Faz um tempo que li essa frase num momento despretensioso enquanto corria as fotos no instagram: “eu não erro, eu aprendo”.
Ela reverbera dentro de mim sempre que eu dou meus vacilos.
Hoje eu dei um.
Estávamos eu, a Emi (minha filha de 1 ano) e minha sobrinha Julia (6 anos) no quarto onde eu colocaria a bebê para dormir. A Julia continuou assistindo o desenho no meu celular, enquanto eu pedia para ela – pela terceira vez – para me devolver o aparelho e ir para a sala, pois eu precisava colocar a Emi para dormir.
No fim eu tomei o celular da mão dela e disse “estou muito triste com você”. Ela saiu e foi para a sala.
Eu consegui o que eu queria naquele momento. Ela saiu do quarto, eu tinha de volta meu celular em mãos, e a bebê começou a se acalmar.

Mas me senti um pouquinho mais distante da Julia. E acredito que é de pouquinho em pouquinho que vamos construindo uma relação respeitosa. Por isso não fiquei em paz comigo mesma.
Estudo Disciplina Positiva e Comunicação Não-Violenta, faço cursos, leio livros, pratico e participo de comunidades. Mas fui totalmente contra tudo que aprendo e acredito.
Na minha fala só me referi a ela, e ao que ela deveria fazer. Não falei sobre nada que estava vivo em mim. Além disso, condicionei minha apreciação por ela apenas aos momentos em que ela me obedece.
Não me passou pela cabeça falar, antes de mais nada, que eu estava muito cansada do dia e impaciente porque a bebê estava chorando há quase uma hora. Não dei nenhuma opção para ela poder escolher e perceber que tem autonomia. Não combinei um tempo para que pudéssemos fazer um acordo, um combinado.

Dizer que eu estava triste com ela foi uma forma de fazê-la sofrer pelo que ela fez. Fazê-la se sentir culpada, envergonhada. Usei o modo educativo que está nas minhas raízes, o que se baseia na punição.

Aquele que tenta em vão fazer a pessoa dar o seu melhor fazendo-a se sentir mal.

Fiquei pensando tudo isso enquanto eu fazia a bebê dormir.
Depois que a Emi finalmente dormiu, saí do quarto aliviada e encontrei a Julia na cozinha. Ela se divertindo e conversando comigo como se nada tivesse acontecido.

Mesmo sabendo da possibilidade de que o ocorrido não foi significativo para ela, eu não ia ficar em paz se eu não dissesse nada.

Eu falei: “Julia, você me desculpa pelo que eu disse?”. Ela respondeu feliz “Sim”. E eu aproveitei para dizer um pouquinho do que estava vivo em mim: “Eu estava muito cansada e impaciente”. Ela falou “Tudo bem”, com os olhos sorrindo.

E continuou explicando a brincadeira maluquinha que ela estava fazendo.

Eu acredito que se o esforço de se comunicar de forma consciente, não violenta, humana, vale a pena mesmo que as coisas não saiam do jeitinho que esperávamos.

Tudo que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito de forma imperfeita.
Marshall Rosenberg

Nos alimentar de forma saudável, praticar exercícios físicos, cuidar da nossa casa…

Tudo isso vale a pena ser feito mesmo que só quando a gente consegue. Sempre será bom para nós, mesmo que não seja do jeito como o mundo diz que deveria ser.

Cultivar a conexão com as pessoas que amamos também vale a pena. Mesmo que dessa forma meio torta.

Juliana Matsuoka
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