Estamos na dita “Era da Comunicação”. Mas não é preciso ir muito longe para perceber que estamos bem longe de nos entendermos melhor. 

Basta olharmos os grupos de Whatsapp, principalmente os familiares, para perceber que, apesar dos avanços tecnológicos, as pessoas se compreendem cada vez menos.

A reação natural da maioria das pessoas é dizer que o problema está, claro, no outro. Ficamos abismados com a capacidade das “outras” pessoas em interromper nossas falas e nos apontar dedos.

Mas reconhecer que tudo isso também está em nós, é um começo importante. 

Estamos sendo confrontados com uma realidade que nós mesmos ajudamos a criar e sustentar. Afinal, somos todos filhos dessa cultura de dominação onde aprendemos que precisamos ganhar as conversas para não sermos perdedores. Todos nós queremos ter razão.

Vamos juntos aprender a trabalhar com as nossas tendências humanas que, na tentativa de nos proteger, acabam determinando nossos comportamentos na direção de nos separar, em vez de nos conectar.

Pois, na construção do mundo que queremos, não podemos abrir mão da cooperação entre as pessoas. E, para isso, o diálogo construtivo e respeitoso é um dos caminhos mais transformadores e acessíveis.

 

Parta do princípio que as falhas de comunicação são REGRA, e não exceção

Somos seres humanos dinâmicos e complexos utilizando uma ferramenta para nos comunicar: a linguagem. Mas ela não dá conta de acompanhar todos os nossos movimentos e complexidades em tempo real.

Por isso as falhas de comunicação existem, e não são exceção, são a regra. Quando a gente acha que está se comunicando com perfeição, estamos de fato iludidos que isso acontece.

Sobre as ilusões e ruídos que acontecem quando a gente se comunica, assista essa série maravilhosa de vídeos do GNT: Meia Palavra.

Partir do princípio que as falhas são inerentes à comunicação humana, que nem tudo que eu falo é compreendido como eu digo, me pede persistência no diálogo, na tentativa de dizer o que eu realmente quero dizer, e de escutar o que o outro está realmente tentando falar.

Sabendo dessa limitação da linguagem e do processo de comunicação, antes de chegar a qualquer conclusão, eu permaneço no movimento constante de checar com o outro se a minha compreensão foi coerente com o que ele quis dizer. E dizendo, de diferentes formas, as minhas reais intenções.

 

Não tenha medo dos conflitos

Para conversar com pessoas que pensam diferente de mim, preciso partir do pressuposto que não existe uma verdade absoluta no mundo, cada um vê uma verdade diferente. E que diante de tantas verdades, na tentativa de conviver, estamos o tempo todo, consciente ou inconscientemente, fazendo acordos e criando consensos.

Além disso, somos seres humanos dinâmicos, ou seja, nossas necessidades e visões de mundo mudam com o tempo. Aquele acordo que fizemos no passado para conviver bem, precisa ser atualizado repetidas vezes para acompanhar nossa dinamicidade. E como se manifesta a necessidade de se atualizar um acordo? Através do conflito.

O problema é que queremos evitar desconfortos. E os conflitos são desconfortáveis. Entre uma zona de conforto e outra, existe um conflito. Ainda assim, é através dos conflitos que nós reagimos, inovamos e mudamos. Por isso o conflito pode ser entendido como motor da mudança.

Os conflitos nos relacionamentos de todos os níveis são o modo como a vida encontra para nos ajudar a parar, avaliar e prestar atenção.

Ao mesmo tempo, o conflito é um ponto de decisão, entre deixá-lo se desfigurar em violência, ou transformá-lo em um diálogo.


Esse olhar para os conflitos é lindamente abordado por Dominic Barter. Ele foi convidado pelo Mamilos Podcast para falar sobre CNV, e você pode escutar o episódio aqui neste link.

Temos medo do que não conhecemos. Mas perdemos o medo dos conflitos quando aprendemos a lidar com eles, a transformá-los em diálogos que nos tragam mudanças boas para todos.

Quando aceitamos que os conflitos fazem parte de qualquer relação humana, compreendemos também a importância de nos preparar para eles.

 

O que faz o DIÁLOGO diferente de outros tipos de conversas?

Num diálogo, eu abro mão de vencer para que todos ganhem.

Eu deixo de demandar minha atenção e energia para tentar provar meu ponto. E me esforço para tentar compreender o que o outro quer dizer, por trás dos julgamentos, reclamações, acusações e críticas. 

No diálogo o nosso foco de atenção está no ato de escutar para compreender.

E também buscamos ideias com as quais conseguimos concordar, potencialmente combinando estas com nossas próprias ideias a fim de construir uma verdade maior do que qualquer um dos lados teria sozinho.

Quem sabe menos, escuta melhor

Numa atitude aberta à escuta, temos uma atitude orientada para perguntas e para a valorização do que “ainda não sabemos” em detrimento da antecipação sobre coisas que já sabemos.

Vá para um diálogo aberto para a possibilidade de ter pensamentos como estes:

“Nossa, eu nunca tinha pensado nisso!”
“Olha que interessante, eu nunca tinha olhado por esse ponto de vista.”
“Uau, disso eu não sabia.”

A curiosidade é um ato de vulnerabilidade e coragem, porque aprender começa com a disposição de “não saber”. E acredito que, poucos ou nenhum de nós, temos lembranças de termos sido valorizados por “não saber” algo.

A abertura para o diálogo requer o reconhecimento de que se pode aprender com pessoas que têm crenças diferentes das nossas. Se alguém acredita ser o único detentor da verdade não vê necessidade em escutar os outros.

O ato de permanecer curioso em situações difíceis é uma habilidade que requer prática. É a sabedoria de, mesmo sentindo raiva e medo, continuar perguntando: “O que está acontecendo aqui de fato? O que eu não entendi?”

 

Porque não adianta debater

“Às vezes, se você desmonta um argumento meu, você desmonta a maneira como eu me enxergo, como eu me compreendo, o sentido que eu dou para minha vida. Eu preciso me reinventar como pessoa para deixar de crer naquilo que eu creio.”
Ed Rene Kivitz

Nosso cérebro trata a dor física da mesma forma que a dor da rejeição (ou dor social). Isso porque ele sabe muito bem que as conexões sociais são importantes para a nossa sobrevivência, assim como alimento e abrigo.

Quando você tenta convencer alguém que ele está errado, por exemplo, é muito provável que o corpo dele reaja como se ele estivesse sofrendo uma ameaça física real.

Durante essa reação, o cérebro dele só será capaz de pensar em se defender. Todas as outras funções como a de empatia, flexibilização, aprendizado, planejamento e regulação emocional, serão suprimidas pelo instinto de proteção.

Ou seja, se queremos que o outro tenha empatia conosco, que ele esteja aberto ao aprendizado e à flexibilização, precisamos nos comunicar de forma que ele se sinta seguro, aceito, considerado.

Mas essas intenções precisam ser verdadeiras. Você pode até tentar fingir que se importa com as necessidades do outro. Mas em algum momento ele vai perceber as suas reais intenções.

Por isso esteja consciente das suas intenções. Assim, você terá o poder de escolha entre permanecer com ela, ou de mudar a sua intenção. Leia o artigo sobre a intenção da Comunicação Não Violenta aqui.

 

Efeitos pós diálogo: conte com eles

Muitas vezes, os efeitos de um diálogo acontecem algum tempo depois dele. A mudança no nível de consciência e o grau de disposição para que as pessoas se sintam inclinadas a partir para a ação podem não ficar evidentes ao final de uma única conversa.

Foram diversas as vezes que vi mudanças positivas de comportamento na outra pessoa, nos dias seguintes de um diálogo, mesmo que ao fim dele eu não tivesse me sentido otimista de que algo mudaria.

 

Treine

Com o diálogo, não queremos convencer quem está do “lado de lá” a vir para onde estamos. Mas sim sair das nossas bolhas e construir outras coletivamente, que sejam mais favoráveis para todas. E para isso, apenas empatia e boa intenções não bastam.

Conversar com quem pensa muito diferente de nós exige prática, continuidade, paciência, respiro. Confie e encare essa jornada como um treinamento para cultivar uma habilidade fundamental aos tempos atuais.

A Comunicação Não Violenta oferece ferramentas poderosas para sustentar conversas respeitosas em conflitos nos relacionamentos humanos. Conheça um pouco mais sobre ela clicando aqui!

Juliana Matsuoka
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