Por que será que as festas de fim de ano em família costumam ser momentos tão estressantes para algumas pessoas?

Muitas famílias funcionam dentro de dinâmicas visivelmente violentas, onde houve e há agressão física, abuso, bullying e/ou vícios. E por mais dolorosas essas experiências sejam, existe o desejo de que numa família, deveria-se encontrar um senso de pertencimento, união e afeto.

Em contrapartida, em muitas famílias não se encontra toda essa violência visível. Mas transbordam as violências invisíveis, críticas diretas e indiretas, acusações e humilhações que fazem despertar o instinto de defesa quase que constantemente nas pessoas.

Acredito que a maioria das pessoas espera que, nas festas de fim de ano, estejamos juntos com pessoas da nossa família convivendo sem conflitos, em paz. O problema é que estamos iludidos por uma visão romantizada do que é paz, e do que são conflitos. 

Pensar em conflito nos faz pensar em climão, em brigas, guerras, processos judiciais. Mas ao olhar a partir de um ponto de vista diferente, podemos perceber que os conflitos fazem parte de qualquer relação humana. Os conflitos nos relacionamentos de todos os níveis são o modo como a vida encontra para nos ajudar a parar, avaliar e prestar atenção. Por isso eles podem ser vistos como motores para a mudança. Afinal, é através dos conflitos que nós reagimos, inovamos e mudamos.

E o que é conviver em paz? Conviver em paz não é sobre ter ausência de conflitos, mas sim, sobre transformá-los em oportunidades para construir uma vida melhor para todos. A paz não é um lugar para se chegar, mas sim um caminho que construímos enquanto caminhamos.

Nosso modo individualista de viver hoje é algo que nos previne do convívio com grupos diversos de pessoas. Mas durante as festas de fim de ano existe um estímulo cultural intenso para estarmos juntos em família, com pessoas que pensam muito diferente de nós. É uma época boa para nos lembrar que viver é conviver.

Então, se você costuma ter festas de fim de ano desafiadoras para se conviver em família, e está afim de ter uma experiência enriquecedora ao se relacionar com pessoas importantes para você, confere essas dicas pensadas com carinho:

  1. Não faça nada por obrigação. Só faça se for de coração
  2. Saiba sobre os seus limites
  3. Seja a primeira pessoa a saber como você está se sentindo
  4. Todas as pessoas têm algo a ser respeitado, procure isso nelas
  5. Espere os conflitos, e se planeje para eles

 

Não faça nada por obrigação. Só faça se for de coração.

É muito difícil ter empatia pelo outro, estar aberta a valorizar as necessidades dele tanto quanto as minhas, se eu estiver fazendo algo com má vontade, por obrigação.

“Ficamos perigosos quando não temos consciência de nossa responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos.”

Marshall Rosenberg

Faça escolhas conscientes, para que suas ações aconteçam de coração.

Ou seja, não vá para a casa da sua avó, dos seus sogros, seja de quem for, por obrigação. Vá apenas se você for capaz de dizer para si mesma que está indo porque é uma ESCOLHA, para atender alguma necessidade sua.

Não faça um jantar por obrigação, porque você “tem que” fazer, ou porque as pessoas esperam que você faça. Faça somente se isso for uma escolha consciente, para atender alguma necessidade sua, que pode ser que seja de união, por exemplo. Caso você não consiga fazer esse jantar de coração, encontre outras formas de atender sua necessidade de unir as pessoas.

Valorizar as suas necessidades torna possível que você tenha alguma empatia dentro de si para que ela possa ser oferecida para os outros. Afinal, nós só podemos dar aquilo que temos.

Leia mais sobre autocuidado.

Isso nos leva a próxima dica…

 

Saiba sobre os seus limites

Se você não consegue tratar uma pessoa com respeito, espere até que você consiga.

Pode ser que você só consiga permanecer respeitando uma pessoa, mantendo uma distância física dela. Respeite seus limites.

Pode ser que você consiga permanecer respeitando uma pessoa não conversando sobre determinados assuntos. Respeite seus limites.

Mas enquanto isso, trabalhe para que seus limites se ampliem.

 

Seja a primeira pessoa a saber como você está se sentindo

Se você quer se manter alinhada aos seus valores, ao seu desejo de cultivar a não violência, o respeito e o diálogo, a prática da autoconexão é o que vai manter seus pés no chão.

Nossos sentimentos dolorosos nos avisam do que estamos precisando, que temos necessidades que não estão sendo atendidas.

“Toda violência, é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida.”

Marshall Rosenberg

Se soubermos expressar nossas necessidades (antes de mais nada, para nós mesmos) não haverá violência. Haverá expressões autênticas do que realmente precisamos para a vida prosperar.

Portanto, se dê oportunidades para se conectar consigo mesma.

Faça pausas para respirar, dar nome aos seus sentimentos, e às suas necessidades. Se for preciso, invente que precisa ir ao banheiro ou buscar algo na cozinha. Faça o que for necessário para permanecer sendo dona das suas emoções, e não refém delas.

E lidere suas necessidades. Elas são seus motivadores humanos mais centrais, é você quem os têm, e não o contrário.

 

Todas as pessoas têm algo a ser respeitado, procure isso nelas

Desumanizamos uma pessoa quando todos os rótulos e julgamentos que temos sobre ela fazem desaparecer o fato de que ela é um ser humano oferecendo o melhor que ela dá conta de oferecer, fazendo o melhor que ela pode naquele momento, através de infinitas tentativas de acertar, mesmo que seja insuficiente para nós.

Quando desumanizamos o outro nos esquecemos que ele é alguém que está tentando sobreviver e prosperar neste mundo onde não há verdades e conclusões absolutas sobre nada.

Nos esquecemos que o outro é muito mais do que o que pensamos sobre ele. Que ele tem sentimentos, necessidades, histórias e dores que jamais saberemos.

Procure. E se você não está encontrando, persista procurando algo ser respeitado nas pessoas com quem você tem conflitos. Mesmo que isso não seja recíproco. Mesmo que, para isso, você precise de ajuda.

Pode ser que você encontre algo a ser admirado nas pessoas se abrindo para saber mais sobre a história delas, em vez de saber mais sobre o que há de errado com elas.

Solte seu escudo e suas armas. Dispa-se das armaduras. Abra seu coração para o desconhecido.

 

Espere os conflitos, e se planeje para eles

A gente pensa previamente em tantas coisas para as festas de fim de ano. A comida, a roupa, os presentes, os convidados. Mas não temos o hábito de nos preparar para os conflitos que são inerentes à convivência humana, principalmente a familiar.

Não é sobre “se” os conflitos acontecerem. É sobre “quando” eles acontecerem.

Tire um tempo para pensar sobre pessoas e falas que mais te engatilham. Que costumam fazer você se tornar uma pessoa que você não gostaria de ser.

Reflita sobre como você gostaria de agir nessas situações, de forma consciente e alinhada com as suas intenções de respeito e não violência. 

Quais são as condições necessárias para que você seja capaz de agir de uma forma construtiva?

Também converse abertamente com as pessoas com quem você já tem uma conexão, sobre como vocês podem lidar com os problemas que possam surgir no futuro. Converse sobre o que pode acontecer se o acordo falhar ou a situação mudar.

Temos a impressão de que prever conflitos já pode exacerbar tensões existentes. Mas, na verdade, ocorre o contrário: mencionar a possibilidade de conflito no futuro e desenvolver um plano mútuo para lidar com ele, transformam-no em uma parte normal e potencialmente produtiva para nossas vidas.

 

Conclusão

Se conecte ao significado que as festas de fim de ano têm para você. E volte para elas quando as coisas ficarem difíceis. Qual é o sentido de estar juntos em família? Criar boas memórias? Aprender sobre a história da sua família? Aproveitar o tempo com as pessoas antes que elas morram? Ou convencer seus tios do quão machistas/alcoólatras/fundamentalistas eles são?

Você não pode mudar as pessoas. Mas pode mudar a forma como enxerga e reage diante das situações, por mais injustas e desafiadoras que elas sejam. Não espere a iniciativa do outro, para agir de forma coerente com o que você acredita. Seja a mudança que você quer ver no mundo, mesmo que isso leve um tempo.

Tenha a lucidez de trabalhar com as pessoas do jeito que elas são. E não como você gostaria que elas fossem. Procure o há por trás da superficialidade dos seus julgamentos sobre os outros. Existe um oceano imenso de humanidade para ser descoberto, tanto nele quanto em você.

Tenha responsabilidade sobre as suas escolhas. Percorra o árduo e longo trabalho interno que é sair do papel de vítima, para que você possa partir de uma energia amorosa ao se relacionar com pessoas tão importantes como seus familiares.

 

 

Me encontre nas Redes!

Facebook

Clique em Curtir!

Youtube

Inscreva-se!

Juliana Matsuoka
Últimos posts por Juliana Matsuoka (exibir todos)
Share This