O nosso sistema neurológico determina quem somos e o que fazemos. A maioria de nós não pensa no fato de que nosso cérebro tem muitas partes e funções diversas. É quase como se nosso cérebro tivesse múltiplas personalidades – algumas racionais, algumas irracionais; algumas ponderadas, algumas reativas. O segredo para prosperar é ajudar essas partes a trabalharem juntas, ou seja, integrá-las. A integração pega partes diferentes do cérebro e as ajuda a trabalharem juntas, como um todo.

Para que sejamos capazes de dar o nosso melhor durante uma conversa desafiadora, o nosso estado cerebral deve estar preparado para desempenhar esta função.

Quando nos permitimos agir com as emoções à flor da pele, somos tomados por elas, e perdemos a oportunidade de escolher o melhor comportamento para aquele momento. Perdemos a cabeça, fazemos e falamos coisas que não contribuem para uma solução construtiva.

Precisamos ter o domínio de nós mesmos (autodomínio), o que requer autoconsciência (capacidade de estarmos conscientes de nossos próprios sentimentos e entendê-los) e autorregulação (gestão dos nossos estados interiores), componentes essencias da inteligência emocional.

A autorregulação da emoção e dos impulsos depende grandemente da interação entre o córtex pré frontal e a amígdala.

 

Andar superior do cérebro

O córtex pré frontal é a área neural essencial para a autorregulação. Ela é o “bom patrão” do cérebro, no sentido de nos orientar para o melhor de nós. É o lugar do controle cognitivo, regulando a atenção, a tomada de decisões, a ação voluntária, o raciocínio e a flexibilidade na resposta.

Imagine que seu cérebro é uma casa, com um andar de cima e um de baixo. O cérebro do andar de baixo inclui o tronco cerebral e a região límbica, situadas nas partes mais baixas do cérebro. O andar de cima é feito do córtex cerebral e de suas diversas partes, especialmente o córtex pré frontal médio.

O cérebro do andar de cima é mais evoluído e dá uma perspectiva mais completa do mundo. Você pode imaginá-lo como um gabinete iluminado no segundo andar de um biblioteca repleta de janelas e claraboias que lhe permitem ver tudo com mais clareza. É onde ocorrem os processos mentais mais intrincados como pensar, imaginar e planejar. 

Quando o cérebro do andar de cima está acessível e funcionando bem, conseguimos controlar nossas próprias emoções, pensar nas consequências, refletir antes de agir e levar em consideração como os outros se sentem.

 

Andar inferior do cérebro e o Sequestro da Amígdala

Existe uma parte específica do andar de baixo do cérebro: a amígdala. É ela que nos permite agir antes de pensar. É a parte do cérebro que instrui nosso braço a se esticar para proteger o passageiro quando estamos dirigindo e precisamos frear de repente.

Ela é o radar do cérebro para ameaças. Nosso cérebro foi projetado como uma ferramenta de sobrevivência. Na planta do cérebro a amígdala detém uma posição privilegiada. Se ela detecta uma ameaça, logo aciona formas de lidar com o perigo imediato percebido. Quando este sistema de alarme dispara, o corpo recebe um fluxo de hormônios de estresse, principalmente cortisol e adrenalina, e obtemos a clássica reação lute-corra-ou pare. Num instante a amígdala consegue dominar o resto do cérebro – particularmente o córtex pré frontal – e temos o que é sequestro da amígdala.

O problema disso é que muitas vezes a amígdala comete erros. Embora ela obtenha seus dados no que vemos e ouvimos, ela apenas recebe uma pequena fração dos sinais que esses sentidos recebem. A vasta maioria vai para outras partes do cérebro que demoram mais tempo para analisar as informações mais rigorosamente. A amígdala, em contraste, obtém um retrato rudimentar e reage instantaneamente. Ela frequentemente comete erros, particularmente na vida moderna, em que os “perigos” são simbólicos, não são ameaças físicas. Então reagimos exageradamente de maneira das quais nos arrependemos mais tarde.

O sequestro da amígdala captura a nossa atenção, destinando-a exclusivamente à ‘ameaça’ em curso. Se você estiver no trabalho quando for sequestrado pela amígdala, não vai conseguir se concentrar no que seu trabalho exige – só vai conseguir pensar sobre o que está perturbando. Nossa memória também se esquiva, de maneira que nos lembramos prontamente do que é relevante em relação à ameaça – mas não conseguimos nos lembrar tão bem de outras coisas.

Durante um sequestro, não conseguimos aprender e dependemos de hábitos memorizados repetidamente, de comportamentos repetidos consecutivamente. Durante um sequestro, não conseguimos inovar, nem ser flexíveis.

Como resultado disso, somos incapazes – momentaneamente, ao menos – de controlar o corpo ou as emoções e  de usar todas as habilidades de pensamento de alta ordem, como pensar em consequências, resolver problemas, ou considerar o sentimento dos outros.

 

Sequestro da amígdala crônico

Na atmosfera de grande incerteza que vivemos, há muito medo flutuando livremente no ar. A ansiedade se apodera de nós. Há muita gente operando dia após dia no que vem a constituir um sequestro da amígdala crônico e de baixo nível.

Uma boa forma de ilustrar esse processo é comparar a maneira como humanos e animais reagem diante do perigo. Você deve se lembrar de algum documentário sobre a vida selvagem que assistiu na TV. Onde havia um rebanho de gazelas sendo caçado por um leopardo na savana africana. Aterrorizados, os animais correram feito loucos até que o leopardo capturou um deles ou desistiu da caçada naquele dia. Uma vez passado o perigo, as gazelas voltaram a pastar tranquilamente. Algo no cérebro delas foi acionado quando avistaram o leopardo e depois desativado quando a ameaça se dissipou.

Mas a mente humana é diferente. Quando nossas reações de luta-fuga-ou pare entram em ação, nossa mente começa a percorrer, de forma inconsciente, nossas lembranças em busca de algo que explique por que nos sentimos daquele jeito. Ela desenterra memórias de ocasiões passadas que nos sentimos ameaçados e depois cria cenários do que poderá ocorrer no futuro. O resultado disso é que os sinais de alerta do cérebro são ativados não apenas pelo perigo atual, mas por ameaças passadas e preocupações futuras.

Ao contrário das gazelas, não paramos de correr.

 

O que fazer diante disso?

 

SE APROXIME DA RAIVA

Quando identificamos a raiva como o resultado de algo errado em nós, nossa tendência é reprimí-la, em vez de lidar com ela. Reprimir ou negá-la nos leva a expressá-la de formas perigosas para nós e para os outros.

A raiva não é algo que deve ser suprimida. A raiva é um presente que nos desafia a nos conectar com necessidades não atendidas que desencadearam a nossa reação.

Não diga a si mesmo que “não deveria” pensar daquela maneira. Não diga que é errado sentir raiva. Pois isso só perpetuaria a raiva para si.

 

TOME O TEMPO QUE VOCÊ PRECISA

A melhor escolha a se fazer quando estivermos com raiva, é parar. Muitos caminhos se abrem se dermos tempo para evocar nossas habilidades para lidar com ela.

“Quando uma aflição mental surgir, aja como um pedaço de madeira” Shantideva

No livro Living Non Violent Communication, com edição de 2012 ainda sem tradução para o português, Marshall Rosenberg escreveu sobre as três palavras que ele provavelmente disse mais que qualquer três palavras nos últimos quarenta anos: TAKE YOUR TIME.

A tradução que eu acredito que seria mais fiel é: tome o tempo que você precisa.

Neste livro, ele fala sobre uma figura poderosa que o ajudava a se lembrar de tomar o tempo que ele precisa. Era um amigo de Israel, que perdeu o filho em batalha. Ele escreveu um livro em homenagem ao filho para o ajudar a superar a perda, e na primeira página tinha a foto do filho dele, que usava uma camiseta escrito “Take your time”. Marshall pediu a imagem em tamanho maior para o amigo/autor do livro para o ajudar a se lembrar disso, e explicou o porquê essas três palavras eram tão importantes para ele. E então o amigo disse, uma coisa que ajudaria mais ainda. Quando o filho dele morreu, ele foi ao escritório do comandante e perguntou “Porque você mandou o meu filho? Você não percebeu que qualquer pessoa que você mandasse para essa missão, seria pra ser morto?” E o comandante falou: “We didn’t take our time.” Ou seja, nós não tiramos o tempo que precisávamos.

Por isso que ele disse o quanto era importante para ele ser capaz de diminuir o ritmo, tomar o tempo que precisa, para partir de uma energia que ele escolha partir, a partir da energia que ele acredita ser a energia que fomos feitos para partir, e não a energia que foi programada em nós.

Este amigo de Marshall escreveu um poema do qual primeira frase era “Take your time, it’s yours you know. ” Que traduzindo, seria, tome o tempo que você precisa, ele é seu afinal.

No momento da raiva, diminua o ritmo e assista os julgamentos que se passam na sua cabeça, como se estivesse assistindo um filme. Apenas perceba.

Lembre-se que, fazendo isso, não estamos negando o desejo natural do cérebro de solucionar problemas. Estamos simplesmente nos dando um tempo para escolher a melhor forma de resolvê-los.

 

VOCÊ NÃO É SEUS PENSAMENTOS

Veja os pensamentos como eventos mentais, em vez de vê-los como reais. Em vez de se definir como aquilo que você está sentindo.

Os pensamentos não passam de pensamentos. São eventos criados pela mente. Costumam ser valiosos para tomar nossas decisões, mas eles não são “você” ou a “realidade”. São uma narração interna sobre você e seu mundo.

A pura consciência transcende o pensamento. Permite que você cale a mente tagarela e iniba seus impulsos e emoções reativas. Possibilita que você olhe para o mundo com os olhos abertos.

“As nuvens sempre passam. Podem ser nuvens claras ou escuras, mas sempre passam. Talvez tenha que chover uma tempestade, mas ela também passa. Compreenda que você não é a nuvem, você é o céu.”

Sri Prem Baba

 

PERCEBA SEU CORPO

Tome consciência das coisas que acontecem com o seu corpo quanto você está com raiva. Os batimentos cardíacos aumentam, o sangue flui para as mãos e as aquecem, a respiração se torna mais intensa, você transpira mais? Dá uma pontada no estômago? Ombros enrijecidos? Dentes cerrados? Punhos fechados?

Se você puder perceber sensações familiares de que um sequestro da amígdala está começando. Quanto mais no início do ciclo do sequestro você estiver, mais fácil será interromper o processo.

 

Cérebro integrado

Depois que você se perceber que não é mais refém de um sequestro da amígdala, e consegue acessar o andar de cima do seu cérebro, existem muitas possibilidades de interagir com as pessoas a partir de uma energia que você escolheu partir. O diálogo é uma delas.

 

Bibliografia:

GOLEMAN, Daniel. O Cérebro e a Inteligência Emocional – Novas Perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

ROSENBERG, Marshall. Living Nonviolent Communication – Practical Tools to Connect and Communicate Skillfully in Every Situation. Bouder: Sounds True, 2012.

ROSENBERG, Marshall. Comunicação Não-Violenta – Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Editora Ágora, 2006.

SIEGEL, Daniel. O Cérebro da Criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. São Paulo: nVersos, 2015.

WILLIAMS, Mark; PENMAN, Danny. Atenção Plena: Mindfulness. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

Juliana Matsuoka
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