Ter a coragem de pedir

A nossa cultura não nos incentiva a pedir coisas para os outros. Fomos ensinados a sermos independentes, capazes de atender nossas próprias necessidades sozinhos. E que “ficar pedindo” as coisas para os outros é chato, inconveniente.

Sim, todos nós precisamos de liberdade e autonomia. E sim, somos todos capazes de atender várias necessidades nossas por conta própria.

Mas isso não se sobrepõe ao fato de que somos seres humanos interdependentes. Estamos todos interligados. Não é possível vivermos isolados ou sozinhos. E muitas de nossas necessidades precisam das outras pessoas para serem atendidas.

Pedir não nos coloca numa situação de inferioridade. Muito pelo contrário. Pedir algo a outra pessoa oferece a ela a possibilidade de fazer algo que todo ser humano gosta de fazer: contribuir de coração para tornar vidas mais maravilhosas.

“Você recebe da vida aquilo que você tem coragem de pedir.”

Oprah Winfrey

 

Existe um pedido em tudo que dizemos

Nem sempre percebemos, mas toda vez que dizemos algo a outra pessoa, estamos pedindo alguma coisa.

Quando escrevo esta frase “em tudo que dizemos existe um pedido”, estou te pedindo: “Por favor, deixe-me contribuir com você. Por favor, leia e considere isso que eu escrevi. Por favor, reflita sobre como isso se relaciona com a sua vida.”.

Veja só quantos pedidos estão implícitos numa pequena frase!

Quando eu digo “Olá, que saudades!”, eu estou pedindo “Por favor, me dê reciprocidade. Por favor, veja que eu gosto muito de você.”.

Quando eu ligo para um amigo para dizer “Feliz aniversário”, eu estou pedindo “Por favor, escute-me dizer que eu pensei em você hoje e quero o seu bem.”.

 

Pedidos em forma de acusação

​Dizemos “Você não sabe me escutar!” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, escute em silêncio o que estou tentando dizer e mostre para mim que você entendeu.”

Dizemos “Você é um preguiçoso!” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, preciso de apoio e você poderia me apoiar colocando as suas roupas no cesto.”

Dizemos “Você não se importa” quando, na verdade, estamos pedindo “Por favor, preciso de reciprocidade. Me diga como você se sente em relação ao que eu disse.”

É muito mais fácil apontar o dedo e acusar do que entrar em contato com o que sinto, com a minha real necessidade e escolher a forma que quero que minha necessidade seja atendida. Acusar é tentar fazer o caminho mais curto, pular a trabalhosa jornada de conversar comigo mesma para obter o que quero.

Para transformar suas críticas e acusações em pedidos, tenha claro:

  1. Qual a sua real necessidade? O que é realmente importante para você?
  2. Qual ação específica que você, o outro ou um terceiro poderia realizar que atendesse a sua necessidade?

 

Como fazer pedidos assertivos?

Clareza. É disso que precisamos para fazer pedidos assertivos.

Não conte com a habilidade das pessoas lerem seus pensamentos ou de perceberem suas indiretas.

Para ajudar as pessoas a compreenderem como elas poderiam contribuir com as minhas necessidades, eu preciso fazer pedidos claros, conscientes e assertivos.

Mas antes disso, eu preciso esclarecer dentro de mim, como eu gostaria que minhas necessidades fossem atendidas.

A Comunicação Não Violenta oferece alguns critérios para nos guiar neste processo de obter clareza sobre o que realmente queremos: pensamos em pedidos positivos, concretos e realizáveis no momento presente.

 

1. Pense em pedidos positivos

É muito comum sabermos muito bem o que NÃO queremos, em vez do que realmente queremos.

Isso acontece principalmente quando não temos clareza de qual a nossa real necessidade humana. Investigue bem as suas necessidades para descobrir quais ações representariam formas de atendê-las.

O que será que eu quero, quando digo para o meu filho

“Não quero que você fique tanto tempo assistindo televisão”.

Se a minha necessidade for de cuidar do desenvolvimento e saúde dele (cuidado), pode ser que eu queira que ele vá brincar com os vizinhos, ou faça sua lição de casa.

Se a minha necessidade for de apoio, pode ser que eu queira que ele guarde as louças lavadas.

Quando uma pessoa diz sobre sua companheira

“Quero que ela pare de trabalhar tanto assim”,

qual necessidade não atendida?

Será que é de companhia? Então, pode ser que o pedido seja passear ou assistir um filme juntos.

Mas se a necessidade for de apoio, então pode ser que o pedido seja algo como “Você poderia buscar nosso filho na escola?”.

 

2. Pense em pedidos concretos

​Pense em ações concretas, bem definidas em termos de tempo e espaço. Evite palavras vagas para prevenir mal entendidos.

Por exemplo, neste pedido: “Gostaria que você fosse honesto comigo.”

“Ser honesto” é um pedido vago pois ele pode ser manifestado através de diversas ações, em diferentes momentos.

Um pedido concreto poderia ser:

“Quero que você me diga como se sente a respeito do que eu fiz e o que gostaria que eu tivesse feito de modo diferente.”

 

3. Pense em pedidos realizáveis no momento presente

Na busca por nos livrar dos desconfortos, temos uma forte inclinação em resolver todos os problemas do relacionamento em um único pedido, em uma única conversa.

A pressa em solucionar o problema definitivamente, muitas vezes, mais nos distancia do que nos aproxima de uma solução sustentável e de benefício mútuo.

Por isso pense em pedidos que vão te colocar a um passo a frente na direção de ter suas necessidades atendidas, e não em estratégias distantes. 

Por exemplo:

Quando peço para meu companheiro “Gostaria que você fosse buscar nosso filho na escola todos os dias.”, estou pedindo algo que ele não pode realizar neste momento.

Já quando peço “Você poderia me dizer como é para você buscar nosso filho na escola todos os dias?”, estou pedindo que ele diga, naquele momento, como ele imagina que será ficar com essa responsabilidade.

Também posso me focar mais ainda no processo do que na solução se eu pedir: “Você pode me dizer se tudo bem você ficar encarregado de buscar nosso filho na escola todos os dias nessa semana, ver como será a experiência e então conversamos sobre como foi?”

 

Qual a diferença entre um pedido e uma exigência?

Dos pedidos que mencionei como exemplos até aqui, para todos eles, a outra pessoa ainda poderia responder “Não, não quero isso”. Mesmo sendo um pedido que não traz acusação alguma.

E, então, nossa inclinação é pensar “Então não deu certo fazer um pedido dentro dos critérios da Comunicação Não Violenta. Isso não funciona.”.

Mas é exatamente neste ponto que descobrimos se o seu pedido era realmente um pedido ou uma exigência.

Quando uma pessoa diz “não” a um pedido meu, este não precisa ser o fim da conversa. Pode ser um bom começo, na verdade.

Você não precisa desistir na primeira resposta negativa que receber. Nem insistir em ter suas necessidades atendidas por meio da estratégia que você sugeriu.

Mas pode persistir na busca de estabelecer conexão humana. Como? Escutando, considerando e empatizando com as necessidades do outro. Persistindo na tentativa de compreender, e de buscar soluções boas para todos.

 

Quando estou exigindo

Quando uma pessoa diz “não” e minha reação for algo parecido com esses exemplos (mesmo que em pensamento) é muito provável que eu esteja exigindo:

Julgar: “Se você não fizer isso, então você é muito burro mesmo e merece se dar mal.”

Punir: “Se você não fizer isso, você vai ser demitido porque não sabe obedecer ordens superiores.” ou “Se você não fizer o que estou pedindo, não vou mais brincar com você.”.

Na verdade, nesses casos eu não queria fortalecer relacionamentos e estabelecer conexão humana (que são as intenções base da Comunicação Não Violenta). Eu apenas queria que o outro fizesse o que eu quero, mesmo que seja, na minha opinião, para benefício dele.

 

Quando estou pedindo

Mas se, diante de um “Não” a um pedido meu, eu tiver reações parecidas com estas, então estarei realmente fazendo um pedido:

Tentar compreender as necessidades do outro: “Se ele não quer atender ao meu pedido, é porque a minha estratégia não atende alguma necessidade dele. O que será que é importante para ele que a minha proposta não contempla?”.

Investigar o que é importante para o outro e buscar estratégias que contemplem a todos: “Quando você me diz ‘não’ do que você está tentando cuidar? Poderia me dizer para que eu possa pensar em outras formas para que fique bom para nós dois?”.

Pedir sugestões de outras estratégias: “Me parece que a minha proposta não é boa para você. Você teria alguma outra sugestão? Gostaria muito de saber e considerar.”.

Colocar limites que cuidem de necessidades: “Vejo que o meu pedido não te contempla, e sua proposta não atende às minhas necessidades. Escolho sair da parceria para que nós dois possamos cuidar do que é importante para nós de outras formas.”.

Usar a autoridade no sentido protetivo: “Entendo que você queira muito brincar com a faca e por isso não queira me devolver. Mas para cuidar de você, vou tomar da sua mão e juntos procuramos outra brincadeira divertida e segura.”

Ou mesmo:

“Compreendo que você tenha um ritmo diferente e que começar o expediente às 11 horas cuida da sua saúde e produtividade. Mas é importante para mim ser justo com seus colegas de trabalho que começam às 8h, além de garantir que a empresa esteja atendendo os clientes a partir deste horário. Por isso decidimos te demitir e espero que você encontre um outro trabalho que atenda essa sua necessidade.”

 

O “não” do outro é um presente

Você já pediu para alguém, ela disse que “sim”, mas acabou não fazendo o que se comprometeu?

Você ficou esperando ter a sua necessidade atendida através daquela pessoa, e nada. E ainda depois de esperar, percebe que poderia ter tido isso com outras pessoas.

Não seria muito melhor para você se aquela pessoa tivesse te dito “não, vou fazer isso que você está me pedindo. não consigo/não sei/não dou conta/não quero fazer isso?”.

O “não” dela te libertaria para seguir caminhando.

Este é um primeiro motivo para ver o “não” do outro como um presente para você.

Além disso, o “não” do outro previne os desgastes causados na relação de quando as pessoas fazem as coisas por medo, culpa ou vergonha.

A energia cultivada pela obrigação, aos poucos e de forma despercebida, traz redução da confiança, da admiração e do respeito mútuo, o que torna o relacionamento insustentável.

Por isso, prefira um “não” verdadeiro em vez de um “sim” acompanhado pelo medo, culpa ou vergonha. 

Incentive as pessoas a te dizerem “não” em vez de fazerem de má vontade. Deixe-as seguras de que elas não serão julgadas nem punidas caso elas te presenteiem com a honestidade delas. De que você quer ter a oportunidade de mostrar que se importa com as suas necessidades e às dela de forma igual.

 

Primeiro peça por conexão, depois por ação

Imagine que você está em casa, seu companheiro(a) chega do trabalho e vê a pia cheia de louça suja, quando era o seu dia de lavá-las. E logo começa a te dizer:

“Quando é o seu dia de lavar a louça e eu vejo a pia com louça suja, me sinto muito nervoso, porque é importante para mim organização da casa e parceria nos cuidados com ela.” 

Como você se sentiria? Quais são as chances de você, com disposição e boa vontade, ir lá atender as necessidades dele e lavar a louça?

Imagino que as chances sejam baixas, não é? 

Mesmo tendo escutado um pedido sem acusações ou críticas, não foi estabelecida nenhuma conexão. 

Você, que não lavou a louça, está ciente do acordo entre vocês e houve algum motivo para que a louça não tenha sido lavada. Imagino que teria sido muito melhor se a outra pessoa ter se conectado a você, antes de ter se conectado à louça.

Sim, a louça precisa ser cuidada de alguma forma, mas essa é a solução final do problema.

Apesar de todo mundo querer ter seus problemas resolvidos, acredito que, nem você nem seu companheiro(a) querem um relacionamento onde a louça está sempre lavada, mas não há diálogo, compreensão e conexão.

Vocês precisam estar do mesmo lado. Vocês contra o problema, e não um contra o outro.

Se essa conexão ainda não existe, faça pedidos de conexão para a outra pessoa.

Cultive conexão antes de pedir o que você quer, para que o outro tenha a oportunidade de contribuir com você compassivamente.

Convide a outra pessoa para o diálogo

Toda vez que começamos um diálogo com alguém que não concordou com isso, estamos impondo. ​

Por isso, antes de mais nada, saiba que não adianta forçar uma conversa se não estamos confiantes que a outra pessoa quer conversar naquele momento. Em vez de começar diretamente uma conversa com o conteúdo que queremos trazer, podemos expressar nosso desejo pelo diálogo, e perguntar se a outra pessoa está disponível para isso.

Exemplo: Estou aqui bastante incomodado em relação ao nosso acordo sobre a louça. Quero muito conversar com você sobre isso, encontrar alguma solução boa para nós dois. Você está disposto a ter essa conversa agora?​

Queira saber como a pessoa se sente com o que você disse

Se não nos importamos com o impacto gerado no outro a partir do que dissemos, estamos atendendo nossa necessidade de expressão, e não de conexão. Você quer só desabafar seus descontentamentos ou se conectar com a pessoa que está na sua frente?

Se você realmente quiser conexão, depois de expressar tudo que está vivo em você busque saber e se importar com os impactos do que você disse. Isso pode vir da sua necessidade de cuidar do outro e também da necessidade de saber como prosseguir a conversa  (clareza).

Exemplos:

Eu adoraria saber como você se sente sobre o que estou dizendo. Como é pra você escutar isso?

Como isso que eu disse chega pra você?

Estou me sentindo bastante vulnerável sobre o que compartilhei. Gostaria de clareza e honestidade entre nós. Você poderia me dizer o que está acontecendo dentro de você?

​Muitas pessoas não fazem perguntas como essas porque têm medo do que vão escutar. Por isso é tão importante aprimorar nossas habilidades de escutar coisas difíceis se queremos conexão humana.

 

Como me tornar cada vez mais capaz de fazer pedidos

Para que eu seja cada vez mais capaz de fazer pedidos em vez de exigências, além de toda clareza em relação às minhas necessidades e pedidos, preciso também estar conectada:

  • à abundância de estratégias que existem para atender necessidades;
  • à abertura para a possibilidade de ter minhas necessidades atendidas de formas novas, diferentes, ainda desconhecidas;

Muito de nós crescemos pensando que fazer uma faculdade é a única estratégia para termos uma vida segura e estável. Que acumular dinheiro é o único meio para termos sustento e previsibilidade. Que não existe outra forma para encontrar sentido na vida e amparo além de seguir uma religião.

A questão aqui não sobre essas estratégias serem “boas” ou “ruins”. Mas sobre elas não serem as únicas formas que existem para atender essas necessidades. E sobre quanta violência já foi causada por pessoas que não percebiam isso.

Quando acreditamos que não existem outros caminhos, que não temos outra saída, a opressão e a submissão são as únicas opções que temos para escolher.

Esteja aberto às diferentes estratégias que existem e ainda vão surgir para atender diferentes necessidades. Questione-se quando você se perceber acreditando que não existem outras saídas além da que você gostaria que acontecesse. Pesquise. Converse com pessoas diferentes sobre as formas que elas escolhem para atender suas necessidades, ampliando o seu repertório de estratégias. 

Se não podemos mudar uma situação, podemos escolher entre nos adaptar ou nos retirar. Se podemos mudar a situação, podemos fazer isso através da força ou através da colaboração, com criatividade, inovação e persistência.

Juliana Matsuoka
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