Um dos propósitos da Comunicação Não Violenta é possibilitar o diálogo construtivo em situações onde existem ideias contrárias. Para que possamos cultivar o convívio e a colaboração, em vez da dominação e da competição.

Comunicação Não Violenta é apenas uma das abordagens dentro de tantas outras que possibilitam a transformação de conflitos. É uma das possibilidades de como responder ao conflito, dentro do princípio da Não Violência.

Ou seja, ela não é a única possibilidade.

 

Aprender Comunicação Não Violenta é uma estratégia

O objetivo da Comunicação Não Violenta é gerar conexão humana, e compreensão compartilhada. Mas todos nós sabemos que existem muitas outras formas de gerar conexão humana e compreensão compartilhada.

Quando penso que Comunicação Não-Violenta é a única forma de alcançar esses objetivos, posso acabar sendo bem violenta com os outros.

Posso acabar impondo ou exigindo que as pessoas aprendam CNV. E quem aprendeu CNV sabe que diante de uma exigência, as pessoas se veem presas a essas duas alternativas: se submeter por medo, ou se rebelar. Ou seja, quando imponho que a outra pessoa deveria aprender CNV, acabo caminhando na direção contrária dos principais objetivos dela.

Pensar que CNV é o único caminho pode ser bem frustrante. Quem lida com conflitos mais complexos sabe que existem realidades onde apenas as práticas da CNV podem não dar conta de interromper um ciclo de violência. É preciso uma combinação de estratégias da não violência para lidar com conflitos mais escalados.

Acreditar que nós sabemos algo de maneira conclusiva serve apenas para bloquear nossa habilidade de discernir e responder à vida de forma inteligente. 

Elisabeth Mattis Namgyel

Quando aprendemos algo que transforma nossas vidas, é uma tendência nossa desejar que todas as pessoas também aprendam. Queremos fazer parte de uma comunidade, encontrar reciprocidade, sentir pertencimento.

Mas lembre-se que aprender Comunicação Não Violenta é sim um caminho poderoso para gerar mais conexão humana. Entretanto não deixa de ser uma estratégia escolhida por você para fortalecer seus relacionamentos. Sim, seria lindo se as pessoas com quem você convive também fizessem a mesma escolha. Mas felizmente, elas são livres, assim como você.

Não há forma melhor de incentivar as pessoas a aprenderem Comunicação Não Violenta mostrando a elas que você respeita as escolhas dela.

 

Responsabilidade de saber

Aprender que, por trás de todas as nossas ações e escolhas, estamos tentando atender alguma necessidade, é um grande privilégio. E não é possível desaprender isso. Mas com os privilégios, vêm as responsabilidades. Na relação com pessoas que não veem o mundo dessa perspectiva, temos a enorme responsabilidade de sermos os únicos que têm o poder de escolher escutar necessidades, ou de escolher escutar culpabilização.

É como aprender um novo idioma que poucas pessoas sabem. Enquanto você ainda não entende essa linguagem, acaba não tendo o privilégio de compreender o que está sendo dito. Mas quando você aprender, é responsabilidade sua escolher o que irá fazer com o que compreendeu. E não tem como escolher o que você irá compreender, e o que não vai.

Se você aprendeu com a CNV que você pode vestir suas orelhas de girafa, ou suas orelhas de chachal, essa escolha é sua responsabilidade. E não das pessoas com quem você se relaciona.

Por exemplo, no momento que você se vê preso ao pensamento de que as pessoas que “não sabem CNV” têm um algum problema, esta é uma rica oportunidade de se conectar às suas necessidades por trás desse julgamento. Você gostaria de ter mais apoio nesse desafio que é praticar a CNV? Você quer contribuir com algo que você imagina que possa ajudar essas pessoas?

Lembre-se que na prática da CNV não queremos mudar as pessoas, mas sim construir relações onde elas confiem em nós, e a partir disso, encontrar estratégias que atendam às necessidades de todos(as).

Juliana Matsuoka
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