Num post anterior, escrevi sobre as dificuldades de praticar a Comunicação Não-Violenta quando você não tem ninguém próximo a você com o mesmo objetivo. Sobre o quanto isso pode ser solitário e desmotivador.

Aqui vamos falar sobre o que podemos fazer quando nos sentirmos dessa forma.

O que podemos fazer para cuidar de nós mesmos quando ninguém parece estar disposto a nos escutar?

O que podemos fazer para construir uma comunidade onde possamos nos apoiar?

 

Olhar para dentro

  • Antes de mais nada, é importante tomar um tempo

Me lembro de vezes que tive a infeliz ideia de pedir para ser escutada, ser compreendida, afogada num estado cerebral tomado pelo instinto de luta, na tentativa de me defender. Parecia que era uma questão de vida ou morte – é essa a impressão que temos quando agimos por impulso, e há grandes chances de um momento como esse ser acompanhado por um amargo arrependimento.

Para prevenir isso, crie uma estratégia para escutar seu corpo quando ele entra em um estado de luta, fuga ou paralisação. E para se lembrar de que este não é um momento fisiologicamente favorável para ter conversas desafiadoras e tomar decisões.

 

  • Você com você mesmo, pode procurar identificar: “o que estou sentindo, do que estou precisando?”

Autoconexão. Quais são seus sentimentos? Quais são suas necessidades? Esse é o ponto de partida se queremos nos preparar para buscar estratégias não violentas para atender nossas necessidades. Tudo bem precisar das cartas do baralho, das listas de apoio à prática da Comunicação Não Violenta. Tudo bem precisar escrever, ou mesmo descobrir isso com ajuda de alguém através de uma escuta empática. Ter clareza é um ponto de partida que faz toda diferença.

 

  • Você com você mesmo, pode também procurar esclarecer como você quer sua necessidade seja atendida

Mais autoconexão. Se quero ser escutada, se quero empatia, e quero pedir por isso, o que eu espero que o outro faça? O outro não tem como adivinhar. Faz sentido pedir isso para essa pessoa específica, nessa ocasião?

Em várias ocasiões em que eu precisei de escuta, não fazia sentido para mim pedir para que o outro esperasse eu terminar de falar antes dizer algo, me dissesse o que ele entendeu do que eu disse, me dissesse como ele imaginava que eu estava me sentindo, ou do que eu estava precisando. Porque naqueles momentos era mais importante espontaneidade, leveza, aceitação, inclusão.

 

  • Você com você mesmo, pode ir aos poucos ir tomando consciência dos seus limites

Sim, autoconexão de novo. Tendo consciência dos meus limites, eu me protejo, protejo os outros, e mantenho meu abastecimento de energia para seguir praticando a consciência nas minhas relações.

 

  • Um conselho: aceite que a prática da Comunicação Não-Violenta, da empatia, da escuta, nem sempre acontecerá com as pessoas próximas a você

Foi, e ainda é doloroso aceitar que não serei escutada da forma como eu gostaria pelas pessoas mais próximas a mim. Geralmente elas querem contribuir, consertar as situações para interromper o meu sofrimento, antes de eu esvaziar o que tenho a dizer e sentir.

Enquanto as pessoas estiverem inconscientes do quanto é enriquecedor e curativo ajudar apenas estando presente, silenciando suas vozes para dar vez à nossa, teremos que procurar apoio com pessoas fora do nosso círculo de convivência.

 

Estratégias de ação

  • Construir uma rede de apoio

Não há nada mais aliviante do que saber que tenho pessoas preparadas para me escutar, como eu quero ser escutada. Que me acompanham nos meus sentimentos. Que não tentam me diagnosticar, me consertar. Elas me ajudam a encontrar meus sentimentos e necessidades quando estou no campo dos julgamentos.

E é bom ter várias pessoas com quem possamos contar, porque elas também têm suas questões e indisponibilidades. Assim você aumenta a possibilidade de ter alguém disponível nos momentos que você precisar.

Eu resisti um pouco a isso no começo. Me soava estranho, artificial. Espontaneidade era (e ainda é) algo importante para mim. Mas aos poucos fui percebendo o quanto APOIO era mais importante que espontaneidade naquele momento. E vejo que adquirimos naturalidade e leveza através da prática, do tempo e da constância.

 

  • Frequentar e construir grupos que cultivam práticas de empatia

Em várias cidades do Brasil já existem movimentos acessíveis que cultivam práticas da Comunicação Não-Violenta. Se você não encontrar na sua cidade, você pode começar a construir um grupo. O instituto CNV Brasil pode te apoiar neste movimento de construir Círculos Empáticos.

Para quem já passou por algum curso introdutório de CNV, tem também a possibilidade de participar do grupo online de apoio à prática da Comunicação Não-Violenta:

Grupo de apoio à prática da Comunicação Não-Violenta OnLine

Se você quiser se aprofundar na prática, vem conhecer o nosso grupo!

  • E principalmente, seja a mudança que você quer ver no mundo

Os desafios nas relações humanas estão aí todos os dias, todas as horas, e podemos aproveitá-las para gerar transformação com cada escolha que fazemos.

“A cada interação, conversa e pensamento, vemo-nos diante de uma escolha: promover a paz ou perpetuar a violência.”

Marshall Rosenberg

 

Para acalmar nossos corações, leia um conto sobre vencer as dolorosas dificuldades de construir um mundo melhor neste post aqui.

E para você, uma música maravilhosa de aquecer o coração – Ciganos do Espaço, da banda Tukum.

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Online | 19nov

Juliana Matsuoka
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