Trecho inspirador do livro “Ei! Tem alguém aí?”, de Jostein Gaarder, sobre a arte de fazer perguntas.

 

“Pode comer uma maçã”, falei, oferecendo-lhe a fruta. 

Foi como se ele estivesse vendo uma maçã pela primeira vez. Primeiro só cheirou, depois arriscou uma dentadinha. 

Daí exclamou: “Nham-nham!”, e deu uma grande mordida. 

Perguntei: “Você gosta?”. 

Ele se inclinou bem para a frente, fazendo uma reverência. 

Eu queria saber que gosto tem a primeira maçã que alguém come na vida. 

Perguntei de novo: “Que gosto tem?” Ele fez outra reverência. 

Perguntei: “Por que você está se inclinando?”. 

Mika se inclinou mais uma vez. Fiquei tão perplexo que só consegui perguntar de novo: 

“Mas por que você está se inclinando desse jeito?”

Agora foi a vez de Mika ficar confuso, acho que ele não sabia se era melhor se inclinar mais uma vez, ou só responder.

“Lá de onde eu venho”, explicou ele, “nós sempre fazemos uma reverência quando alguém faz uma pergunta fascinante. E quanto mais profunda for a pergunta, mais profundamente a gente se inclina.”

Camila, essa foi uma das coisas mais malucas que eu já ouvi na vida! O que havia numa pergunta que merecesse uma reverência?

“Nesse caso”, perguntei, “o que vocês fazem quando querem se cumprimentar?”

“Tentamos pensar numa pergunta inteligente.”

“Por quê?”

Primeiro ele fez uma reverência rápida, já que eu tinha feito mais uma pergunta; daí falou: 

“Tentamos pensar numa pergunta inteligente, para fazer a outra pessoa se inclinar.”

Essa resposta me impressionou tanto que fiz uma profunda reverência, me inclinando ao máximo. Quando levantei os olhos, vi que ele estava chupando o dedo. Houve uma longa pausa até ele tirar o polegar da boca.

“Por que você me fez uma reverência?”, perguntou ele, num tom quase ofendido. “Porque você deu uma resposta superinteligente para a minha pergunta”, respondi.

Daí, numa voz bem alta e clara, ele disse algo que eu haveria de lembrar pelo resto da vida: “Uma resposta nunca merece uma reverência. Mesmo que for inteligente e correta, nem assim você deve se curvar para ela.” 

Fiz que sim, rapidamente. Mas me arrependi no mesmo momento, pois Mika poderia pensar que eu estava me inclinando para a resposta que ele acabava de dar. 

“Quando você se inclina, você dá passagem”, continuou Mika. “E a gente nunca deve dar passagem para uma resposta.” 

“Por que não?”

“A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só uma pergunta pode apontar o caminho para a frente.”

Achei que havia tanta sabedoria nas suas palavras que precisei segurar bem firme meu queixo para não fazer outra reverência.

Juliana Matsuoka
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