Texto escrito para o Instituto Signativo, organização que visa contribuir para uma educação que valoriza a autonomia, para que as pessoas se tornem protagonistas em um processo que estimula nossos jovens atingirem o máximo do seu potencial. Conheça a Pós Graduação em Inteligência Socioemocional na Educação do Instituto Signativo!

 

Como educadores podem usar a sua autoridade para proteger, e não para punir

Marshall Rosenberg, o sistematizador da comunicação não violenta, contava uma história de quando visitou um amigo diretor de escola. Pela janela de sua sala, o diretor viu um menino grande bater num outro menor. Ele correu para o pátio, deu um tapa no menino maior e lhe deu um sermão. Quando o diretor voltou de sua sala, ele disse: “Eu ensinei aquele menino a não bater em pessoas menores do que ele.” Marshall respondeu: “Não tenho tanta certeza de que foi isso que você fez. Suspeito que você o ensinou a não fazer isso enquanto alguém maior estivesse vendo.” O diretor não percebeu que estava sendo modelo do mesmo comportamento que ele tentava impedir. (1)

Violências ocultas

No Brasil, a aplicação de castigos físicos e morais em crianças e adolescentes é crime. Todas e todos nós sabemos que nossas crianças e adolescentes não devem ser submetidos ao sofrimento físico, ameaça, ridicularização ou humilhação. (2)

A presença de violência explícita nas escolas gera uma sensação de insegurança e causa efeitos profundos nos alunos e em suas famílias. Entretanto, apesar de serem menos extremas, as ocorrências diárias que induzem o medo nos alunos acabam minando sua segurança emocional.

Formas de violências sutis são estratégias frequentemente utilizadas pelos adultos em meio aos desafios de comportamento das crianças e jovens, por exemplo, o uso de acusações, rótulos desumanizadores e comparações. 

Microviolências e violências ocultas são atos que não contradizem a lei, mas geram exclusão, medo e culpa, principalmente quando vindos de pessoas que estão em posição de poder, o que limita a capacidade da vítima de se defender.

Cultura de violência

A questão da violência nas escolas é complexa e precisamos ir além da busca por culpados.

Os educadores encaram grandes desafios em relação ao comportamento das crianças e jovens que trazem para dentro das escolas todas as suas necessidades não atendidas pela família e pela sociedade. 

Ao mesmo tempo, que existe a tentativa de proteger os alunos de serem vítimas de violência dentro das escolas, o Brasil lidera o ranking de agressões contra docentes.

Quando os alunos são autores de ações violentas, injustas ou transgressoras, parece ser correto e coerente o uso das punições, por mais sutis que sejam.

Entretanto, há séculos, essa é uma forma socialmente adquirida de se pensar. Numa cultura de violência, as pessoas privilegiam a violência como meio normal de defender sua comunidade das ameaças que pesam sobre ela. As pessoas recorrem a construções racionais que as permitam justificar e aceitar a violência. A ideologia da violência visa ocultar aquilo que a ela mesma tem de irracional e inaceitável, valorizando-a positivamente. (3)

Quando escutamos um pai, por exemplo, dizer ao filho quando aplica uma punição a ele que “dói mais em mim do que em você”, que faz isso “por amor” ou se justifica dizendo “eu apanhei e não morri”, esse pai se apresenta como um produto bem sucedido da cultura de violência na qual estamos todos inseridos.

“Não se pode construir a paz sobre os alicerces do medo.” Arun Gandhi

Cultura de paz

As perguntas que quero refletir sobre são as seguintes: Como lidar com o comportamento inapropriado das crianças e jovens nas escolas cultivando a paz ao invés de cultivar a violência?  Como incentivá-los a colaborar com ações que visem o bem comum? Como os educadores podem usar sua autoridade para proteger, e não para punir? É possível a escola se tornar em um território de interrupção de ciclos profundos de violências?

Eu acredito que sim. E é exatamente quando acontece um conflito que um ciclo de violência pode ser interrompido, no momento em que respondemos à violência sem o uso dela mesma.  Mas para que isso seja possível, é necessária a normalização de um novo paradigma que torne possível a criação de estruturas que sustentem práticas adequadas para resolução de conflitos.

“Como podemos nos opor ao mal sem criar novas maldades e nós mesmos nos tornarmos maus?” Walter Wink

Diferentes tipos de uso da força

Quando duas pessoas conseguem, através do diálogo, serem compreendidas no nível de suas necessidades, geralmente pode-se chegar a uma solução que gere benefício mútuo. No mínimo, os dois lados podem concordar de boa vontade em discordar. Elas podem até acabar se afastando, mas seguirem se respeitando.

Porém, haverá ocasiões que envolvem questões importantes e não será possível simplesmente se afastar. E não existindo a possibilidade para o diálogo (seja por falta de tempo, de acesso, disposição ou capacidade das pessoas envolvidas) pode ser que precisemos recorrer ao uso da força. Se o fizermos, é importante ter a clareza se estamos escolhendo o uso da força no sentido punitivo ou no sentido protetor.

Uso punitivo da forçaUso protetor da força
IntençãoFazer os alunos sofrerem pelo mal que praticaram.Proteger a vida e garantir direitos fundamentais;

Evitar danos e injustiças;

Retornar ao diálogo assim que possível.

PremissaOs alunos são naturalmente maus e egoístas e fazem coisas ruins;

Eles precisam sofrer o suficiente para perceberem que suas ações são erradas, se arrependam e passem a agir como determinam as regras.

Alguns alunos se comportam de maneira prejudicial a si e aos outros por algum desses motivos:

a) falta de consciência das consequências das suas ações;

b) desconhecimento de que suas necessidades podem ser atendidas sem prejudicar os outros;

c) a crença que eles têm o “direito” de maltratar outras pessoas porque elas “merecem”;

FormasCastigo físico (p. ex: puxar a criança pelo braço, dar apertões);

Rótulos ou julgamentos que desumanizam, humilham ou culpabilizam (p. ex: dizer “você é burro”);

Retirada de benefícios ou ameaças para tal (p. ex: reprovar o aluno por questões pessoais, dizer “você não vai para a aula de educação física porque me desobedeceu”);

Retirada da afeição ou do respeito (p. ex: olhares repreensivos, ignorar o aluno, excluir de atividades, dizer “ninguém gosta de você”).

Influenciar os alunos a agirem de formas construtivas;

Fazer demandas (p. ex: dizer “entre para dentro da escola” cuidando da segurança de um aluno que saiu pelo portão);

Contenção física (p.ex: segurar um aluno que está batendo no outro);

Obstruir o acesso dos alunos a lugares ou materiais que apresentem riscos.

ResultadosResultados de curto prazo;

Aumento da violência;

Ressentimento e hostilidade;

Aumento da resistência ao comportamento que buscamos.

Resultados de longo prazo;

Construção de paz;

Responsabilidade social;

Autodisciplina.

Existem dois tipos de poder. Um é obtido pelo medo da punição, e o outro por atos de amor. O poder baseado no amor é muito mais efetivo e permanente do que o derivado do medo da punição. Gandhi

Subprodutos da punição

“De onde tiramos a absurda ideia de que, para levar uma criança a agir melhor, precisamos antes fazê-la se sentir pior?” Jane Nelsen

A punição ainda continua sendo a principal característica da disciplina escolar porque ela é rápida, fácil de administrar e parece atender ao critério segundo o qual “ao menos fizemos alguma coisa a respeito”. (4)

Suponho que todos nós concordamos que uma boa educação visa ajudar as crianças e jovens a assumirem a responsabilidade pelo seu próprio comportamento. Entretanto, a punição dada por um adulto trata-se de uma tentativa externa à eles para regular o seu comportamento. Quando sua vida e seu comportamento são constantemente regulados pelos outros, as crianças e jovens perdem oportunidades para desenvolver a autodisciplina, já que os outros o fazem em seu lugar. (4) (5)

Além disso, os efeitos negativos da punição são diversos e estão bem documentados. Tais efeitos incluem sentimento de raiva por parte da pessoa punida, cujo foco passa do mal cometido para a pessoa que administrou a punição. O aluno castigado tende então a questionar a natureza da punição e a culpar o punidor ao invés de assumir a responsabilidade das consequências de seu mau comportamento. (4) (6)

Diante de uma punição, o aluno entra em posição de defender seus próprios interesses e faz com que ele se distancie das pessoas que agrediu, reduzindo a oportunidade de se sensibilizar pelos danos causados às outras pessoas e de agir de modo responsável. Ou mesmo ele se paralisa pela culpa e pela vergonha. Por isso o processo punitivo dificilmente estimula o aluno a compreender as consequências de seus atos e a reparar os possíveis danos. (6)

Quando um adulto com sua autoridade é o responsável por determinar ao aluno o que ele merece, esse adulto assume o lugar de todas as pessoas envolvidas no conflito e acaba por enfraquecer o sentido comunitário. As comunidades precisam de oportunidade e encorajamento para assumirem suas obrigações em favor do bem-estar de seus membros e trabalharem colaborativamente para resolver os problemas da comunidade dentro dela mesma. (6) (7)

Métodos alternativos à punição

Voltando à história contada por Marhsall Rosenberg no início deste texto, quais seriam as possibilidades de respostas para a violência praticada pelo menino grande contra o menino menor?

A primeira reação deveria ser o uso da força no sentido de proteger a vida e os direitos fundamentais de todas as pessoas envolvidas (inclusive do menino grande). Isso poderia ser feito tanto pelos colegas presentes, quanto pelos adultos que poderiam ser chamados.

Uma vez que não houverem riscos iminentes, os diversos métodos que se apoiam no diálogo poderiam ser utilizados para transformar aquela situação, reatar os laços rompidos e prevenir a reincidência desses eventos.

Para que tudo fosse possível, seria necessário que os alunos fossem guiados por valores que prezam pelo cuidado mútuo e treinados sobre como reagir ao testemunhar uma situação de violência. Os alunos deveriam perceber uma agressão como algo inaceitável, e não como entretenimento.

Os próprios alunos poderiam receber treinamentos para que fossem capazes de mediar conflitos entre eles mesmos (veja aqui um projeto realizado nessa direção). 

Os adultos da comunidade escolar poderiam se capacitar para a facilitação de círculos de construção de paz e para a mediação de conflitos.

Práticas constantes para a nutrição de bons relacionamentos que envolvam toda a comunidade escolar poderiam passar a fazer parte do dia a dia da escola.

“Aqueles que amam a paz precisam aprender a se organizar de forma tão efetiva quanto aqueles que amam a guerra.” Martin Luther King Jr.

Todas essas possibilidades têm raízes na justiça restaurativa e nas práticas restaurativas na educação que vem sendo implantadas de forma sistemática em várias escolas e incluídas em políticas públicas.

Acesse aqui a Cartilha Justiça Restaurativa no ambiente escolar

Coragem e inspiração

Apesar de as rodas de conversa serem o método mais antigo para lidar com os conflitos e fortalecer comunidades, tudo isso parece ser muito novo para nós que carregamos crenças originárias de paradigmas de dominação.

Espero que tenhamos a coragem de nos arriscar nessa jornada de resgate à bondade inerente e presente em todos nós.

Deixo aqui duas inspirações: Tião Rocha, o criador da pedagogia da roda; e, em seguida, um texto com base na filosofia Ubuntu.

Sawabona Shikoba!

SAWABONA, é um cumprimento usado na África do Sul e quer dizer: “Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim”.

Em resposta, as pessoas dizem SHIKOBA, que é: “Então, eu existo para você”.

Há uma tribo africana que tem um costume muito bonito. Quando alguém faz algo prejudicial ou errado, eles levam a pessoa para o centro da aldeia, e toda a tribo vem e o rodeia. Durante dois dias, eles vão dizer ao homem todas as coisas boas que ele já fez.

A tribo acredita que cada ser humano vem ao mundo como um ser bom, cada um de nós desejando segurança, amor, paz e felicidade.

Mas, às vezes, na busca dessas coisas, as pessoas cometem erros. A comunidade enxerga aqueles erros como um grito de socorro. Eles se unem então para erguê-lo, para reconectá-lo com sua verdadeira natureza, para lembrá-lo quem ele realmente é, até que ele se lembre totalmente da verdade da qual ele tinha se desconectado temporariamente:

“Eu sou bom”

Referências Bibliográficas

1 – Hart, S., Hodson, V. K. The Compassionate Classroom: Relationship Based Teaching and Learning. 1st ed. Encinitas, CA: PuddleDancer, 2004.

2 – Estatuto da Criança e do Adolescente https://www.unicef.org/brazil/estatuto-da-crianca-e-do-adolescente

3 – Muller, J. O princípio da não-violência: uma trajetória filosófica. São Paulo: Palas Athena, 2007.

4 – Amstutz, L. S.; Mullet, J. H. Disciplina Restaurativa para Escolas. 3ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2018.

5- Nelsen, J. Disciplina positiva. 3ª ed. Barueri: Manole, 2015.

6 – Zehr, H. Justiça Restaurativa. 2ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2017.

7 – Evans, K.; Vaandering, D. Justiça Restaurativa na Educação: Promover Responsabilidade, Cura e Esperança nas Escolas. 1ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2018.

Juliana Matsuoka
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