Amor incondicional

Amor incondicional

(Tradução livre – Living Non Violent Communication, de Marshall Rosenberg).

Há alguns anos atrás, meu filho Brett tinha 3 anos de idade. Eu me questionava se estava comunicando um amor incondicional para os meus filhos. Ele apareceu no momento que eu pensava sobre o assunto, e eu perguntei:

“Brett, porque você acha que o papai te ama?”

Ele olhou para mim imediatamente e disse:

“Porque agora eu faço cocô no banheiro?”.

Eu me senti muito triste naquele momento. Porque era muito claro. Como ele poderia pensar diferente? Com aquela evidente diferença na forma que eu respondia aos meus filhos quando eles faziam o que eu queria que fizessem, comparado a quando eles não faziam o que eu queria.

Então eu disse a ele:

“Eu realmente gosto muito quando você faz cocô no lugar certo, mas não é por isso que eu te amo.”

E ele disse:

“Então é porque eu não jogo minha comida mais no chão!”

Ele estava se referindo a um pequeno desentendimento que tivemos na noite anterior quando ele jogava comida no chão. E eu disse:

“De novo, eu gosto muito quando você mantém a comida no prato, mas não é por isso que eu te amo.”

Então ele ficou muito sério, olhou para mim e disse:

“Porque você me ama, papai?”

E eu me peguei pensando:

“Por que é que eu entrei numa conversa abstrata sobre amor incondicional com uma criança de 3 anos de idade? Como eu expresso isso alguém dessa idade?”. E eu soltei essa resposta:

“Eu apenas amo você porque você é quem você é”.

Naquela época o pensamento imediato que eu tive foi:

“Isso foi um tanto banal e vago.”

Mas ele entendeu. Ele pegou a mensagem. Eu simplesmente vi no rosto dele. Ele ficou radiante, olhou para mim e disse:

“Você me ama só porque eu sou quem eu sou, papai. Você me ama só porque eu sou quem eu sou.”.

Nos outros dois dias, parecia que a cada dez minutos ele corria para mim e pulava do meu lado olhando e dizendo:

“Você me ama só porque eu sou quem eu sou, papai. Você me ama só porque eu sou quem eu sou”.

Para comunicar essa qualidade de amor incondicional, respeito e aceitação a outra pessoa, não significa que nós temos que gostar do que elas estão fazendo. Não significa que temos que ser permissivos e abrir mão das nossas necessidades e valores.

O que isso requer é que mostremos às pessoas a mesma qualidade de respeito quando elas não fazem o que pedimos para elas fazerem.

Depois que mostramos um respeito de qualidade através da empatia, dedicando o tempo necessário para entender porque elas não fizeram o que gostaríamos, nós podemos então pensar em como podemos influenciá-las a fazer de bom grado o que estamos pedindo.

Em alguns casos, quando as pessoas estão se comportando de uma forma que ameaça nossas necessidades e nossa segurança, e não há tempo ou habilidade de se comunicar sobre isso, nós podemos usar a força.

Mas amor incondicional requer que, não importa como as pessoas se comportem, elas possam confiar que serão compreendidas.

Não dá para estar consciente o tempo todo

Não dá para estar consciente o tempo todo

Faz um tempo que li essa frase num momento despretensioso enquanto corria as fotos no instagram: “eu não erro, eu aprendo”.
Ela reverbera dentro de mim sempre que eu dou meus vacilos.
Hoje eu dei um.
Estávamos eu, a Emi (minha filha de 1 ano) e minha sobrinha Julia (6 anos) no quarto onde eu colocaria a bebê para dormir. A Julia continuou assistindo o desenho no meu celular, enquanto eu pedia para ela – pela terceira vez – para me devolver o aparelho e ir para a sala, pois eu precisava colocar a Emi para dormir.
No fim eu tomei o celular da mão dela e disse “estou muito triste com você”. Ela saiu e foi para a sala.
Eu consegui o que eu queria naquele momento. Ela saiu do quarto, eu tinha de volta meu celular em mãos, e a bebê começou a se acalmar.

Mas me senti um pouquinho mais distante da Julia. E acredito que é de pouquinho em pouquinho que vamos construindo uma relação respeitosa. Por isso não fiquei em paz comigo mesma.
Estudo Disciplina Positiva e Comunicação Não-Violenta, faço cursos, leio livros, pratico e participo de comunidades. Mas fui totalmente contra tudo que aprendo e acredito.
Na minha fala só me referi a ela, e ao que ela deveria fazer. Não falei sobre nada que estava vivo em mim. Além disso, condicionei minha apreciação por ela apenas aos momentos em que ela me obedece.
Não me passou pela cabeça falar, antes de mais nada, que eu estava muito cansada do dia e impaciente porque a bebê estava chorando há quase uma hora. Não dei nenhuma opção para ela poder escolher e perceber que tem autonomia. Não combinei um tempo para que pudéssemos fazer um acordo, um combinado.

Dizer que eu estava triste com ela foi uma forma de fazê-la sofrer pelo que ela fez. Fazê-la se sentir culpada, envergonhada. Usei o modo educativo que está nas minhas raízes, o que se baseia na punição.

Aquele que tenta em vão fazer a pessoa dar o seu melhor fazendo-a se sentir mal.

Fiquei pensando tudo isso enquanto eu fazia a bebê dormir.
Depois que a Emi finalmente dormiu, saí do quarto aliviada e encontrei a Julia na cozinha. Ela se divertindo e conversando comigo como se nada tivesse acontecido.

Mesmo sabendo da possibilidade de que o ocorrido não foi significativo para ela, eu não ia ficar em paz se eu não dissesse nada.

Eu falei: “Julia, você me desculpa pelo que eu disse?”. Ela respondeu feliz “Sim”. E eu aproveitei para dizer um pouquinho do que estava vivo em mim: “Eu estava muito cansada e impaciente”. Ela falou “Tudo bem”, com os olhos sorrindo.

E continuou explicando a brincadeira maluquinha que ela estava fazendo.

Eu acredito que se o esforço de se comunicar de forma consciente, não violenta, humana, vale a pena mesmo que as coisas não saiam do jeitinho que esperávamos.

Tudo que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito de forma imperfeita.
Marshall Rosenberg

Nos alimentar de forma saudável, praticar exercícios físicos, cuidar da nossa casa…

Tudo isso vale a pena ser feito mesmo que só quando a gente consegue. Sempre será bom para nós, mesmo que não seja do jeito como o mundo diz que deveria ser.

Cultivar a conexão com as pessoas que amamos também vale a pena. Mesmo que dessa forma meio torta.