REUNINDO A TRIBO

Era uma vez uma grande tribo de pessoas que viviam num mundo muito distante. Se era distante no espaço, no tempo, ou mesmo fora do tempo, não sabemos. Viviam num estado de encantamento e alegria que poucos hoje ousariam acreditar que existe, salvo naquelas raras experiências de pico quando vislumbramos o verdadeiro potencial da vida e da mente.

Certo dia, os anciãos da tribo convocaram uma reunião. Juntaram-se em roda e uma anciã disse de modo muito solene: “Meus amigos, há um mundo que precisa de nossa ajuda. Chama-se Terra, e seu destino está por um fio. Seus humanos chegaram ao ponto crítico de seu nascimento como coletividade, o mesmo ponto em que nós estávamos há um milhão de anos, e eles serão um natimorto se não ajudarmos. Quem gostaria de ser voluntário para partir em missão a esse tempo e lugar e prestar serviço à humanidade?

“Nos fale mais sobre essa missão” disseram.

“Não será fácil. Nosso xamã os colocará num transe muito, muito profundo, tão completo que se esquecerão de quem são. Viverão uma vida humana e no começo esquecerão por completo suas origens. Se esquecerão até mesmo da nossa língua e do seu verdadeiro nome. Ficarão apartados da maravilha e beleza de nosso mundo, e do amor que nos banha a todos. Sentirão uma saudade pungente, mas serão incapazes de dar nome àquilo de que têm saudade. Se lembrarão do amor e da beleza que reconhecemos como normais, apenas pelo desejo de seu coração. Sua memória tomará a forma de um conhecimento intuitivo da existência da possibilidade de um mundo mais bonito quando mergulharem nessa Terra dolorosamente desfigurada.

“Ao crescerem nesse mundo, seu conhecimento ficará sob ataque constante. Dirão a vocês de um milhão de modos que um mundo de destruição; violência; trabalho sem sentido, ansiedade, e degradação são normais. Poderão passar por tempos em que estarão completamente de sozinhos, sem aliados que reafirmem seu conhecimento de um mundo mais bonito. Talvez caiam nas profundezas de um desespero que nós, no nosso mundo de luz, nunca imaginamos. Mas, apesar de tudo, uma fagulha de conhecimento jamais os abandonará. Uma lembrança de sua verdadeira origem ficará gravada em seu código genético. Essa fagulha ficará dentro de vocês, inextinguível, até que um dia se acenderá.

Vejam, mesmo que se sintam, por algum tempo, totalmente sozinhos, não estarão. Enviaremos ajuda, assistência que sentirão como milagrosa, experiências que vocês descreverão como transcendentes. Essas vivências serão como ar que sopra sobre a fagulha e a transforma em chama. Por momentos, horas, ou dias, vocês despertarão para a beleza e alegria que deveriam ser normais. Vocês as reconhecerão sobre a Terra, pois apesar das pessoas e do planeta estarem profundamente feridas, ainda há beleza ali, projetada do passado e do futuro no presente como uma promessa do que é possível, e um lembrete do que é real.

Depois desse vislumbre, a chama pode morrer e se tornar brasa de novo, à medida que as rotinas da vida normal tomarem conta de vocês. Mas depois do despertar, parecerão menos normais, e a história daquele mundo parecerá menos real. E a brasa se iluminará com mais intensidade. Quando muitas brasas fizerem assim, todas se tornarão uma chama juntas, e se sustentarão mutuamente.

Pois lembrem-se de que não estarão lá sozinhos. Quando começarem a despertar para sua missão, encontrarão outros de sua tribo, Vocês os reconhecerão pelo propósito comum, valores e intuições partilhadas, e pela similaridade dos caminhos que trilharam. Quando as condições do planeta Terra forem chegando as crises, seus caminhos se cruzarão mais e mais. O tempo da solidão, o tempo de pensar que estavam loucos terá acabado.

“Encontrarăo pessoas de sua tribo por toda a Terra e as conhecerão através das tecnologias de comunicação à distância usadas naquele planeta. Mas a verdadeira mudança, o mais forte estímulo, virá de encontros presenciais em lugares especiais. Quando muitos de vocês se reunirem, lançarão uma nova etapa da sua jornada, uma jornada que – posso lhes assegurar – termina onde começa agora. Então, a missão que repousava inconsciente dentro de vocês florescerá na consciência. Sua rebelião intuitiva contra o mundo que lhes for apresentado como normal se tornará uma busca explícita para criar um mundo mais bonito.”

Uma mulher disse: “Fale-nos mais sobre o tempo da solidão, para que possamos nos preparar”.

A anciã falou: “No tempo da solidão vocês procurarão se convencer de que não estão loucos. Farão isso contando às pessoas sobre tudo que está errado no mundo, e se sentirão traídos quando elas não prestarem atenção. Talvez tenham necessidade de histórias sobre coisas erradas, atrocidades, e destruição ecológica, pois elas legitimam suas intuições de que um mundo mais bonito existe. Mas depois de receberem a ajuda que enviaremos, e depois do estímulo dos encontros, não mais precisarão disso. Pois saberão com certeza. Sua energia doravante será voltada para criar ativamente esse mundo mais bonito”.

Um dos membros da tribo disse: “Como sabe que isso vai funcionar? Tem certeza de que os poderes de nosso xamā são fortes o suficiente para nos enviar numa tal jornada?”

E a anciã respondeu: “Sei que vai funcionar porque ele já fez o mesmo muitas vezes antes. Muitos foram enviados à Terra para viver vidas humanas e construir as bases da missão que vocês empreenderam agora. Ele tem praticado muito! A diferença é que agora muitos irão ao mesmo tempo. A novidade nesse tempo que viverão é que vocês formarão massa crítica, e uns despertarão os outros para a missão. O calor que gerarão acenderá a mesma fagulha que está escondida em todo ser humano, pois em verdade todos são membros de uma tribo como a nossa. A galáxia inteira e mais além, tudo está convergindo para a Terra, pois nunca um planeta chegou tão fundo na Separação e conseguiu voltar. Aqueles de vocês que decidirem ir serão parte de um novo passo na evolução cósmica”.

Um membro da tribo perguntou: “Existe o perigo de ficarmos perdidos nesse mundo, e nunca despertarmos do transe xamânico? Há perigo de o desespero, o cinismo e a dor da separação serem tão fortes a ponto de extinguir toda centelha de esperança, a fagulha de nosso verdadeiro ser e origem, e de ficarmos separados daqueles que amamos para sempre?”

A anciã respondeu, “Isso é impossível. Quanto mais estiverem perdidos, mais poderosa será a ajuda que enviaremos. Talvez a recebam num tempo de colapso de seu mundo pessoal, a perda de tudo que era importante para vocês. Mais tarde reconhecerão a dádiva ali contida. Jamais os abandonaremos”.

Outro homem disse. “É possível que nossa missão fracasse, e que esse planeta, a Terra, pereça?”

A anciã então ponderou: “Responderei sua pergunta com um paradoxo. É impossível que sua missão fracasse. Sim, seu sucesso depende de suas ações. O destino do mundo está em suas mãos. A chave para o paradoxo está dentro de vocês, no sentimento que trazem, de que cada uma de suas ações, mesmo as lutas mais pessoais e secretas, têm significado cósmico. Saberão então, como sabem agora. que tudo que vocês fazem tem importância”.

Não houve mais perguntas. Os voluntários se reuniram em círculo, o xamă foi até cada um deles. A última coisa de que tiveram consciência fol da fumaça que o xamã soprou no rosto de cada um. Entraram em transe profundo e sonharam que estavam num novo mundo, nesse onde estamos hoje.

Do livro “O mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível” de Charles Eisenstein

Juliana Matsuoka
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