Você gostaria de conseguir reagir de forma diferente quando está diante de um conflito? De forma mais consciente e menos impulsiva?

Mas é um desafio tão grande, que parece ser maior do que você? E aí você não consegue, acaba sendo violento com as pessoas sem querer, se sentindo mal e achando que isso é um problema da sua personalidade?

Saiba que esse não é um defeito seu. Isso realmente é resultado de algo muito maior que nós. Da nossa educação, das nossas referências, dos discursos que escutamos durante as nossas vidas, em suma, da forma como nossa sociedade funciona há milhares de anos. 

Entretanto, se estivermos realmente dispostos, podemos começar a escrever uma história diferente a partir de hoje.

 

Somos treinados para a violência

Quando somos crianças, fazemos de tudo para sermos amados, aceitos, para pertencer. Pertencer, para as crianças, é mais importante que a própria felicidade, que a própria vida. Sacrificamos qualquer coisa por isso, nossa alegria, espontaneidade, criatividade.

Mas por que fazemos isso?

Porque nossos instintos de sobrevivência sabem que pertencer a uma comunidade é uma condição indispensável para proteger a vida. Principalmente quando somos crianças e não podemos prover para nós mesmos.

Na nossa história distante, como espécie, morte era a consequência de ser excluído de uma comunidade. 

Na nossa cultura, obediência é sinônimo de respeito. E é isso que os adultos esperam das crianças. Em troca disso, elas são aceitas, incluídas e amadas. 

E essa cultura da obediência às regras se perpetua nas nossas vidas adultas cotidianas. Fazemos coisas por obrigação o tempo todo e esperamos que os outros cumpram com suas obrigações também. 

Quem não cumpre é merecedor de punições, julgamentos e sofrimento. Somos autorizados socialmente a praticar violência quando estamos “do lado do bem”. Principalmente, a violência invisível que consiste de acusações, humilhações, críticas e ameaças.

E assim, crescemos e vivemos não só violentos, mas também desprovidos da alegria que é fazer as coisas de coração, por escolha. Afinal, estamos funcionando no mundo há tantos anos no modo do “tenho que …” fazer isso, “sou obrigado a” fazer aquilo.

 

Precisamos de autonomia

Todos nós, seres humanos, somos movidos por necessidades humanas universais, como vimos em relação à necessidade de pertencimento. Outro poderoso motivador que se manifesta em nós, desde os primeiros anos de vida, é a nossa necessidade de autonomia.

Queremos fazer nossas próprias escolhas, dar conta de fazer as coisas por nós mesmos. Quem não se sente maravilhosamente bem quando consegue isso, não é?

As exigências e obrigações são fortes ameaças à nossa necessidade de autonomia. Por isso, diante de uma obrigação, nos vemos diante de apenas duas opções: 

1) nos submeter por medo ou pela expectativa de recompensa (suprimindo a necessidade de autonomia com o intuito de atender outras necessidades);

2) nos rebelar, protestar (na tentativa de proteger nossa autonomia).

Ou seja, diante de uma obrigação, não temos a oportunidade de colaborar através da escolha de contribuir de boa vontade. E quem faz uma exigência perde a oportunidade de receber uma algo que venha de coração.

Por isso, meu objetivo aqui é te ajudar a sair do jogo das exigências. Tanto das que você faz para você mesmo, quando das que você recebe de outras pessoas.

Quando uma pessoa faz uma exigência, ela o faz por não encontrar outras formas de pedir para que suas necessidades sejam atendidas. 

Por pensar que as estratégias são escassas. 

E por não perceber a insustentabilidade da energia cultivada pelas dominação. Por não perceber o quão perigosa ela é. Um solo fértil para a perpetuação da violência.

 

Você não é obrigado a nada

Preparado para pensar diferente, e colher frutos diferentes?

Então vamos lá.

Tudo que você faz, você faz para atender alguma necessidade sua.

E não porque você é obrigado a fazer isso.

Consciente ou inconscientemente, você faz escolhas que tentam cuidar de coisas importantes para você.

Você está lendo este material para atender, provavelmente, as suas necessidades de aprendizado, de conhecimento, de clareza.

Você toma banho para atender suas necessidades, pode ser de saúde e de bem estar.

Se você trabalha, você trabalha para atender suas necessidades. Pode ser de sustento, de segurança, de valorização, reconhecimento.

Se uma pessoa entrega sua bolsa para um ladrão armado, ela o faz para atender a sua necessidade de proteção, de sobrevivência.

Se uma pessoa deixa de fazer o que gosta para obedecer às ordens dos seus pais, pode ser que ela esteja atendendo suas necessidades de ser aceito, de pertencimento, de amor.

Muitas vezes escolhemos estratégias que, quando paramos para pensar, não fazem sentido, pois nos distanciam de termos as nossas necessidades atendidas. Ou que, às vezes, traz danos para nós mesmo ou para os outros.

Por exemplo, quando eu grito com alguém, estou tentando atender a minha necessidade de ser escutada, ser considerada. Mas na realidade, o que acontece, é o contrário. Quanto mais eu grito, menos as pessoas me escutam e me consideram.

Utilizamos estratégias violentas quando estamos inconscientes de quais necessidades nos movem. De quais os nossos motivadores para as nossas ações, falas e pensamentos.

“Ficamos perigosos quando não temos consciência de nossa responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos.”

Marshall Rosenberg

Podemos escolher formas para atender nossas necessidades que tragam mais bem estar para nós e para os outros, quando estamos conscientes das nossas necessidades e das necessidades dos outros. Quando nos lembramos que elas são igualmente importantes, já que somos interdependentes. Já que só temos um real bem estar quando o outro também tem.

 

Troque a energia do “tenho que” para energia do “eu escolho”

Se viermos a ceder e nos submeter a ordens sem sentido, nossas ações se originarão de uma energia destituída da alegria de viver. E não haverá dentro de nós energia para a empatia, para a criatividade, e para a superação dos desconfortos inerentes a um diálogo.

Por isso a Comunicação Não Violenta nos inspira a transformar o nosso hábito de pensar e dizer “tenho que” pelo hábito de pensar e dizer “eu escolho”. O exercício abaixo irá te ajudar nesse processo.

criando-pontes-autorresponsabilidade

  1. Pense em algo que você definitivamente não gosta de fazer (apenas uma), mas faz por obrigação.

Por exemplo: Eu tenho que cozinhar para minha família todos os dias.

 

  1. Investigue, com a ajuda da lista de necessidades humanas universais, qual necessidade você busca atender fazendo isso. Se surgirem várias necessidades, escolha apenas as duas principais.

Por exemplo: Ao cozinhar para a família todos os dias, eu estou tentando atender minhas necessidades de cuidar da minha família (cuidado) e de ter comida para comermos (alimento).

 

  1. Você consegue dizer para si mesmo: Eu escolho seguir fazendo isso, para atender às minhas necessidades? Se sim, ok. O “tenho que fazer comida” pode se transformar em “estou disposto a fazer comida”, e quem sabe em “faço comida para a minha família de coração”.

Por exemplo: Eu escolho seguir cozinhando para a família todos os dias para atender às minhas necessidades de cuidado e de alimento.

 

  1. Se você não consegue se dizer que “escolhe” fazer isso, e quer seguir na busca pela autorresponsabilidade, investigue outras estratégias para atender suas necessidades. Você pode pedir ajuda para pessoas de sua confiança para te ajudarem com sugestões de outras possibilidades de estratégias, pesquisar saídas, utilizar a sua criatividade.

Por exemplo: Não vou mais cozinhar para a família todos os dias. Vou buscar outras estratégias para atender minhas necessidades de cuidado e alimento. Poderia ser comprando comida pronta, cozinhando uma vez na semana e congelando para os outros dias, revezando dias de cozinhar com outros membros da família…

 

Já vi diversas reações de pessoas que realizaram este exercício. É muito comum ver algumas se sentindo aliviadas, pois se libertaram de alguma obrigação que elas mesmas se impunham. Decidiram não fazer mais aquilo, e encontraram outras formas de atender suas necessidades. Novas estratégias que elas conseguem dizer que “fazem de coração”.

Mas pode ser que não seja tão fácil simplesmente deixar de fazer o que você sempre fez, devido ao receio dos impactos negativos que isso pode gerar. E isso acabe te levando a uma visão de escassez, de que não existem outras formas para atender suas necessidades.

Em algumas situações não é fácil porque a escolha pode acabar gerando sentimentos desconfortáveis em você e nas pessoas envolvidas. Mas isso tudo não é sobre evitar dos sentimentos desconfortáveis. É sobre fazer escolhas responsáveis para não perpetuar violência nem para si mesmo, nem para os outros.

Passar a agir a partir do coração não significa que só faremos coisas legais e divertidas.

Significa que faremos o que escolhermos para atender nossas necessidades, mesmo que a necessidade seja de sobrevivência. E que nos abriremos para a criatividade na busca de encontrar estratégias que atendam nossas necessidades de formas menos custosas.

Cultivar autorresponsabilidade não anula a existência de violências que causam danos às pessoas e restringem suas possibilidades. Muito trabalho precisa ser feito para diminuir a violência estrutural além do nosso trabalho interno individual. Mas é pelas pessoas que compõem uma sociedade que ela se transforma.

Nossa sociedade não é algo que está lá fora, ela é composta por cada um de nós. Não apenas recebemos os impactos dela, mas também os geramos.

Juliana Matsuoka
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