Eu imagino que você, pessoa que me lê, seja uma mãe. Mas, por favor, não desista da leitura se você foi um pai. É que, considerando a minha experiência como pessoa que trabalha com conflitos, 100% das pessoas que já me procuraram para lidar com os conflitos que emergem ao nascimento de um bebê, eram mães. Considerando também uma observação pessoal das minhas amigas que passaram por isso e a minha própria como mãe de duas filhas, são as mães que mais sofrem, refletem e buscam (desesperadamente) formas para lidar com os conflitos familiares ao nascimento de um bebê.

Há grandes chances, também, de você estar experienciando as dores e as delícias do puerpério. Hormônios e mecanismos biológicos intensos despertando todos os instintos para proteger a cria, e ninguém mais. O cérebro agindo menos de formas racionais, analíticas e organizadas e mais de formas intuitivas, emocionais e subjetivas.

Você deve estar com dor nas costas e com os sinais e sintomas da privação de sono que envolvem instabilidade emocional (tristeza, irritabilidade, impaciência), queda da imunidade, cansaço, fadiga e falhas na memória e na atenção. Você deve estar vivenciando, não apenas a privação de sono, mas também privação de exercícios físicos, das realizações profissionais, da cervejinha com as amigas, das maratonas de Netflix, dos cursos, et cetera infinito.

Isso, se você ainda não estiver com dores advindas da amamentação, do parto, das hemorroidas, da síndrome do túnel do carpo, da depressão, dentro várias outras dores que são comuns no pós parto e consomem muita energia.

Para agudizar a situação, como mortos vivos que saem de suas covas, emergem as questões do relacionamento que estavam enterradas e esquecidas. E a mais comum delas é a falta de apoio dos pais nos cuidados com o bebê, com a casa, e com nós mesmas. Resultados: carga mental e muita revolta.

Como você, mulher momentaneamente arrebentada, pode lidar de forma construtiva com esse conflito?

Primeiramente, não quero que isso aqui seja mais uma cobrança nas suas costas. Portanto sugiro que você utilize os filtros necessários na leitura para que seja capaz de jogar fora o que não te servir. Você já sabe, mas é sempre bom lembrar: você não é obrigada a nada. Além disso, cada uma de nós sabe das possibilidades e limitações que cabem em nossa realidade, neste determinado momento.

Por questões de praticidade e fluidez da leitura, vou utilizar o rótulo de “marido” ou “companheiro” para as pessoas com quem você se relaciona afetivamente e de quem você precisa da colaboração. Imagino que, em raras ocasiões, o desequilíbrio seja inverso. Ou mesmo com pessoas que não são casadas. Peço a sua compreensão em relação a essa limitação linguística excludente.

 

Primeira reflexão: perspectiva social para o seu conflito pessoal

Se você, assim como eu, escolheu criar crianças física e mentalmente saudáveis; socialmente conscientes; desenvolvidas intelectualmente; autônomas; e bondosas, em meio a essa cultura individualista; imediatista; urbana; e consumista, bem-vinda à missão de plantar em solo árido.

O provérbio africano diz: “É preciso toda uma tribo para criar uma criança.” Passe um dia sozinha com uma criança para compreender a veracidade desse provérbio. É uma exigência pesada que todas as necessidades de uma criança sejam atendidas apenas pela mãe e pelo pai. Assim como é insustentável esperar que tenhamos todas as nossas necessidades atendidas apenas pelos nossos companheiros. E vice-versa.

Você está lidando não apenas com um conflito no seu casamento. Você está desafiando a natureza ao cuidar de um bebê com o apoio de uma ou duas pessoas, num país onde não temos nem mesmo nossos direitos básicos de saúde, segurança, emprego e educação garantidos pelo Estado.

Além disso, a desigualdade entre homens e mulheres nos cuidados domésticos e infantis é histórica. Você está lidando com uma questão estrutural, uma praga insistente de raízes profundas.

O movimento de tomada de consciência dos homens sobre seus privilégios e responsabilidades é necessário e urgente, e está acontecendo de forma mais lenta que eu gostaria. Não podemos fazer isso por eles, e nem forçar esse processo. Ainda são poucos os homens que têm outros “homens paternos” como referências.

Diante disso tudo, acredito que, dentro de casa, a primeira postura a se tomar para dar espaço ao diálogo, possa ser a mais difícil: parar de procurar culpados.

Inclusive, porque você pode cair na cilada de pensar que a culpa de tudo isso que está acontecendo é sua.

A culpa não é do seu marido. A culpa não é dos pais dele.

Não é culpa de ninguém. Vamos sair desse jogo.

Não se veja numa luta contra ele. São vocês dois contra um problema.

Desarme-se, para que ele também possa ir se desarmando aos poucos.

 

Segunda reflexão: não somos educadas para conflito, nem mesmo para o diálogo

O problema não é a louça suja, não é o mercado que precisa fazer ou a fralda que precisa trocar. O problema é a nossa inabilidade para lidar com os conflitos e ter conversas delicadas.

Ilusoriamente, esperamos que sejamos capazes de oferecer o nosso melhor nos conflitos sem nunca ter nos preparado para eles, sem nunca, ao menos, ter conversado abertamente sobre eles.

Nesses casos, lidar com o conflito, tendo um novo bebê em casa, é como entrar numa maratona sem, ao menos, ter feito uma caminhada antes. Prepare-se para não cruzar a linha de chegada no tempo que você espera. Mas vale seguir a caminhada.

Não fomos educadas para expressar nossas necessidades, nossos sentimentos, nossas incertezas… Se isso tudo é um desafio para nós, imagine só para os homens, que escutam desde criança que “meninos não choram”.

 

Terceira reflexão: poder compartilhado, ao invés de poder de uma pessoa sobre a outra

Não queira um marido obediente, submisso, passivo. Casa limpa, bebê cuidado e comida feita às custas de um companheiro apático, é um preço que será pago pelo relacionamento no médio/longo prazo.

Assim como é insustentável que o sacrifício seja seu, é igualmente insustentável que o sacrifício seja dele. Ao menos, quando a sensação de sacrifício for equilibrada, o olhar poderá sair da visão do sacrifício e caminhar para a visão das maravilhas que é evoluir em parceria.

Não espere que as coisas sejam do seu jeito. Nem do jeito dele.

Se tudo der certo, as coisas vão ser do jeito de vocês.

Não no seu tempo. Não no tempo dele.

Mas no tempo de vocês.

Portanto, será algo novo. Diferente do que você quer, diferente do que ele quer. Para isso, posturas de abertura e criatividade ajudam um bocado.

Verbalizar essa abertura talvez seja um bom começo antes de qualquer conversa sobre qualquer assunto prático.

 

Quarta reflexão: tudo é urgente, mas…

“Conflitos exigem de nós tudo o que temos para oferecer.” Diz Johan Galtung, o pioneiro no campo dos estudos de paz e conflitos.

O momento no qual o bebê está chorando com a fralda cheia, é o pior momento para fazer um bom acordo sobre as trocas de fralda. É muito difícil, se não impossível, evocar a nossa melhor versão para um diálogo quando há sensação de urgência.

Para situações que se repetem, vale a pena preparar o terreno, abastecer o combustível de energia e de empatia e ter conversas destinada à construção de um acordo.

“O jeito que temos feito em relação à troca de fraldas não está funcionando para mim. Vamos pensar juntos sobre isso? Você pode conversar hoje à noite?”

 

Quinta reflexão: a vulnerabilidade como caminho

Todas as pessoas são diferentes. Apesar disso, temos algo em comum: nossa humanidade. 

Uma forma de resgatar a nossa humanidade é expressar a vulnerabilidade que existe por trás dos comportamentos e falas agressivas, das críticas e das ordens.

O que você sente? O que o seu coração mais quer?

“Eu estou preocupada com o nosso relacionamento…”

“Eu não sei o que fazer…”

“Não sei se isso vai dar certo, mas gostaria de tentar.”

“Queria que a gente conseguisse se entender.”

As habilidades de linguagem da Comunicação Não Violenta ajudam a trazer as conversas para esse lugar humano, desarmado, e que conecta as pessoas. A não deixar nos perder em meio às acusações, cobranças e críticas que fazemos.

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Sexta reflexão: a construção de pontes

Cada conflito é uma forma de surpreender positivamente ou negativamente o seu companheiro. É uma oportunidade para fortalecer ou para dissolver um pouquinho mais os laços entre vocês. 

Não espere que em uma conversa, ou em duas, os problemas se resolvam. A parceria e a confiança vão sendo construídas a cada dia, a cada conflito.

Essa ponte será a sustentação de uma cultura de diálogo na família. É observando a forma que vocês lidam com os conflitos que as crianças aprenderão a fazer isso também.

Podemos jogar os conflitos para debaixo do tapete e seguir a vida; podemos falar o que pensamos, virar as costas e bater a porta na cara das pessoas que foram injustas; ou podemos trazer as questões para o diálogo e conversar honestamente sobre elas. O que queremos que as crianças considerem “normal”?

Sim. Haverão escorregos e tropeços no meio do caminho. Em algum momento (na verdade, em vários momentos), você terá que se desculpar e dizer que está arrependida. E assim, naturalmente, todas as pessoas que estiverem vendo, também aprenderão a pedir desculpas e a expressar seu arrependimento.

Te desejo força nesse processo desafiador e gratificante que é construir pontes com as pessoas mais importantes da sua vida.

Ao dizer tudo isso, não quero te influenciar a se submeter a um relacionamento custe o que custar. É óbvio, mas importante lembrar que, mesmo que você escolha se separar, o seu ex-marido será, para sempre, o pai do seu filho. E mesmo separados, a forma que vocês tratarem um ao outro, trará impactos positivos ou negativos.

Eu acredito que cada uma de nós é responsável por determinar os limites necessários para que seja capaz de respeitar as pessoas como seres humanos, independentemente do que elas façam ou deixem de fazer.

 

*Parto do princípio ao escrever este texto, de que você não está numa relação abusiva, onde haja qualquer tipo de violência, seja ela física, psicológica, moral ou patrimonial. Precisamos nos lembrar que as situações extremas onde há ameaça à vida e aos direitos fundamentais são mais comuns do que podemos imaginar. Nesses casos, o diálogo não é suficiente para tratar essas situações e é necessária a proteção da lei e da comunidade.

*Escrevo esse texto em 2021, quando Maya está com 3 meses e Emi com 3 anos, compartilhando o teto e os objetivos com o Roberto, há 10 anos. E, diariamente, navegando nos mares dos conflitos cotidianos familiares.

Juliana Matsuoka
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