para escutá-la, mostrando verbalmente e corporalmente para ela que estou compreendendo, checando com ela se estou compreendendo corretamente, e quando ela está completa, verificando se ela tem algum pedido para mim. Sem concordar, sem discordar. Oferecendo minha presença.

Anna Bolenna Quadrinhos

 

Eu queria tudo isso, mas eu não pedi. Porque “escuta” é algo estranho de se pedir dentro da nossa cultura. (Na nossa cultura é estranho “pedir” – por qualquer coisa que seja). A gente não aprende a pedir escuta. A gente não é ensinado a escutar.

 

Aprendemos a escutar para responder. E não para compreender.

E isso, para as abordagens que estudo, não é escutar.

Somos milhões de pessoas que precisam muito, muito, muito serem compreendidas. Mas também somos milhões de pessoas que não temos espaço dentro de nós para compreender os outros. Poucos de nós temos modelos de pessoas que façam isso na nossa educação, no nosso dia a dia.

A escuta, a compreensão, o acompanhar sentimentos desconfortáveis, acabou se tornando tarefa de profissionais especializados nisso. Mas não há profissionais e consultórios suficientes para atender tamanha demanda.

 

Do que precisamos afinal?

  • De Escuta, de Compreensão, de Clareza

Seria maravilhoso que as pessoas compreendessem que sentimentos desconfortáveis não precisam ser extirpados. Que, antes de conselhos, sugestões, intervenções, queremos apenas que elas nos compreendam. E quando falamos com alguém, encontramos também a rica oportunidade de escutar a nós mesmos, o que faz as coisas ficarem mais claras e compreensíveis para nós.

  • De Apoio, de Suporte, de Segurança, de Reciprocidade

Seria lindo poder contar que essas pessoas irão nos ajudar a identificar nossas intenções, observações, sentimentos, necessidades e pedidos, quando estamos afogados em julgamentos e dor. E essa pessoa também saber pode contar comigo.

  • De Autenticidade, de Vulnerabilidade, de Expressão

E assim, possamos nos sentir livres para nos expressar em nossa totalidade, sem medo, culpa ou vergonha.

  • De Comunidade, de Equilíbrio

E saber que estamos numa relação de benefício mútuo, onde não há sacrifício de nenhuma das partes. Pois todos se apoiam obedecendo seus limites, escutando suas próprias necessidades.

 

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Quais estratégias podemos colocar em ação para atender essas necessidades? Veja algumas sugestões neste post!

 

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Comunicação Não Violenta é uma questão de Intenção

Comunicação Não Violenta é uma questão de Intenção

A intenção da Comunicação Não Violenta é desenvolver uma qualidade de conexão que nos permita compreender e valorizar as necessidades uns dos outros, e então juntos explorar formas de atender as necessidades de todos. Nós mantemos essa intenção de nos conectar de coração para coração – mesmo quando estamos com raiva ou quando “não estamos afim” de nos conectar – através da lembrança de que, neste momento estamos escolhendo viver a partir do valor da Conexão.

Se focarmos apenas em obter resultados específicos, sem a intenção de nos conectar de ser humano para ser humano, coração para coração, então não importa o quão nosso discurso esteja de acordo com o modelo da Comunicação Não Violenta (observações, sentimentos, necessidades e pedidos), nós não estaremos expressando a consciência da CNV.

O modelo CNV consiste de mecanismos que nos ajudam a desenvolver nossa habilidade de nutrir relações compassivas. Como qualquer ferramenta poderosa, a CNV aplicada mecanicamente pode ser usada com a intenção de ferir, manipular ou diminuir outras pessoas. A CNV deve ser utilizada com comprometimento à compaixão – ao ato de valorizar as necessidades do outro tanto quanto as nossas.

Toda palavra e toda ação é uma escolha, por trás dela sempre há uma intenção. Cultive a atenção na intenção por trás das suas escolhas. Antes de abrir a boca para falar, ou de agir, se pergunte: “Qual a minha intenção aqui?”

Quando estamos conscientes da nossa intenção, temos a liberdade de permanecer nela ou de mudá-la.

(Raj Gill, Lucy Leu e Judi Morin – NVC Toolkit for facilitators)

 

Intenção que desconecta
Intenção que conecta
Mudar o outro
Ajudar o outro a atender suas necessidades de forma menos custosa

 

Primeiros passos diante da Raiva

Primeiros passos diante da Raiva

O nosso sistema neurológico determina quem somos e o que fazemos. A maioria de nós não pensa no fato de que nosso cérebro tem muitas partes e funções diversas. É quase como se nosso cérebro tivesse múltiplas personalidades – algumas racionais, algumas irracionais; algumas ponderadas, algumas reativas. O segredo para prosperar é ajudar essas partes a trabalharem juntas, ou seja, integrá-las. A integração pega partes diferentes do cérebro e as ajuda a trabalharem juntas, como um todo.

Para que sejamos capazes de dar o nosso melhor durante uma conversa desafiadora, o nosso estado cerebral deve estar preparado para desempenhar esta função.

Quando nos permitimos agir com as emoções à flor da pele, somos tomados por elas, e perdemos a oportunidade de escolher o melhor comportamento para aquele momento. Perdemos a cabeça, fazemos e falamos coisas que não contribuem para uma solução construtiva.

Precisamos ter o domínio de nós mesmos (autodomínio), o que requer autoconsciência (capacidade de estarmos conscientes de nossos próprios sentimentos e entendê-los) e autorregulação (gestão dos nossos estados interiores), componentes essencias da inteligência emocional.

A autorregulação da emoção e dos impulsos depende grandemente da interação entre o córtex pré frontal e a amígdala.

 

Andar superior do cérebro

O córtex pré frontal é a área neural essencial para a autorregulação. Ela é o “bom patrão” do cérebro, no sentido de nos orientar para o melhor de nós. É o lugar do controle cognitivo, regulando a atenção, a tomada de decisões, a ação voluntária, o raciocínio e a flexibilidade na resposta.

Imagine que seu cérebro é uma casa, com um andar de cima e um de baixo. O cérebro do andar de baixo inclui o tronco cerebral e a região límbica, situadas nas partes mais baixas do cérebro. O andar de cima é feito do córtex cerebral e de suas diversas partes, especialmente o córtex pré frontal médio.

O cérebro do andar de cima é mais evoluído e dá uma perspectiva mais completa do mundo. Você pode imaginá-lo como um gabinete iluminado no segundo andar de um biblioteca repleta de janelas e claraboias que lhe permitem ver tudo com mais clareza. É onde ocorrem os processos mentais mais intrincados como pensar, imaginar e planejar. 

Quando o cérebro do andar de cima está acessível e funcionando bem, conseguimos controlar nossas próprias emoções, pensar nas consequências, refletir antes de agir e levar em consideração como os outros se sentem.

 

Andar inferior do cérebro e o Sequestro da Amígdala

Existe uma parte específica do andar de baixo do cérebro: a amígdala. É ela que nos permite agir antes de pensar. É a parte do cérebro que instrui nosso braço a se esticar para proteger o passageiro quando estamos dirigindo e precisamos frear de repente.

Ela é o radar do cérebro para ameaças. Nosso cérebro foi projetado como uma ferramenta de sobrevivência. Na planta do cérebro a amígdala detém uma posição privilegiada. Se ela detecta uma ameaça, logo aciona formas de lidar com o perigo imediato percebido. Quando este sistema de alarme dispara, o corpo recebe um fluxo de hormônios de estresse, principalmente cortisol e adrenalina, e obtemos a clássica reação lute-corra-ou pare. Num instante a amígdala consegue dominar o resto do cérebro – particularmente o córtex pré frontal – e temos o que é sequestro da amígdala.

O problema disso é que muitas vezes a amígdala comete erros. Embora ela obtenha seus dados no que vemos e ouvimos, ela apenas recebe uma pequena fração dos sinais que esses sentidos recebem. A vasta maioria vai para outras partes do cérebro que demoram mais tempo para analisar as informações mais rigorosamente. A amígdala, em contraste, obtém um retrato rudimentar e reage instantaneamente. Ela frequentemente comete erros, particularmente na vida moderna, em que os “perigos” são simbólicos, não são ameaças físicas. Então reagimos exageradamente de maneira das quais nos arrependemos mais tarde.

O sequestro da amígdala captura a nossa atenção, destinando-a exclusivamente à ‘ameaça’ em curso. Se você estiver no trabalho quando for sequestrado pela amígdala, não vai conseguir se concentrar no que seu trabalho exige – só vai conseguir pensar sobre o que está perturbando. Nossa memória também se esquiva, de maneira que nos lembramos prontamente do que é relevante em relação à ameaça – mas não conseguimos nos lembrar tão bem de outras coisas.

Durante um sequestro, não conseguimos aprender e dependemos de hábitos memorizados repetidamente, de comportamentos repetidos consecutivamente. Durante um sequestro, não conseguimos inovar, nem ser flexíveis.

Como resultado disso, somos incapazes – momentaneamente, ao menos – de controlar o corpo ou as emoções e  de usar todas as habilidades de pensamento de alta ordem, como pensar em consequências, resolver problemas, ou considerar o sentimento dos outros.

 

Sequestro da amígdala crônico

Na atmosfera de grande incerteza que vivemos, há muito medo flutuando livremente no ar. A ansiedade se apodera de nós. Há muita gente operando dia após dia no que vem a constituir um sequestro da amígdala crônico e de baixo nível.

Uma boa forma de ilustrar esse processo é comparar a maneira como humanos e animais reagem diante do perigo. Você deve se lembrar de algum documentário sobre a vida selvagem que assistiu na TV. Onde havia um rebanho de gazelas sendo caçado por um leopardo na savana africana. Aterrorizados, os animais correram feito loucos até que o leopardo capturou um deles ou desistiu da caçada naquele dia. Uma vez passado o perigo, as gazelas voltaram a pastar tranquilamente. Algo no cérebro delas foi acionado quando avistaram o leopardo e depois desativado quando a ameaça se dissipou.

Mas a mente humana é diferente. Quando nossas reações de luta-fuga-ou pare entram em ação, nossa mente começa a percorrer, de forma inconsciente, nossas lembranças em busca de algo que explique por que nos sentimos daquele jeito. Ela desenterra memórias de ocasiões passadas que nos sentimos ameaçados e depois cria cenários do que poderá ocorrer no futuro. O resultado disso é que os sinais de alerta do cérebro são ativados não apenas pelo perigo atual, mas por ameaças passadas e preocupações futuras.

Ao contrário das gazelas, não paramos de correr.

 

O que fazer diante disso?

 

SE APROXIME DA RAIVA

Quando identificamos a raiva como o resultado de algo errado em nós, nossa tendência é reprimí-la, em vez de lidar com ela. Reprimir ou negá-la nos leva a expressá-la de formas perigosas para nós e para os outros.

A raiva não é algo que deve ser suprimida. A raiva é um presente que nos desafia a nos conectar com necessidades não atendidas que desencadearam a nossa reação.

Não diga a si mesmo que “não deveria” pensar daquela maneira. Não diga que é errado sentir raiva. Pois isso só perpetuaria a raiva para si.

 

TOME O TEMPO QUE VOCÊ PRECISA

A melhor escolha a se fazer quando estivermos com raiva, é parar. Muitos caminhos se abrem se dermos tempo para evocar nossas habilidades para lidar com ela.

“Quando uma aflição mental surgir, aja como um pedaço de madeira” Shantideva

No livro Living Non Violent Communication, com edição de 2012 ainda sem tradução para o português, Marshall Rosenberg escreveu sobre as três palavras que ele provavelmente disse mais que qualquer três palavras nos últimos quarenta anos: TAKE YOUR TIME.

A tradução que eu acredito que seria mais fiel é: tome o tempo que você precisa.

Neste livro, ele fala sobre uma figura poderosa que o ajudava a se lembrar de tomar o tempo que ele precisa. Era um amigo de Israel, que perdeu o filho em batalha. Ele escreveu um livro em homenagem ao filho para o ajudar a superar a perda, e na primeira página tinha a foto do filho dele, que usava uma camiseta escrito “Take your time”. Marshall pediu a imagem em tamanho maior para o amigo/autor do livro para o ajudar a se lembrar disso, e explicou o porquê essas três palavras eram tão importantes para ele. E então o amigo disse, uma coisa que ajudaria mais ainda. Quando o filho dele morreu, ele foi ao escritório do comandante e perguntou “Porque você mandou o meu filho? Você não percebeu que qualquer pessoa que você mandasse para essa missão, seria pra ser morto?” E o comandante falou: “We didn’t take our time.” Ou seja, nós não tiramos o tempo que precisávamos.

Por isso que ele disse o quanto era importante para ele ser capaz de diminuir o ritmo, tomar o tempo que precisa, para partir de uma energia que ele escolha partir, a partir da energia que ele acredita ser a energia que fomos feitos para partir, e não a energia que foi programada em nós.

Este amigo de Marshall escreveu um poema do qual primeira frase era “Take your time, it’s yours you know. ” Que traduzindo, seria, tome o tempo que você precisa, ele é seu afinal.

No momento da raiva, diminua o ritmo e assista os julgamentos que se passam na sua cabeça, como se estivesse assistindo um filme. Apenas perceba.

Lembre-se que, fazendo isso, não estamos negando o desejo natural do cérebro de solucionar problemas. Estamos simplesmente nos dando um tempo para escolher a melhor forma de resolvê-los.

 

VOCÊ NÃO É SEUS PENSAMENTOS

Veja os pensamentos como eventos mentais, em vez de vê-los como reais. Em vez de se definir como aquilo que você está sentindo.

Os pensamentos não passam de pensamentos. São eventos criados pela mente. Costumam ser valiosos para tomar nossas decisões, mas eles não são “você” ou a “realidade”. São uma narração interna sobre você e seu mundo.

A pura consciência transcende o pensamento. Permite que você cale a mente tagarela e iniba seus impulsos e emoções reativas. Possibilita que você olhe para o mundo com os olhos abertos.

“As nuvens sempre passam. Podem ser nuvens claras ou escuras, mas sempre passam. Talvez tenha que chover uma tempestade, mas ela também passa. Compreenda que você não é a nuvem, você é o céu.”

Sri Prem Baba

 

PERCEBA SEU CORPO

Tome consciência das coisas que acontecem com o seu corpo quanto você está com raiva. Os batimentos cardíacos aumentam, o sangue flui para as mãos e as aquecem, a respiração se torna mais intensa, você transpira mais? Dá uma pontada no estômago? Ombros enrijecidos? Dentes cerrados? Punhos fechados?

Se você puder perceber sensações familiares de que um sequestro da amígdala está começando. Quanto mais no início do ciclo do sequestro você estiver, mais fácil será interromper o processo.

 

Cérebro integrado

Depois que você se perceber que não é mais refém de um sequestro da amígdala, e consegue acessar o andar de cima do seu cérebro, existem muitas possibilidades de interagir com as pessoas a partir de uma energia que você escolheu partir. O diálogo é uma delas.

 

Bibliografia:

GOLEMAN, Daniel. O Cérebro e a Inteligência Emocional – Novas Perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

ROSENBERG, Marshall. Living Nonviolent Communication – Practical Tools to Connect and Communicate Skillfully in Every Situation. Bouder: Sounds True, 2012.

ROSENBERG, Marshall. Comunicação Não-Violenta – Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Editora Ágora, 2006.

SIEGEL, Daniel. O Cérebro da Criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. São Paulo: nVersos, 2015.

WILLIAMS, Mark; PENMAN, Danny. Atenção Plena: Mindfulness. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

As nove necessidades humanas básicas

As nove necessidades humanas básicas

Toda crítica, toda atribuição de culpa, toda reclamação, é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida.

Podemos ser muito mais verdadeiros se dissermos qual a nossa necessidade, sem nenhuma palavra que implique culpa ou crítica. Mas isso não é fácil porque as pessoas geralmente não têm essa linguagem de necessidades.

Nós sugerimos que cada um tenha um vocabulário de pelo menos nove necessidades humanas. Eu escolhi o número 9 após ter lido uma pesquisa feita pelo economista Manfred Max-Neef, do Chile. Todo seu sistema de economia é baseado em necessidades humanas. Manfred Max-Neef e seus colegas avaliaram o sucesso de uma economia de uma forma radicalmente diferente da que fazemos nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, o sucesso de uma economia depende do PIB (produto interno bruto), que essencialmente nos diz quanto dinheiro é feito em determinadas áreas. Esse modo de sistema considera sucesso quando os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres.

Na abordagem de Manfred Max-Neef a medida do sucesso econômico é baseada no quanto as necessidades humanas estão sendo atendidas por todas as partes da cultura. Assim, como todo o seu sistema de economia é baseado em necessidades humanas, eles tiveram que pesquisar quais são as necessidades humanas básicas que precisam ser atendidas se quisermos ter um mundo seguro, saudável e pacífico. Eles chegaram ao total de 9 necessidades essenciais. O sucesso de um sistema econômico desse tipo é medido pelo quão bem essas necessidades estão sendo atendidas por todos na população.

Essa pesquisa realmente me ajudou, pois eu tinha uma lista de cerca de 150 palavras que me ajudavam a desenvolver meu vocabulário de necessidades. Mas eu percebi que algumas dessas palavras falavam a mesma coisa de maneira diferente e que poderiam ser consideradas uma só necessidade. Então talvez nós possamos sintetizar as necessidades humanas essenciais em nove principais. As quais precisamos ser realmente capazes de expressar para as outras pessoas. Então deixe-me dizer quais são essas nove necessidades que o Manfred Max-Neef utilizou, mas eu vou usar mais a minha linguagem do que a dele:

 

  1. Sustento (Necessidades físicas básicas)
  2. Segurança (Proteção)
  3. Amor
  4. Empatia (Ser escutado)
  5. Descontração
  6. Comunidade (Integração social)
  7. Criatividade
  8. Autonomia (Escolher nosso próprio modo de viver, nosso próprio caminho)
  9. Sentido (Contribuir para a vida. Ver como nossos esforços fizeram a vida das pessoas mais prósperas)

 

Pegue essas nove necessidades, e adapte-a para o seu próprio vocabulário. Não precisa ser essas palavras que foram mencionadas. Procure palavras que façam sentido para você. Em seguida, quando você desenvolver um vocabulário de necessidades que funcione para você, você verá que nem sempre ele funcionará para outras pessoas com quem você está se comunicando.

Por exemplo, se você tem uma criança de três anos na sua casa, a palavra “autonomia” pode não fazer sentido para ela. Mesmo que você saiba o que ela significa, e que ela faça sentido para você. Mas a criança de 3 anos, pode não conhecer a palavra autonomia. Porém ela tem a necessidade de autonomia.

Porque todos os seres humanos têm as mesmas necessidades. Mesmo que nossos vocabulários para descrever essas necessidades sejam diferentes, todos nós temos as mesmas necessidades.

Para nos conectarmos realmente de modo a promover compaixão entre nós e as pessoas, precisamos ser capazes de expressar nossas necessidades em uma linguagem que faça sentido para elas.

Então pegue, por exemplo, essa lista de nove necessidades que fazem sentido para você, e tente adaptá-las para fazer sentido para a uma criança de três anos de idade, por exemplo. E se você tiver que lidar com um grupo de jovens adolescentes, pense em como você poderia expressar essas necessidades, de modo que faça sentido para eles. Se estiver trabalhando em uma escola com professores, traduza essas necessidades para uma linguagem que eles possam compreender. E assim por diante.

Em outras palavras, se realmente queremos nos conectar com seres humanos, de uma forma que nos permita apreciarmos uns aos outros, desfrutar e contribuir para o bem estar uns dos outros, temos que ser muito alfabetizados na linguagem das necessidades.

 

Fonte: Fala de Marshall Rosenberg | https://www.youtube.com/watch?v=ZPCjezkAgWI&t=1353s

 

Indicações de livros

Indicações de livros

Muita gente me pede indicações de livros para iniciar a jornada de construir relacionamentos melhores com os outros e consigo mesmo. Por isso fiz este post com uma relação dos livros que indico sobre o assunto. Esta lista está sendo constantemente alimentada, algo que está em constante construção.

Boa leitura!

 

Sobre Comunicação Não-Violenta

  • Comunicação Não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais – por Marshall B. Rosenberg
  • A linguagem da paz num mundo de conflitos – por Marshall B. Rosenberg
  • Vivendo a comunicação não violenta – por Marshall B. Rosenberg
  • Deixe de Ser Bonzinho e Seja Verdadeiro – por Thomas D’Ansembourg
  • Não Seja Bonzinho, Seja Real – por Kelly Bryson

 

Sobre conexão consigo mesm@

  • Comunicação Não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais – por Marshall B. Rosenberg
  • Autocompaixão: Pare de se torturar e deixe a insegurança pra trás – por Kristin Neff
  • A arte da imperfeição – por Brené Brown
  • A coragem de ser imperfeito: Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é – por Brené Brown

 

Sobre criação de filhos de forma não violenta

  • Comunicação Não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais – por Marshall Rosenberg
  • A Autoestima do Seu Filho – por Dorothy Corkille Briggs
  • Disciplina positiva: O guia clássico para pais e professores que desejam ajudar as crianças a desenvolver autodisciplina, responsabilidade, cooperação e habilidades para resolver problemas – por Jane Nelsen
  • Disciplina positiva para crianças de 0 a 3 anos: como criar filhos confiantes e capazes – por Jane Nelsen
  • O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar – por Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson
  • Cérebro adolescente: O grande potencial, a coragem e a criatividade da mente dos 12 aos 24 anos – por Daniel J. Siege
  • Educação não violenta – por Elisama Santos
  • Criar filhos compassivamente – por Marshall Rosenberg

 

Para apoiar no relacionamento com as crianças

  • Emocionário: Diga o que você sente – por Cristina Núñez Pereira,‎ Rafael R. Valcárcel
  • Ciranda do Ser – Comunicação Não-Violenta para Crianças – por Cristina Lobato
  • É Conversando que a Gente Se Entende – por Julia Luz
  • A linguagem da Girafa – Jean Morrison

 

Sobre Transformação de conflitos e Justiça Restaurativa

  • Transformação de conflitos – por John Paul Lederach
  • Mudando o tom da conversa: 17 princípios para resolver conflitos – por Dana Caspersen
  • Justiça restaurativa – por Howard Zehr
  • Trocando as lentes: justiça restaurativa para o nosso tempo – por Howard Zehr
  • Processos circulares de construção de paz – por Kay Pranis
  • Justiça Restaurativa na educação: Promover responsabilidades, cura e esperança nas escolas – Katherine Evans e Dorothy Vaandering

 

Sobre Sistemas de Dominação x Sistemas de Parceria

  • O cálice e a espada – por Riane Eisler
  • Amar e brincar – por Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller

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