Texto escrito para o Instituto Signativo, organização que visa contribuir para uma educação que valoriza a autonomia, para que as pessoas se tornem protagonistas em um processo que estimula nossos jovens atingirem o máximo do seu potencial. Conheça a Pós Graduação em Inteligência Socioemocional na Educação do Instituto Signativo!

 

Prezada educadora ou educador,

Penso que a comunicação não violenta é um caminho para o resgate da humanidade que mora dentro de nós. O que você encontrará aqui são apenas lembretes daquilo que já sabemos, mas que os desafios da vida cotidiana acabam nos desconectando.

Já de antemão, expresso minha admiração por você que abraça a corajosa missão de educar e de apoiar quem educa.

 

Complexidade das relações

Numa escola existem vários tipos de relacionamentos acontecendo de forma simultânea sob os olhos de um educador. Segue alguns deles:

– Educador consigo mesmo
– Educador com o aluno
– Aluno com outros alunos
– Aluno com ele mesmo
– Aluno com seu processo de aprendizagem

Isso sem citar as diversas relações que os educadores têm com outros integrantes da comunidade escolar (corpo docente, administração, mães, pais, funcionários).

Aqui trataremos das relações educador consigo mesmo e educador com o aluno.

Te convido a olhar com lentes de aumento da comunicação não violenta e conferir sugestões de como ela pode ajudar as educadoras e educadores a construírem conexão com suas alunas e alunos.

 

Educador consigo mesmo

 

Conecte-se à uma fonte de energia: suas necessidades humanas.

Ser educador ou educadora trata-se de uma missão desafiadora repleta de percalços. É preciso muita energia para se colocar na liderança de uma turma de alunos.

Uma fonte de energia sustentável é ter a consciência das necessidades humanas que te motivam a fazer o que você faz.

Por trás de toda ação, por trás de toda palavra dita, existem necessidades tentando ser atendidas. Uma das minhas aqui escrevendo esse texto, é a minha necessidade de contribuir com você e com seus alunos.

Quais necessidades te motivam a ler esse texto? A necessidade de aprender, de descobrir novos conhecimentos? De encontrar apoio para executar o seu trabalho da melhor forma possível?

E quais necessidades você tenta atender quando diz para os alunos algo assim:”Vocês não merecem atividade ao ar livre hoje!” Seria uma tentativa de atender as necessidades de colaboração, de respeito, de consideração?

Acesse uma lista com palavras sugestivas de necessidades humanas universais.

 

Seja a primeira pessoa a saber como você se sente

Os nossos sentimentos são mensageiros das nossas necessidades. Sentimentos desconfortáveis vêm para avisar que temos necessidades não atendidas, como quando a luz do combustível no painel do carro acende.

Já os sentimentos confortáveis vêm para nos ajudar a enxergar as nossas necessidades que estão sendo atendidas.

Portanto, não vemos os sentimentos como “positivos” ou “negativos”. Todos eles são bem-vindos e carregam mensagens importantes.

O problema é que, quando suprimimos ou não percebemos nossos sentimentos desconfortáveis e nossas necessidades não atendidas, é impossível atendê-las efetivamente.

“Toda violência é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida.” Marshall Rosenberg

A inconsciência das nossas necessidades não atendidas é o que nos leva a acabar cometendo uma violência não intencional.

Por exemplo, se uma educadora age ou fala de forma agressiva quando dois alunos estão conversando durante a sua aula, é muito difícil que eles sejam capazes de enxergar que a educadora pode estar se sentindo exausta (sentimento) e precisando de apoio (necessidade). A tendência é que eles acabem fazendo julgamentos sobre ela (contra-ataque) ou sobre eles mesmos (reduzindo sua autoestima).

Por isso, seja a primeira pessoa a saber como você está se sentindo.

Crie momentos de pausa ao longo do seu dia e faça uma checagem do sentimento presente em você naquele exato momento. Dê nome àquele sentimento. E estão, escute a mensagem que ele traz.

Nós não podemos controlar os nossos sentimentos, mas podemos escolher as nossas ações.

 

Educador com o aluno

 

Cheque suas intenções primárias

Ao se ver num conflito com um aluno, faça uma checagem interna: você está jogando o jogo do “quem tem razão” ou o jogo do “vamos melhorar nossas vidas”?

Quando alguém te desobedece, você entra no jogo de “mostrar quem manda aqui” ou no jogo “precisamos nos entender”?

Por mais que o objetivo de todo educador seja que seus alunos aprendam, os nossos egos também se envolvem nos conflitos e, com frequência, precisamos lembrá-los que eles podem se acalmar.

O que é mais importante obter primeiro: conexão e uma relação de confiança com o aluno ou ter as atividades realizadas da forma como você quer?

Não é preciso escolher conexão, em detrimento do aprendizado. Nem vice-versa. Conexão é condição para o aprendizado. E conexão acontece quando as necessidades de todas as pessoas são igualmente valorizadas.

 

Como você vê as alunas e alunos?

Todas e todos nós sabemos os riscos de limitar um aluno a um rótulo. Apesar disso, os nossos pensamentos nos levam, com frequência, a esse caminho de reduzir as pessoas à rótulos.

Ao tomar consciência desse hábito reducionista, precisamos fazer o esforço consciente de ampliação e traduzir os rótulos que fazemos sobre os outros em:

  • comportamentos observáveis;
  • sentimentos presentes;
  • necessidades tentando ser atendidas;
  • pedidos implícitos.

Por exemplo: um aluno que tendemos a pensar que é “preguiçoso”.

Qual foi o comportamento observável que te fez o rotular de “preguiçoso”?
Ex: Ele colocou seu caderno sobre a minha mesa com as lições em branco, sem dizer nada.

Como ele pode estar se sentindo?
Ex: Ele pode estar se sentindo triste, desmotivado.

Quais podem ser as necessidades dele que não estão sendo atendidas?
Ex: Diversão e movimento.

Quais podem ser os pedidos implícitos desse aluno?
Ex: Atividades que envolvam o corpo.

As possibilidades são tão infinitas quanto a complexidade humana. Mas se partirmos do rótulo, será muito mais difícil você se abrir para todas essas possibilidades e se conectar com o aluno.

Pode ser que ele esteja tendo o sono interrompido por conta da irmã mais nova que chora de madrugada e só precisa de noites de sono reparador. Pode ser que ele esteja envergonhado porque não se sente pertencente à turma, pois não consegue acompanhar a compreensão dos seus colegas.

Para descobrir os sentimentos e necessidades dos seus alunos, é preciso escutar o que eles têm a dizer. Escutar para além das palavras que eles dizem.

 

Antes de chegar a uma conclusão, escute. E demonstre que está escutando.

Escutar costuma ser uma prática desafiadora para quem está na posição de ensinar, de transmitir conhecimento, de motivar e inspirar.

Segue algumas sugestões para afinar a escuta das suas alunas e alunos:

Perceber por quanto tempo você fala, e quanto tempo passa escutando;

Não reduzir o que os alunos dizem à questões menos importantes do que os conteúdos que você precisa trabalhar;

Procrastinar a solução de um problema e escutar o ponto de vista das pessoas envolvidas nele antes de resolvê-lo;

Desenvolver as conversas trazendo mais perguntas do que respostas;

Escutar o que não é dito: sentimentos, necessidades, pedidos;

Checar se suas hipóteses de sentimentos, necessidades e pedidos fazem sentido para o aluno;

Partir do princípio que o que compreendemos não, necessariamente, é o que ele quis dizer. Parafrasear o que o aluno disse e checar sua compreensão.

 

Espero que essas sugestões sirvam como plataforma para impulsionar a conexão entre você e seus alunos, e aproximem a todos de terem suas necessidades mutuamente atendidas.

 

Juliana Matsuoka
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