Se você tem dificuldades para dizer que discorda de alguém, que tal visitar algumas crenças sobre a discórdia?

Quais histórias você se conta sobre a diferença de pensamentos entre pessoas e sobre o discordar? Quais discursos sobre isso você escuta desde que se conhece por gente?

Será algo como estes exemplos?

  • Para que possamos viver bem, precisamos estar sempre em consenso.
  • Discordar de uma pessoa desgasta a relação.
  • Quem discorda de mim é meu inimigo.
  • É ruim as pessoas pensarem de formas diferentes.
  • É impossível conviver com pessoas que pensam diferente de mim.
  • Precisamos prevenir e evitar qualquer discórdia.

Talvez algumas partes de nós ainda acreditem nessas vozes. Mas ainda estamos em tempos de ampliar a forma de pensar sobre a discórdia para algo parecido com isto:

  • Onde há pessoas conscientes e honestas, geralmente haverá opiniões contrárias.
  • Pensamentos contrários são pontos de partida para conversas que conectam pessoas.
  • Eu aprendo e evoluo minhas ideias com quem discorda de mim.
  • O fato de pensarmos de formas diferentes possibilita a criação de novas possibilidades.
  • A liberdade para discordar é um princípio fundamental da democracia.
  • Precisamos criar ambientes seguros para que possamos conversar sobre nossas discórdias.

“Posso não concordar com uma palavra que você disse, mas defendo até a morte o teu direito de dizê-las.” Evelyn Beatrice Hall

Aqui você encontrará algumas sugestões de como discordar de alguém preservando o respeito mútuo e possibilitando a construção de novas realidades.

Não se trata de uma receita de bolo com passos determinados que te levarão a resultados garantidos. Mas sim um compilado de ações e reflexões que podem fazer sentido em algumas ocasiões e em outras não.

Vários fatores podem influenciar nisso: se a conversa é com alguém com quem você já tem uma conexão, se é com pessoas com quem já existe um clima de desconfiança, ou se é com alguém que você está conhecendo pela primeira vez; se a conversa está acontecendo cara a cara, via mensagem ou via comentários nas redes sociais; se há tempo disponível para a conversa ou o tempo é restrito; se o assunto em questão irá gerar impacto imediato em sua vida ou não.

Mas previamente às sugestões, é importante colocar alguns lembretes:

Antes de discordar, avalie se você está disposta a entrar num diálogo que pode levar tempo e pode te tirar da zona de conforto. Avalie também se existe abertura da outra pessoa, pois, mesmo que você expresse suas ideias da forma mais respeitosa possível, você não pode controlar como ela irá recebê-las.

Abandone a intenção primária de fazer a outra pessoa mudar de ideia numa única conversa. Imediatismo não costuma resultar em transformações sustentáveis. Calibre seus parâmetros do que é considerada uma boa conversa. Deixe um pouco de lado o pensamento de que “ficarei satisfeita quando ele mudar de ideia” para “ficarei satisfeita se novas reflexões, aprendizados, significados ou ideias surgirem”.

 

1) Antes de discordar, escute. Depois que escutar, escute mais.

Na tentativa de entender o mundo, temos uma tendência natural de reduzir os fenômenos à forma como é estruturada a nossa mente, ou seja, à nossa capacidade de entendimento. 

Daí a necessidade de um segundo passo após a redução: a reampliação. Entretanto, nem sempre é fácil voltar a ampliar depois da redução inicial. Nossa tendência a eliminar é mais forte que a necessidade de integrar. Ouvir até o fim, sem concordar nem discordar, tornou-se extremamente difícil para todos nós. Não sabemos ficar — mesmo de modo temporário — entre o conhecido e o desconhecido. Confundimos o desconhecido com o nada e por isso o tememos. A frase do escritor americano William Faulkner, “entre a dor e o nada eu prefiro a dor”, traduz nosso apego a esse tipo de repetição.

Portanto, num diálogo, questione o seu primeiro impulso de discordar.

Escute o que a outra pessoa tem a dizer, até que ela conclua suas ideias.

Leia a notícia inteira, e não apenas a manchete.

Leia a legenda inteira de um post, e também os comentários e as respostas a eles, quiçá, os posts anteriores.

Assista ao vídeo inteiro, e não apenas os primeiros segundos, quiçá outros vídeos da mesma autora ou autor.

Em todas as ocasiões, escute buscando possibilidades em vez de certezas.

Quando, nas primeiras palavras que a outra pessoa disser, vier o pensamento “Eu discordo!”, diga para si mesma “Peraí, deixa eu entender melhor…”.

 

2) Quando você achar que entendeu, cheque se entendeu corretamente.

“Entre o que eu penso, o que quero dizer, o que digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um abismo.” Alejandro Jodorowsky

Em qualquer meio de comunicação – especialmente nos virtuais – as falhas de comunicação existem, e não são exceção, são a regra. Quando pensamos que estamos nos comunicando com perfeição, estamos, na verdade, iludidos.

Parta do princípio de que são enormes as chances de você ter compreendido algo incompatível com o que o emissor quis transmitir. E não há nada mais natural do que isso.

Faça perguntas para checar a sua compreensão. Dê espaço para esclarecimentos, reformulações, e até mesmo, mudanças de ideia.

Habitue-se, antes de colocar as suas verdades, a dizer: “Deixa eu ver se eu entendi o que você quis dizer. Você disse que … É isso?”

 

3) Comece pelo que vocês têm em comum

Não caia na tentação imediata de encontrar o que está errado, incompleto ou defeituoso nas afirmações da outra pessoa. Não coloque toda a sua energia em identificar as falhas, expô-las e desmontar a argumentação dela.

O diálogo é um processo de comunicação único pois focaliza a atenção dos participantes no ato de escutar para compreender. Ele funciona melhor quando os participantes procuram escutar o que está certo, é verdadeiro é válido naquilo que os outros falam. Os que escutam buscam as ideias com as quais conseguem concordar, potencialmente combinando estas com suas próprias ideias a fim de construir uma verdade maior do que qualquer dos lados teria sozinho. Lisa Schirch e David Campt

Mesmo pessoas que estão em posições opostas podem ter interesses comuns, ou, ao menos, interesses mutuamente compreensíveis.

Aprofunde-se na busca pela humanidade compartilhada que existe entre vocês. Todas nós temos necessidades em comum. Todas nós queremos ser respeitadas, viver em segurança e que nossas crianças sejam felizes, mesmo quando discordamos das estratégias para alcançar tudo isso.

“Quando compreendemos as necessidades que motivam nosso comportamento e o comportamento dos outros, nós não temos inimigos.” Marshall Rosenberg

É possível ter um bom debate (disputa de argumentos) quando ele está inserido num contexto onde haja diálogo (disposição para pensar juntos).

Talvez isso se expresse em falas como estas:

“Me parece que queremos as mesmas coisas. Concordamos que… Neste aspecto aqui pensamos diferente…”

“Concordo com você sobre… Sobre estes pontos aqui talvez discordemos.”

 

4) Faça com humildade

A sua opinião não é a verdade em si. O que um grupo de pessoas considera “verdadeiro” é a construção de uma verdade consensual.

O seu ponto de vista é mais uma vista de um ponto. 

Você sempre pode estar enganada – e está tudo bem se enganar. Se isso acontecer, a queda é menor quando nos expressamos com humildade.

Coloque-se. Posicione-se. E tenha educação. Peça licença. Cuide das palavras e do tom de voz, não seja irônica ou sarcástica. Evite falar no imperativo (como estou fazendo aqui rs).

 

5) Queira convidar, e não lacrar

Faça da sua fala um convite para que a outra pessoa queira seguir junto com você numa conversa construtiva. 

Não coloque um ponto final na conversa onde você ganha um troféu por ter derrotado o argumento da outra pessoa.

Expresse o seu interesse em saber como a outra pessoa se sente após te escutar ou o que ela pensa sobre aquilo que você estava dizendo, por exemplo: “Eu vejo a situação de uma forma diferente. Penso que… O que você acha?”

 

6) Fale em primeira pessoa

Mesmo que seja verdade, apontar dedos é contraproducente. Comece a sua fala com críticas ou acusações e prepare-se para o contra-ataque.

Falar de nós, em vez de falar sobre o problema que identificamos no outro, nos previne da nossa pressa em julgar, nos aproxima da nossa vulnerabilidade e autenticidade e abre espaço para uma comunicação que conecta pessoas. 

Fale sobre como você se sente, sobre as suas necessidades e expectativas.

“Me gera uma preocupação escutar que…”

“Estou desconfortável com algumas coisas que escutei…”

“Alguns pontos que você colocou ainda não fazem sentido para mim…”

 

7) Vá contra o argumento, e não contra o argumentador.

Separe a pessoa de suas ideias. 

Em vez de desqualificá-la com rótulos ou acusações (p. ex: chata, burra, egoísta, grossa), analise e questione os argumentos e as ideias.

Você pode seguir respeitando a dignidade de um ser humano sem concordar com ele. Parece óbvio mas vale lembrar: é totalmente possível admirar uma pessoa que pensa diferente de nós.

 

“Nenhum de nós individualmente é mais inteligente ou capaz do que todos nós coletivamente.” inspirado em Warren Bennis

Juliana Matsuoka
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